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Refugiada síria volta a sorrir, quer ver Cielo e conta os dias para a Olimpíada

Por Alagoas Brasil Noticias

Vinda de Berlim, na Alemanha, Yusra Mardini chegou ao Rio de Janeiro junto do nascer do sol, na última terça-feira. Acompanhando da janelinha do avião, viu raiar um novo dia e ao pisar em solo brasileiro para a disputa de sua primeira Olimpíada enfim se deu conta de quão privilegiada é. Aos 18 anos, ela poderia ser apenas mais uma jovem nadando no Estádio Olímpico de Esportes Aquáticos, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca. Mas não. A garota nascida e criada em Damasco, na devastada Síria, é muito maior. É gigante. Em agosto de 2015, ao lado da irmã Sarah, a nadadora tomou a decisão que alterou o rumo da sua vida e que exatamente um ano depois a colocou na Rio 2016, no inédito e histórico Time de Refugiados criado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Sofrendo com a guerra civil desde julho de 2011, Yusra não suportava mais fugir com a família de uma cidade para outra escapando das bombas e em busca de piscinas seguras para treinar. Se jASDá era uma refugiada dentro do seu próprio país, por que não deixá-lo para seguir no esporte? Foi quando se despediu dos pais e rumou para a Turquia. Dali, entrou em um bote superlotado no mar Egeu, viu a morte ao seu lado quando a embarcação quase virou e transformou-se em heroína ao decidir saltar e nadar junto de Sarah para salvar os demais. Chegou em Lesbos, na Grécia, ficou em um campo de refugiados e então iniciou outra jornada até a Alemanha, onde voltou a treinar em alto rendimento. Em junho, recebeu o comunicado do COI de que estaria nos Jogos, nadando os 200m livres, mas só se deu conta disso quando treinou pela primeira vez no local em que dará as braçadas mais emocionantes da sua vida.

– Aconteceram muitas coisas no último ano e ninguém acredita no que houve. Em agosto eu estava sofrendo pelo caminho. E aqui estou nos Jogos Olímpicos, na piscina, e isso é incrível! Acho que muitas pessoas têm de aprender alguma coisa com isso. Você precisa seguir em frente. Acho que é uma lição. Não é o fim do mundo quando você tem um problema ou você tem algo diferente a acontecer em sua vida. Você tem de encontrar a sua força perdida para fazer o que você quer alcançar – afirmou a sorridente menina de cabelos negros.

Aos 14 anos, Yusra já fazia história. Uma criança, nadou o Mundial da Turquia junto dos adultos. Disputou as provas dos 200m e 400m livres. Quatro anos depois e com uma maturidade precoce e sem escolha depois de tantos percalços, a síria é consciente do que veio fazer no Rio de Janeiro. A busca não é por uma medalha. Yusra quer se divertir, aproveitar cada segundo no Rio de Janeiro e deixar na piscina o melhor de si. Apenas isso.

– Meu objetivo agora é fazer a minha melhor marca pessoal porque os metais (medalhas) não são possíveis agora. Mas eu vou trabalhar mais para Tóquio, eu espero – disse a jovem.

TRISTEZA PELA SÍRIA

A dureza da caminhada não tornou Yusra uma menina amarga. Pelo contrário. A possibilidade de seguir sorrindo a fez doce. Triste pelo confronto sem fim em seu país, ela espera um dia poder voltar e representar a Síria em uma Olimpíada. Depois que chegou em Berlim, a jovem recebeu todo o apoio do comitê olímpico alemão e do técnico Swen Spannekrebs, que passou a ser seu técnico no clube Wasserfreunde Spandau 04. Em fevereiro, começou a ganhar uma bolsa de ajuda do Comitê Olímpico Internacional também.

– É complicado, parece que a guerra na Síria nunca vai terminar. Mas espero que termine realmente logo. Claro que eu quero representar meu país. Absolutamente, eu também não posso esquecer do que a Alemanha fez por mim e ao Comitê Olímpico deles. Talvez eu vá competir por uma bandeira dupla – brincou Mardini.

A presença de uma equipe de refugiados é algo novo na Vila Olímpica. Anônima no meio de tantas estrelas, ela diz que não é reconhecida e nem liga para isso. Mas os refugiados são famosos. Quando lembram sua história, muitos se dizem inspirados e orgulhosos. Além de nadar, a síria quer tietar as estrelas. Está de olho em Michael Phelps, Ryan Lotche, mas lamenta uma ausência também sentida pelos brasileiros: Cesar Cielo.

– Eu quero visitar um monte de lugares, conhecer muitas pessoas. Quero visitar a estátua, eu não sei o nome… o Cristo, eu vou lá. Eu não sei qual o nosso calendário, então não sei nada sobre isso. Eu apenas comuniquei. Quero ver Michael Phelps, Ryan Lochte, Katinka Hosszú… Para ser franca, todo mundo! Mas, queria ver o Cielo. Infelizmente ele não veio. Eu diria para ele dar uma passada aqui, se não vai competir – sorriu Yusra.

Depois da Olimpíada, Yusra volta para a Alemanha. Vai seguir treinando e estudando, agora mais tranquila. Os pais e o irmão, além de Sarah, estão na Alemanha, seguros e longe dos horrores da guerra. Enquanto esse dia não chega, ela quer tentar aprender alguma palavra em português, pois até agora não entende praticamente nada.

– Absolutamente, eu nunca entendo nada. Eu não sei se é como na Alemanha, porque é realmente difícil também. Eu acho que se você não está vivendo aqui é realmente complicado. Hoje eu aprendi duas palavras (em português), é “thank you” (obrigado) e “welcome” (bem-vindo) – se divertiu.

TÉCNICO: “40% DE POTENCIAL AINDA A EXPLORAR”

Sven Spannekrebs conhece Yusra há menos de um ano, desde setembro de 2015. Treinador da nadadora, o alemão a considera muito mais que apenas uma atleta. A convivência dos dois vai  além das 30 horas de treino semanais. Sven garante que, mesmo com o pouco tempo de contato, sabe o que passa pela cabeça da jovem síria. Para o alemão, ela tem boas chances, inclusive, de estar na Olimpíada de 2020.

– Acho que se ela quiser, ela vai para outra Olimpíada, sim. Para o Rio tem muito de sorte. Nosso objetivo esportivo é para Tóquio. Ela é uma boa atleta, está em forma. Já sabe lidar com pressão, com a mídia, sabe trabalhar com isso – explicou.

Fora das piscinas, Yusra é uma adolescente como outra qualquer, garante o técnico alemão. Vaidosa, a jovem atleta, adepta às redes sociais, sabe quando precisa se portar como uma nadadora profissional, diante das câmeras, e quando pode ser apenas uma adolescente normal, como bem pontuou Sven.

– Ela aprendeu a lidar com a mídia, com as câmeras, com a TV. Nessa situação ela é uma Yusra diferente. Fora das piscinas ela é uma adolescente normal. Ela se veste como uma adolescente normal, tem hobbies… Alguns dias antes ela estava numa conferência com muitas TVs, reportagens, mas dias depois, com as amigas dela, ela é perfeitamente normal. A gente olha e até se espanta! – afirmou.

Orgulhoso pelo progresso da atleta desde que os trabalhos começaram, há menos de um ano, Sven garante que o potencial dela ainda pode ser bastante explorado. O foco, claro, está do outro lado do mundo, daqui a quatro anos.

– Se você olha no progresso dela, acho que ela está em um nível de 60%. Nós queremos ter um progresso bom durante os quatro próximos anos. Temos que ir com calma. Ela entende isso. Estamos todos pensando em Tóquio – concluiu.

 

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