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“O caso PC Farias continua a ser muito misterioso”

Por Alagoas Brasil Noticias

Caso PC Farias

molina

Ricardo Molina (foto).

Em 2001, ACM (1927-2007) renunciou ao mandato de senador, após escândalo de quebra do sigilo do painel eletrônico da Casa. Cinco anos antes, o duplo assassinato de PC Farias (1945-1996) e de sua então namorada Suzana Marcolino (1968-1996) ganhou repercussão até internacional. Esses e outros casos de grande comoção estão reunidos no livro O Brasil Na Fita – De Collor a Dilma, do Caso Madri à Lava-Jato, o Que Vi e Ouvi em Mais de Vinte Anos (Record, 406 páginas, R$ 49,90), do famoso perito Ricardo Molina. Nas mais de 400 páginas, Molina conta detalhes de casos em que trabalhou e prova como a investigação de um perito é importante na resolução de crimes. Fica evidente também a necessidade de um trabalho minucioso como, por exemplo, perceber o toque contínuo de um relógio ao fundo, comprovando que a gravação não teve cortes ou fazer leitura labial por meio de frames de imagens. Molina deixa de lado a isenção esperada de um perito e revela bastidores – com suas opiniões – de casos políticos como o assassinato de PC Farias, a quebra de sigilo do painel do Senado revelada por ACM em conversa gravada e até o recente diálogo entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (o perito prova que o telefone grampeado era mesmo o de Lula).  De crimes policiais estão lá a chacina de Vigário Geral, o confronto entre os bandidos do PCC e a polícia paulista, a morte de Eloá Pimentel, morta pelo namorado Lindemberg Alves, depois de uma desastrada ação da polícia, e ainda casos de famosos como Belo – que foi preso por envolvimento com o tráfico de drogas – e Mamonas Assassinas, mortos após acidente aéreo na Serra da Cantareira, em março de 1996.  Em entrevista, Molina revela qual caso mais o instigou, diz que lidar com casos políticos é mais complexo do que com os policiais e que deve haver mais interação entre a perícia policial e a universidade. 

No livro, o senhor reúne importantes casos desde o ex-ministro Antônio Rogério Magri até o recente grampo da conversa entre Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Qual foi o critério para escolher quais casos entrariam no livro, já que atuou em muitos casos importantes do país?

Houve vários critérios, um tanto complementares. Um, o da importância política e/ou policial do caso. Assim, por exemplo, casos como a quebra do sigilo do painel do Senado, PC Farias, a chacina de Eldorado de Carajás, Gil Rugai etc., são casos de grande repercussão e que resultaram em consequências importantes (ACM renunciou ao cargo de Senador após ser desmascarado, por exemplo). Outros casos foram incluídos porque envolvem algum tipo de particularidade técnica interessante. Assim, por exemplo, o caso do Osvaldo Manoel da Silva, para o qual houve a necessidade de uma reconstrução computadorizada detalhada. O caso Lindbergh/Eloá, no qual foi necessário uma análise acústica dos disparos. O caso do gol anulado do Obina, o qual, embora não faça o mundo parar, envolve uma curiosidade interessante, qual seja a de que uma análise acústica pode esclarecer se o juiz agiu honestamente ou não.

O senhor se permite opinar no livro diferentemente do que o trabalho como perito permite.. .então, gostaria de saber qual dos casos relatados no livro mais te instiga, surpreende ou choca? Por quê?

É evidente que, se faço um laudo, não emito opiniões que não estejam restritas ao âmbito do trabalho técnico exigido. Mas no livro não sou apenas um perito, sou também um cidadão e, portanto, penso ter o direito de externar algumas opiniões de ordem pessoal. Quanto ao caso que mais me instiga… é difícil. Eu acho que o caso PC Farias continua a ser muito misterioso. Alguns aspectos foram elucidados, mas muitos ainda não. A história oficial (que a namorada de PC, Suzana Marcolino, o assassinou e depois cometeu suicídio) é evidentemente falsa, mas ninguém sabe ao certo o que ocorreu. O caso ACM, como desafio técnico foi muito instigante, visto que, como descrevo no livro, foi extremamente difícil realizar aquela transcrição.

Estamos diante de uma das maiores crises políticas do país, com raízes no mensalão, passando pela Lava-Jato (também na tua obra). É mais complicado lidar com políticos do que com casos criminais?

