Home » Morre J. Hawilla, um dos principais agentes do futebol e delator do “caso Fifa”

Morre J. Hawilla, um dos principais agentes do futebol e delator do “caso Fifa”

Por Alagoas Brasil Noticias

J. Hawilla morreu na manhã desta sexta-feira (25/5) em São Paulo. O empresário e jornalista, de 74 anos, estava internado havia cinco dias no Hospital Sírio Libanês com sérios problemas respiratórios. Com residência fixa nos Estados Unidos há cinco anos, Hawilla estava desde janeiro no Brasil para tratar de sua saúde.

Um dos mais influentes empresários do futebol brasileiro e sul-americano, Hawilla, jornalista de origem, foi decisivo no “escândalo Fifa”, que explodiu em maio de 2015 e envolveu 40 dirigentes de todos os continentes e levou à prisão José Maria Marin, ex-presidente da CBF, entre outros, comprometeu Marco Polo Del Nero, que acabou banido do futebol, e Ricardo Teixeira, ex-presidentes da CBF.

A colaboração de Hawilla para o estouro do maior caso de corrupção do futebol mundial começou quando ele foi preso pelo FBI, dia 9 de maio de 2013, acusado de obstrução de Justiça. Ao ser detido, o empresário fechou acordo de colaboração com a Justiça dos Estados Unidos. Em contrapartida, não seria processado em outras denúncias. Em seguida, delatou sócios, cartolas e agentes e entregou vários documentos às autoridades americanas.

Antes do “escândalo Fifa”, ainda quando residia no Brasil, J. Hawilla era conhecido pelo seu arrojo nos negócios no setor de comunicação e marketing. O maior deles foi a criação da Traffic, agência de marketing esportivo, quando ele comprou a pequena empresa até então especializada em fazer propaganda em pequenos postes de pontos de ônibus em São Paulo. Com a Traffic e por ser jornalista esportivo com passagens pela Rádio Bandeirantes e TV Globo, Hawilla entrou com tudo no mundo dos negócios do futebol.

Criou ainda a rede “Bom Dia“, jornais diários na maioria das grandes cidades do Interior de São Paulo, e adquiriu boa fatia das afiliadas da TV Globo, também no interior paulista, criando a rede TV TEM. Entre seus negócios, foi sócio-proprietário do jornal Diário de S. Paulo.

Veja como J. Hawilla se tornou um dos principais personagens do futebol brasileiro:

A ORIGEM

Ricardo Teixeira, genro de João Havelange, é eleito presidente da CBF em 1989. Venceu o pleito abençoado pelo sogro. Naquela época, Havelange presidia a Fifa desde 1974. No seu currículo de cartolaço, Havelange se tornou responsável pela transformação do futebol em um meganegócio internacional e o que tem de pior quando se gira muito dinheiro, a corrupção.

Ao assumir o comando da CBF, Teixeira precisava de imediato de US$ 1 milhão para honrar seus compromissos com presidentes de federações estaduais e dirigentes influentes, o então colégio eleitoral da CBF.

Sem ter onde tirar toda essa grana, recorreu aos ex-repórteres de futebol, o paulista J. Hawilla e o carioca Kleber Leite, na época parceiros na exploração da publicidade estática nos estádios do Brasil. Hawilla e Kleber eram como dois irmãos e gozavam da intimidade de Havelange.J. Hawilla inseriu a CBF no mun do dos negócios – foto: reprodução

Teixeira fez um acordo com os dois, sempre com a benção de Havelange, e, se arrumassem US$ 1 milhão para quitar a dívida de campanha e ainda injetar dinheiro na CBF, teriam direito a participar dos negócios futuros da entidade que comanda o futebol brasileiro.

Hawilla havia montado com muito sucesso uma empresa de marketing esportivo em São Paulo, a Traffic. Kleber tinha a sua no Rio, a Klefer. Juntos, eles bateram à porta da Coca-Cola, uma das principais parceiras da Fifa pelas mãos de Havelange, para patrocinar a Seleção Brasileira e, por tabela, a CBF.

Ao mesmo tempo correram atrás da Pepsi-Cola. A Coca-Cola não se dispôs a bancar a grana, 1 milhão de dólares. Hawilla e Kleber apertaram a Pepsi dizendo que a Coca poderia fechar o acordo com a CBF. Uma estratégia de negócio bem feita no assédio à duas concorrentes  norte-americanas de peso. Venderam para Pepsi argumentando que, se a empresa não assumisse o patrocínio da Seleção Brasileira no ano de Copa do Mundo (1990 na Itália), a Coca compraria a ideia. A Pepsi aceitou e fechou contrato de US$ 1 milhão com a CBF.

