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Solidão: de 230 reeducandas, apenas 5 recebem visitas íntimas no Santa Luzia

Por Alagoas Brasil Noticias

Uma realidade comum nos presídios femininos em todo o Brasil, é mulheres que entraram no crime por conta de seus maridos e namorados, mas que, após serem presas e levadas para o sistema penitenciário, são abandonadas pelos seus parceiros. Enquanto a fila de mulheres nos dias de visita íntima chega a centenas de metros nos presídios masculinos, no Presídio Feminino Santa Luzia, dá até para contar nos dedos das mãos as detentas que são visitadas. Em um universo de 230 reeducandas, apenas 5 delas recebem visitas íntimas uma vez por mês.

As detentas femininas precisam aprender a enfrentar a nova realidade sozinhas. Afastadas do mundo, muitas deixaram para trás família – filhos que irão crescer sem a presença da mãe -, deixaram sonhos, deixaram a “humanidade”. Agora elas precisam dividir celas, mas mesmo com uma companheira na cama ao lado, elas se sentem abandonadas. São pegas pelas lembranças de uma vida, que já está distante, e entram em um mundo de solidão. A depressão é diagnostico coaqmum no presídio feminino. 

A C.M.S., de 41 anos é um dos casos onde o abandono e a solidão resultaram em uma depressão. Presa há mais de 3 anos, seu marido só a visitou apenas no primeiro mês. Desse dia em diante, ela nunca mais o viu. Mas as notícias que chegaram contam que ele está morando com outra mulher. 

Para enfrentar a tristeza e a baixa autoestima, a detenta faz tratamento psiquiátrico, com remédio para dormir e ocupa o dia com trabalhos dentro do próprio presídio. “Agora quem vem me visitar é minha mãe e minha família. Gostaria de receber a visita dele, mas não tem como agora”.  

C.M. foi presa e condenada a mais de 30 anos de reclusão. Ela é acusada de homicídio, mas nega o crime com veemência. Segundo a reeducanda, seu único crime foi invadir uma residência e roubar eletrodomésticos. A intenção era vender os produtos para comprar drogas. 

Mãe de um casal, C.M. fala sobre outro tipo de abandono sofrido pelas detentas do Presídio Feminino Santa Luzia. A dos filhos. Ela está há mais de 5 anos sem vê-los. Um deles também está pre
so no Presídio Cyridião Durval, que fica no mesmo complexo penitenciário.

O trabalho nas dependências da unidade prisional é o seu companheiro. Direito garantido devido ao seu bom comportamento. C.M. trabalha diariamente, todas as manhãs ou tardes, ela é responsável pelos serviços de limpeza, entrega das refeições, entre outras atividades.

Ansiedade 

Em uma situação diferente, está S. A. N. F., de 39 anos. O marido a visita todos os finais de semana. Em três, ele vai acompanhado dos filhos e um é reservado para o casal. A visita íntima é aguardada com muita ansiedade. É o momento de tentar deixar a imagem da prisão de lado e se arrumar para receber o companheiro. Ela está presa a mais de 3 anos acusada de praticar um homicídio e o esposo, que trabalha na feira, viaja cerca de 124km, de Quebrangulo para Maceió, só para visitá-la.

S.A. reclama apenas do tempo que é reservado para a visita íntima. São apenas 2 horas e ela confessa que, além da relação sexual, gostaria de ter mais tempo com o marido, poder conversar outros assuntos, sem a presença dos filhos, relembrar os momentos juntos fora da penitenciária, trazer um pouco a cumplicidade da intimidade do casal. 

A direção da unidade prisional oferece todos os cuidados necessários para o casal. Nos dias de visita íntima, 

S.A. recebe um kit com preservativos e lubrificantes. Ela também é acompanhada periodicamente por uma médica ginecologista. 