Tanto o título O Brasil na Fita quanto o subtítulo De Collor a Dilma já existia desde o primeiro momento, quando começamos a escrever há cerca de quatro anos. Foi uma feliz (ou infeliz?) coincidência que os dois presidentes tenham passado por um processo de impeachment. Lidar com política é sempre mais complicado, pois o lado que se sente prejudicado muitas vezes reage, não raramente com fúria. O problema é que em qualquer caso sempre haverá um lado que vai se sentir prejudicado e, nos casos políticos, o perito acaba sendo acusado de partidarismo, mesmo que tenha tido todo o cuidado técnico. Mas são ossos do ofício. Na verdade, como você pode notar, poucos peritos se expõem em casos de repercussão política, exatamente porque temem represálias. Já fui xingado pela internet muitas vezes (elogiado também). Não ligo para essas reações, são normais no campo político. Nos casos policiais muitas vezes há um embate entre peritos. Pode acontecer de eu ter uma opinião diferente da perícia dita “oficial” e essa divergência muitas vezes causa atritos. Tecnicamente essa “oficialidade” nada significa, embora os peritos da polícia queiram confundir “oficialidade” com “apuro técnico”, algo que nem sempre é verdadeiro. Auto apregoar uma suposta “infalibilidade” é sinal de prepotência e falta de espírtito científico. Em Ciência a discussão é sempre melhor do que as afirmações por demais categóricas.

Um trecho do livro que me chocou bastante foram as transcrições de áudio de conversas entre policiais e traficantes. É mais sensível, digamos assim, trabalhar em casos que envolvem policiais corruptos?

Esses casos são, infelizmente, muito comuns. Coloquei apenas uns exemplos, mas há dezenas da mesma natureza. É lamentável, mas não considero esses casos muito instigantes. Em geral envolvem aspectos técnicos mais rotineiros, sem maiores dificuldades. Como cidadão, vejo uma situação muito complicada, de difícil resolução. O tráfico movimenta grandes quantias e sempre que isso acontece surge a corrupção policial. No Rio de Janeiro, por exemplo, essa relação promíscua está quase institucionalizada. Já houve até um Chefe da Polícia Civil preso por envolvimento com o tráfico. Não vejo solução no curto prazo. O problema das drogas tem que ser repensado.

O que, na opinião do senhor, ainda temos (Brasil) a avançar na área de investigação criminal e política, mais especificamente na área de perícia?

Penso que deve haver uma maior interação entre a perícia policial e a universidade. Ninguém avança sem estar atualizado cientificamente, participando de congressos internacionais importantes. Há um bloqueio dos dois lados: a universidade em geral está muito fechada para o mundo “policial” e , por outro lado, a perícia dita “oficial” está muito ensimesmada e não admite ser confrontada com os critérios rígidos da ciência acadêmica. Faltam também cursos, especialmente de pós-graduação, voltados especificamente para especialidades periciais. Devo ressaltar, entretanto, que nenhum curso vai fazer automaticamente um bom perito. Trata-se de uma carreira que exige um alto grau de vocação.

Para fechar, o senhor também fala no livro que teve que aprender a lidar com a imprensa. Qual foi o momento mais complicado em relação a isto? O caso Magri foi um divisor de águas na tua carreira?

Embora eu já tivesse atuado em alguns casos antes do caso Magri, este foi uma espécie de “batismo de fogo”, pois a repercussão na época foi enorme e tive que enfrentar durante cerca de 15 dias entrevistas coletivas, algo que nunca tinha feito antes. Nesse sentido o caso Magri foi mesmo um divisor de águas. Mas entendi logo que o diálogo com a imprensa é bem diferente do diálogo na universidade. É preciso ser conciso, claro e objetivo. Na verdade nunca tive muita dificuldade porque não gosto de muito formalismo. Mesmo no meio acadêmico procuro expor tudo de forma clara. Existe um certo hermetismo na academia que me parece artificial. No meio acadêmico ainda se pode aceitar isso, mas quando se fala para a imprensa é preciso respeitar quem está do outro lado (o telespectador, o leitor, o ouvinte), que não tem nenhuma obrigação de conhecer detalhes técnicos quase sempre chatos.

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