Alagoas

Dia das Crianças pode ser o “ano todo“

12 de outubro de 2018 | 08:50 | Apadrinhamento em instituições de acolhimento leva suporte afetivo, social e financeiro para meninos e meninas dos seis aos 18 anos

Crianças e adolescentes têm novas perspectivas, seja entre os que sonham com adoção ou os que acreditam que não podem mais ser adotados (Foto: Cortesia)

A possibilidade de ter vários “Dias das Crianças” durante todo o ano. É como se assemelha o apadrinhamento para crianças de instituições de acolhimento, uma espécie de dia especial a cada visita do padrinho ou madrinha.

O projeto Padrinho foi iniciado em 2016 pela 28ª Vara Cível da Capital – Infância e Juventude e possibilita o suporte afetivo, social ou financeiro a crianças de instituições de acolhimento.

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Segundo a psicóloga do juizado, Fátima Malta atualmente 40 pessoas estão inscritas no projeto, destas, 20 atuam de forma ativa, sendo 14 padrinhos afetivos, isto é, que podem passar o dia com a criança, passear e levar para casa.

“O projeto consiste em oportunizar as crianças e adolescentes que não foram adotadas nem reinseridas em suas famílias de origem o convívio sócio familiar. Nas categorias afetiva, financeira e social. O apadrinhamento é tão importante quanto a adoção pois os afetivos os levam para o convívio em família dando carinho, atenção, educação, lazer entre outras benesses. Temos desde o começo quase 40 inscritos, mas atuantes 20 sendo 14 afetivos, três sociais e três financeiros”, explica Fátima.

O apadrinhamento é possível a partir dos seis e até os 18 anos, período da chamada adoção tardia, idade onde é mais difícil para a criança ou adolescente ser adotado.  É necessário que o interessado passe por um cadastro para ser incluído nesta lista.

A única instituição de Maceió que não pode receber apadrinhamento é o Lar de Amparo a Crianças para Adoção (LACA), que assiste crianças de 0 a 6 anos, perfil que não se encaixa no abrangência do projeto.

ACONCHEGO

A psicóloga destaca que para eles, o apadrinhamento é uma forma de ampliar os horizontes, dando novas perspectivas para os que sonham com a adoção ou ainda que acreditam que não podem mais ser adotados.

“O beneficio além do afeto e atenção é uma forma delas se tornarem visíveis aos olhos da sociedade aprenderem com o convívio sócio familiar e que existem oportunidades além dos muros dos abrigos. E para ambos padrinhos e apadrinhados formação de vínculos importantes para construção do ser humano”, afirma.

A assistente social do Lar Marcolina Magalhães, Suane Cardeal explica que os benefícios deste tipo de contato vão além dos momentos vivenciados fora da instituição.

Suane Cardeal diz que desejo de contribuir pode gerar adoção (Foto: Cortesia)

“Na verdade elas se sentem acolhidas, porque assim, por mais que a gente as trate bem, trate com dignidade, nada substitui o apoio e aconchego de uma família. Para elas que estão sendo amadrinhadas por uma família, conseguem ver essa realidade, como realmente é o conceito de família. Elas conhecem a dinâmica de uma família. Porque têm no imaginário uma coisa e no decorrer da intimidade com a família, ela vê que é diferente, que não é só passeio, que é carinho, que é cuidado. Nós conseguimos desmistificar a ideia que elas têm de família”, pontua a assistente social.

Suane Cardeal diz que desejo de contribuir pode gerar adoção (Foto: Cortesia)

 

Apadrinhamento é movido pelo desejo de contribuir

A assistente social Suane Cardeal esclarece que o apadrinhamento é movido por um desejo de contribuir com as crianças de alguma forma. “Geralmente são pessoas que não querem a princípio adotar, mas desejam adotar uma criança, às vezes acontece no meio do caminho que se apegam de uma forma que entram com um pedido de guarda, mas às vezes não”, ressalta.

Segundo informações da 28ª Vara Cível da Capital, o apadrinhamento afetivo requer mais cuidado e um processo mais complexo, pois envolve visitas às residências dos candidatos, entrevistas, visitas às instituições e autorização do juizado. Já nos casos de apadrinhamento financeiro e/ou social há uma abertura maior.