PORTAS ABERTAS

Teixeira, fazendeiro e executivo do mercado financeiro no Rio, nunca havia se metido com os negócios do futebol. E se ajoelhou aos pés de Hawilla e Kleber com o aporte de 1 milhão de dólares da Pepsi. As portas da CBF estavam abertas aos negócios dos dois ex-jornalistas Hawilla e Kleber.

Hawilla, mais ambicioso que Kleber nos negócios, passou a vasculhar o mercado de marketing esportivo nas principais entidades de futebol da América do Sul, então sob a tutela de agências de marketing da Argentina. Nessas fuçadas, descobriu que deveria se aliar às concorrentes argentinas e se instalar na Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).Grondona e Teixeira comandavam futebol sul-americano – reprodução

Ao mesmo tempo, Ricardo Teixeira, por ser presidente da CBF, teria um cargo importante na Conmebol. No grau de relevância da AFA (Associação de Futebol da Argentina), dirigida por Julio Grondona (morto em 2014). Estava formada a parceria mais longeva e talvez mais corrupta, segundo os delatores, do futebol sul-americano.

Grondona e Teixeira assumiram o controle dos negócios da Conmebol, tendo no presidente, o paraguaio Nicolas Leoz, uma peça decorativa, desde que levasse sua fatia no latifúndio.

Grondona, de sua parte, se escorava na agência que deu origem à Torneos & Competencias (T&C). Teixeira tinha na Traffic, do amigo Hawilla, a parceira ideal para explorar os negócios do futebol sul-americano. Para ninguém crescer mais que o outro, a Traffic se juntou à T&C para operar no mercado sul-americano. Nascia a TT&C, que passaria a negociar os direitos dos torneios no continente.

GLOBO, NOVA PARCEIRA

A Traffic já era uma potência do marketing esportivo e cresceu ainda mais quando fechou acordo de patrocínio da poderosa Nike, dos Estados Unidos, com a CBF em 1996. Na época, por uma bagatela de 200 milhões de dólares por um contrato de quatro anos renováveis por mais quatro. Foi Hawilla quem levou a Nike para dentro da CBF. E teria recebido cerca de 40 milhões de dólares por intermediar o negócio.

Jorrava dinheiro na CBF, Teixeira e Hawilla eram unha e carne. Faltava ainda um agente importante nessa história: uma rede de televisão para bancar os campeonatos no Brasil, injetar dinheiro nas federações estaduais – que formavam o colégio eleitoral da CBF – e ajudar os clubes brasileiros com a grana alta dos direitos da venda de transmissão dos jogos.

Quem assumiria essa bronca? A Globo.

Maior grupo de mídia do país e detentora da maior fatia publicitária no mercado brasileiro, a Globo crescia nas transmissões do futebol brasileiro. Em 1999, um de seus executivos, Marcelo Campos Pinto, criou um modelo de compra de direitos televisivos de competições esportivas. Claro, formou parceria com Teixeira e a Globo passou a ter os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, da Copa do Brasil e dos principais Estaduais (Paulistão, Carioca, Mineiro, Gaúcho, entre outros).

O modelo adotado por Campos Pinto seguia as diretrizes que a Fifa usava para vender os fabulosos direitos de transmissão das Copas do Mundo.

Marcelo Campos Pinto, executivo da Globo, formou parceria com a CBF – foto: CBF

Com a Globo subsidiando o futebol brasileiro, tendo a preferência da CBF, federações estaduais e os clubes nas mãos, Ricardo Teixeira se sentia mais seguro para ampliar seus tentáculos na Conmebol e Fifa, na qualidade de membro do seleto Comitê Executivo da entidade, então dirigida por Joseph Blatter, discípulo de Havelange desde 1974.

TEIAS ESTENDIDAS

Teixeira forte na Conmebol e na Fifa era um campo fértil para a Globo conseguir alguns benefícios na concorrência dos direitos de transmissão pela televisão das Copas do Mundo e principais competições da América do Sul.

Ao poder do futebol brasileiro tudo funcionaria perfeito por décadas e décadas não fosse por um probleminha: a ganância.

