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“O Complexo do Alemão é campeão mundial de tiro”

Por Alagoas Brasil Noticias

O tenista Thomas Belluci estava em quadra, e o tiroteio começou. Enquanto a dupla de vôlei Talita e Larissa disputava partida em Copacabana, as rajadas soavam a 20 quilômetros dali. “O Complexo do Alemão é campeão mundial de tiro. Aqui o pessoal pratica bastante”, resume a situação René Silva. Ele coordena nessa região carente da zona norte do Rio o jornal “Voz da Comunidade”, que faz até transmissões ao vivo dos confrontos pela internet.

A imagem emitida pelo aplicativo Periscope mostra as cabines do teleférico paradas no céu enquanto os estouros se sucedem. São 7h, e só se escutam os fuzis e os latidos na vizinhança. As pessoas estão refugiadas nas casas. Quando o tiroteio acontece mais tarde, os moradores que estão nas vielas correm e se escondem do fogo cruzado entre traficantes e policiais. “É um pingue-pongue, e nós somos a rede”, define o artesão Sérgio Gomes.

A piscina da Vila Olímpica local reflete o morro em sua água. Só um besouro nada lá para chegar à beira e sobreviver. Um grupo de meninos chega e é informado que não pode nadar. No dia quente, só os inscritos nas aulas podem usar as raias que em 2012 receberam o multimedalhista norte-americano Michael Phelps. Agora, ele está de volta ao Rio, mas nem pensa passar por lá.CASA

Quatro anos se passaram, e as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) vivem uma decadência em quase todas as favelas que se instalaram, uma metáfora da crise financeira do Estado do Rio.

“É o ocaso de um modelo, porque não houve investimento em infraestrutura para o policiamento e para ações sociais”, analisa Paulo Storani, especialista em segurança pública. No seu currículo, está o trabalho de capitão do Bope (batalhão de operações especiais da PM).

No Complexo do Alemão, os policiais dominam os topos com suas bases da UPP. A facção Comando Vermelho controla as vielas que levam aos vales entre os morros. As barricadas do crime voltaram ao cenário, após serem retiradas no final de 2010, na ocupação estatal do complexo. Quando se cruzam, há o confronto. “Acontece muito na troca de plantão. Quando a ronda policial encontra os bandidos, é tiro certo”, conta Silva.

Usando Facebook, WhatsApp e Twitter, os moradores montaram uma rede de informação sobre os tiroteios, para localizar os confrontos e prevenir as baixas. Pela contagem da Voz da Comunidade”, neste ano olímpico foram 17 feridos e dez mortos entre os moradores; dez feridos e um morto entre os policiais. Só em agosto, cinco pessoas foram baleadas entre a população de 70 mil pessoas que vivem no complexo de favelas.

Fabíola Farias, 11, mora por lá há seis anos. Nasceu na Paraíba. “Morar aqui é mais ou menos. A gente pod
e pintar, tem amigos para brincar. A parte ruim são os tiros, né?” Os tiros de fuzil fazem parar a linha de teleférico que ela usa para descer o morro e ir para a escola. Aí, ela demora duas horas para chegar no colégio, um dos três que existem nos pés dos morros do Alemão.

Seja pelos tiros sejapela propaganda negativa, a Olimpíada no Complexo do Alemão só existe nas telas de TV. “Ficamos fora dessa festa. Em um lugar em que o Estado está com bases militares, mas não com escolas, é difícil mesmo construir qualquer política. Com fuzis, é só tiroteios o que o Estado pode produzir aqui”, resumiu o comerciante Cléber Araújo, com barraca na última estação do teleférico.

 

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