Gravidez

A história da jovem G. S. C. S., de 21 anos, tem um capítulo diferente. Ela estava grávida quando foi presa. Há 5 meses, ela estava em casa com o namorado, quando, durante um cumprimento de mandado, a polícia encontrou drogas na residência. Ela diz que não era dela, mas estava no local errado e acabou detida em flagrante. Desde então, ela não viu mais o namorado. O pequeno G.R. tem apenas dois meses. Ela relata que os familiares não deram nenhuma assistência ao pequeno. 

O apoio durante o pré-natal e o pós-parto veio das agentes do Presídio. Eles – mãe e bebê – receberam doações de fraldas e roupas. Com dois meses, G.R. já está com 6,4kg. Até o primeiro ano de vida, o bebê pode ficar com a mãe para amamentar. Após esse período, ele terá que deixar a unidade prisional e será encaminhado para a casa de um familiar. Caso a mãe ainda não tenha terminado de cumprir a pena, ela só poderá encontrar o filho uma vez por semana, durante as visitas familiares.

Há casos em que os familiares não levam as crianças, se quer vão visita-las. E as mães perdem toda a fase de crescimento dos filhos.

Abandono e depressão

Como se não bastasse ter que enfrentar a prisão, as detentas precisam lidar com o abandono de seus companheiros e familiares. 98% das reeducandas entram em depressão durante o período da pena. Segundo a psicóloga do Sistema Prisional, Lissandra Mirelly, são vários fatores que atingem a vida das mulheres na prisão – a falta do contato físico, não só o ato sexual em si, mas a presença daquele que elas têm um certo carinho, o apoio, a intimidade, um sinal de que não foram esquecidas e ainda fazem parte da família. 

Lissandra é psicóloga no Sistema Prisional e orienta reeducandas

A psicóloga afirma que as reeducandas relatam que os companheiros se sentem constrangidos em ter que entrar em um presídio e, por isso, deixam de visitá-las. Outro fator são as regras para a liberação da visita íntima.

“Muitos companheiros ficam constrangidos de virem até aqui e passar por todo o processo para a liberação da visita íntima. O abandono somado a outras necessidades femininas, contribuem para o desenvolvimento da depressão”, explicou. 

Lissandra chama a atenção para um fato que também agrava a situação, grande parte dos companheiros também está no Sistema Prisional. “Muitas estão detidas por conta do companheiro, seja praticando o crime junto com ele, ou porque assumiu a função dele no crime para manter a atividade. Como eles também estão presos, fica difícil acontecer a visita íntima”, contou.

Como funciona

De acordo com a chefe do Presídio Feminino Santa Luzia, Tatiana Costa, as restrições foram necessárias para evitar a entrada de material ilícito. Apenas companheiros que são casados, possuem união estável comprovada ou que possuem filhos juntos são liberados para a visita íntima. Estes são os critérios estabelecidos pela Vara de Execuções Penais.

Cada módulo possui duas celas para visitas íntimas

Segundo Tatiana, a direção da unidade oferece toda a estrutura necessária para que as reeducandas recebam seus companheiros e tenham um momento íntimo. Além do kit que contém preservativos e lubrificantes, elas contam com acompanhamento médico periódico e, caso seja necessária, medicação.

O presídio é composto por dois módulos, e cada um possui duas celas destinadas para as visitas íntimas. 

Um colchão de casal, chuveiro e uma mesa de apoio mobíliam o local. Para elas, é o local do aconchego.

“Nós tentamos dar toda a privacidade que elas necessitam para este momento com o parceiro. Muitas reclamam do pouco tempo destinado, mas é necessário que haja esse controle, até mesmo para dar a oportunidade para outras”, disse.

As paredes dos quartos são repletas de mensagens e cartas de amor escritas pelas detentas. Com português simples e muita criatividade, elas se declaram da melhor forma que podem. Com lápis, pasta de dente, ou qualquer outro objeto que possa ser utilizado para escrever. Apenas querem que aquele momento e sentimento fiquem eternizados.

 

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