Ricardo Teixeira havia estendido seus negócios para fora do Brasil ao se aliar ao espanhol Sandro Rosell, ex-agente da Nike na CBF e presidente do poderoso Barcelona. Surgiram as primeiras denúncias de corrupção na venda de jogos da Seleção Brasileira. E, mais graúda, as suspeitas de compra e venda de votos na escolhas dos países-sedes das Copas do Mundo. Teixeira começava a se encrencar – Rosell, em meados de 2017, seria preso pela Justiça da Espanha.

Hawilla, por sua vez, decidiu ampliar seu império para atuar no mercado dos Estados Unidos. Miami passou a ser a base dos negócios da Traffic e das parceiras, entre elas a T&C de Alejandro Burzaco.

DINHEIRO SUJO

Por descuido ou incompetência desses executivos e dos cartolas ávidos pelas propinas, o grosso do dinheiro sujo dessas negociações passava pelos bancos dos Estados Unidos. A Justiça Americana desconfiou e começou a investigar a origem desse dinheiro. Descobriu que a grana gorda vinha dos negócios de dirigentes e agentes do futebol sul-americano e também de membros importantes da Fifa com residência nos EUA e países da América Central.Marin a caminho do tribunal em Nova York – foto: globo esporte

Os federais do FBI chegaram em J. Hawilla, com residência fixa em Miami, e Chuck Blazer (morto em 2016), cartola norte-americano e um dos principais vices-presidentes da Fifa. O castelo começava a se desmoronar.

Quando enquadraram Hawilla, ele delatou todos os cartolas e agentes de marketing envolvidos no propinoduto do futebol. Não poupou nem mesmo seu “irmão” Ricardo Teixeira. E se comprometeu a devolver à receita federal dos EUA cerca de 151 milhões de dólares.

Hawilla havia rompido com Teixeira em 2012 depois que o então presidente da CBF deu a Kleber Leite os direitos de comercialização da Copa do Brasil que estava havia uma década em poder da Traffic. Hawilla também já não tinha mais negócios e parceria com Kleber.

OPERAÇÃO FIFA

Com base nas delações de Hawilla e Blazer, o FBI chegou na rede de corrupção sustentada na sua maioria por dirigentes do futebol sul-americano. Numa ação cinematográfica, em meados de 2015, os federais americanos enjaularam uma penca de cartolas, entre eles José Maria Marin, no primeiro dia de um congresso da Fifa em Zurique. Não pegaram Marco Polo Del Nero naquele dia porque ele conseguiu escapar e embarcar às pressas ao Brasil – desde então nunca mais tirou pé fora do país e acabou banido do futebol pela Fifa em maio de 2018.

Por que Ricardo Teixeira não foi preso?

Porque havia renunciado à CBF em 2012 passando o bastão para Marin, vice-presidente da entidade, e a Marco Polo Del Nero. Para quem não sabe, Marin e Del Nero eram velhos amigos de comando do futebol paulista. Estavam acostumados a agir na Federação Paulista de Futebol com os mesmos métodos de Teixeira na CBF.

Não por acaso herdaram de Teixeira o recebimento da propina das redes de televisão, Globo entre elas, que era destinada ao presidente da CBF, segundo disseram os delatores.

Na Corte do Brooklyn na primeira semana do julgamento do Fifa-gate, no ano passado, ao contar parte dessa história que testemunhou e foi agente importante, o argentino Alejandro Burzaco, ex-parceiro de Hawilla, expôs as vísceras do poder do futebol brasileiro. Burzaco concluiu que Marin era o homem encarregado dos discursos, o rei. Del Nero era o operador de fato, o gestor do dinheiro, o presidente. E a Globo, segundo Burzaco, uma das fontes de onde jorrava o dinheiro ao propinoduto.

O chão tremeu. O poder do futebol brasileiro e a Globo sentiram o abalo. J. Hawilla, em prisão domiciliar nos Estados Unidos e obrigado a devolver US$ 151 milhões ao fisco americano, foi levado à Corte americana. Sua sentença sairia em abril de 2018, mas como o empresário havia retornado ao Brasil para tratar de problemas graves de saúde, a decisão da Justiça dos EUA foi adiada para outubro.

J.Hawilla, com sérios problemas respiratórios, morreu aos 74 anos nesta sexta-feira em São Paulo. O empresário deixa esposa, três filhos e seis netos.

José Maria Marin está preso nos Estados Unidos. Marco Polo Del Nero está banido do futebol pela Fifa. Ricardo Teixeira é denunciado pela Justiça dos Estados Unidos e da Espanha.

Fonte: CartaCapital

Facebook Comments

você pode gostar

Deixe um Comentário