“Os afetivos marcam dia e horário para retirarem as crianças da instituição que pode ser feriados finais de semana, datas especiais e férias, alguns com pernoite ou não. O social dedica o seu serviço como professor de inglês, dentista e etc. Já o financeiro paga escola, cursos, esportes e cobre algumas necessidades de seu afilhado. O social e financeiro não convivem. O apadrinhamento afetivo requer um maior cuidado ao selecionar pois fazemos visita domiciliar entrevistas psicossocial”, informa Fátima Malta.

Além do acompanhamento com os padrinhos, as crianças também são observadas e passam por um período de adaptação para minimizar qualquer possível impacto.

“Antes de fechar com a família a gente trabalha muito com a criança. Que é só uma experiência. Por isso essa idade, porque ela já está apta a entender que não vai ser uma adoção. Fora que até os sete anos a adoção acontece com maior facilidade e o projeto ajuda a desmistificar isso, de crianças muito pequenas. As pessoas acabam apadrinhando uma criança maior e começam a entender que não é a idade cronológica que conta”, comenta Suane.

Para padrinho, experiência é transformadora e emocionante

A experiência de convívio com uma criança totalmente alheia à sua realidade foi transformadora para o servidor público Marcos Lisboa de 43 anos. Ele que é funcionário do juizado, resolveu se inscrever no projeto de apadrinhamento assim que começou, em 2016.

De lá para cá Marcos já apadrinhou quatro crianças, três delas foram adotadas por outras famílias. O mais recente tem nove anos e é apadrinhado há cerca de três meses.

Atenção e o cuidado dedicados transformam Atenção e o cuidado dedicados transformam vida de adolescentes (Foto: Cortesia)vida de adolescentes (Foto: Cortesia)

“Já tive quatro afilhados, destes três foram adotados e atualmente estou com um que está sendo encaminhado para a adoção. Ele tem nove anos, é um menino esperto, uma criança fenomenal”, conta entusiasmado.

Atenção e o cuidado dedicados transformam vida de adolescentes (Foto: Cortesia)

O choque de realidade, para Marcos é uma das experiências transformadoras no contato com os afilhados.  “Uma vez levei ao shopping e disse vamos fazer um lanche e ele me perguntou o que era McDonalds. No café da manhã por exemplo, mesmo coisas normais do cotidiano, ele me perguntou o que era requeijão, o que era presunto e isso me emociona”, relembra.

Marcos revela que mesmo tão novas, as crianças e adolescentes dos abrigos carregam consigo muitas dores e traumas do passado e em relação ao contexto em que estavam inseridas.

“Geralmente essas crianças têm um histórico muito negativo, de muitos problemas, de coisas muito ruins em seu passado. A gente tem uma orientação de não conversar sobre o passado da crianças mas se ela quiser falar ouvir tudo, dar um conselho… Mas o meu afilhado passou por coisas muito ruins e quando ele fala do passado já enche os olhos de lágrima, eu vejo que ele tem muita mágoa da família, não se imagina que ele tenha tanta raiva do passado. Eu fiquei surpreso e me emociono”, afirmou.

Afeto muda perspectiva das crianças

E é considerando todo o histórico e a fragilidade das crianças que muitas vezes o primeiro contato é mais complicado, requer paciência e dedicação.

“Têm crianças que o abrigo mesmo diz que não querem ser adotadas, às vezes têm receio de passar pelos mesmos problemas que passaram em casa e dizem que não querem. Mas quando elas veem as outras crianças saindo com os padrinhos, contando história… elas pedem para ter, no início é assim. Eu tive um afilhado que se recusava logo no início, mas quando viu os coleguinhas saindo, passou a fazer perguntas e quis também. Eu conversei com ele e ele aceitou, passou um tempo comigo e disse que não era aquilo que ele pensava”, acrescenta.

A atenção e o cuidado dedicados transformam também a vida dos pequenos.

“Os padrinhos afetivos têm esse dever de tratar, de cuidar, então o comportamento dessas crianças melhora, elas se sentem ‘exclusivas’. Eu trato meu afilhado como um dos meus sobrinhos, tenho o compromisso de olhar o caderno, ver se precisa ir ao médico…Eles vendo essa atenção toda, voltada só para ele, melhora. Porque a criança que cresce no abrigo tem que dividir tudo. E quando ele se sente exclusivo ele começa a entender sua importância. Ela vê a vida de uma maneira diferente. A criança se sente acolhida, se sente amparada, porque só o fato de estar saindo do abrigo e indo para um passeio numa praia, num cinema, num shopping, na casa de um padrinho com outras crianças que não são do abrigo. A atenção é só dela e ela sente a diferença”, aponta.

Fonte: Tribuna Hoje

 

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