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Professor herói: profissionais driblam dificuldades para ensinar em Alagoas

Por Alagoas Brasil Noticias

Escola Estadual de Coité das Pinhas, em Alagoas, sofre com a evasão de alunos 

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Peça chave no processo de ensino-aprendizagem, muito se espera do professor -ainda mais na rede pública de ensino. O que muitos se esquecem, no entanto, é de que esse profissional não responde sozinho pelos bons resultados em sala de aula. Para que os alunos aprendam, é necessário que um conjunto de fatores funcione e se una na receita que resulta em uma educação bem-sucedida.

A participação ativa das famílias e o cumprimento das atribuições do estado são alguns dos ingredientes que deveriam compor tal receita. Porém, conforme o professor Josenildo França, 40 anos, da Escola Estadual de Coité das Pinhas, na zona rural de Igaci, em Alagoas, na maioria das vezes, cabe ao profissional de ensino assumir o papel de “herói”. 

“Enfrentar os obstáculos do dia a dia e, ainda assim, levar adiante a missão de educar, não é tarefa fácil. O que percebo, nos dias atuais, é que nós professores desempenhamos funções a mais. Somos a motivação para que os alunos compareçam às aulas e estudem. Entretanto, nossa classe passa por algumas dificuldades, como por exemplo, a falta de um salário digno e a desvalorização do profissional. Mas, se não seguirmos em frente, vamos sofrer ainda mais com a evasão escolar”, assegurou França, acrescentado que a baixa frequência de alunos nas salas de aula é uma das maiores dificuldades do ensino público de Alagoas . 

De acordo com o professor, é imenso o desafio de manter o aluno matriculado por causa de fatores sociais, dentre os quais a necessidade de trabalhar para ganhar algum dinheiro e ajudar sua família, o que ainda é tradição em ambientes periféricos e na zona rural do estado. 

Em 2017, a evasão de alunos em Alagoas atingiu 5,9 pontos percentuais no ensino fundamental e 10,1 no ensino médio, segundo levantamento parcial realizado pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc). O órgão avalia que, em relação a 2014, o número diminuiu, já que, anteriormente, Alagoas havia atingido o percentual de 11,2 no ensino fundamental e de 16,6 no ensino médio.

“Os fatores sociais explicam por que muitos dos alunos deixam a escola. Não é desejo do aluno, mas a necessidade de trabalhar, de fazer os famosos ‘bicos’ para ajudar os pais acaba sendo determinante para a evasão. Isso é cultural e ainda muito comum na zona rural e, até mesmo, em bairros periféricos ou perto de região comercial”, afirmou o professor.

 Percorreu a cavalo

Professor Josenildo percorreu a cavalo algumas residências de alunos para que houvesse a diminuição no número de evasão

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

 

Ainda de acordo com Josenildo França, que há mais de 22 anos ministra a disciplina de Química para estudantes do ensino médio, foi preciso percorrer a cavalo algumas residências de alunos para que houvesse a diminuição no número de evasão na Escola Estadual de Coité das Pinhas. Atualmente, a rede de ensino conta com mais de 450 estudantes matriculados. 

“A decisão foi tomada no ano passado. A direção da escola percebeu a baixa frequência dos alunos e decidiu, por meio de comunicados aos pais, contornar a situação. Contudo, não obtivemos êxito. Foi daí que visitei as casas dos mais faltosos. Como estava no período chuvoso, as estradas de barro estavam alagadas e a única solução foi ir a cavalo. Bati na porta de alguns alunos e expus a importância do ensino escolar na vida de qualquer ser humano”, relembrou. 

O professor também informou que a ação obteve resultado positivo na instituição de ensino. “Acredito que foi a melhor coisa que eu já tenha feito na minha vida. Passado a visita, percebemos o retorno de muitos jovens à escola. Um dos alunos que conversei já está se formando e, até hoje, agradece pela minha dedicação na escola. Saber que, em meio às dificuldades, tudo vem dando certo, não tem preço”, frisou. 

Escola alagada

Professora Suzanne (de calça) lecionou aulas com prédio em condições precárias devido a infiltração 

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

 

No ano passado, as fortes chuvas que assolaram o Estado prejudicaram diversos alagoanos, entre eles, os alunos da Escola Estadual Jornalista Lafaiete Bello, no bairro Benedito Bentes, em Maceió. Segundo a professora de Língua Portuguesa Suzanne Barbosa, 29 anos, foram cerca de 4 meses lecionando na escola em condições precárias devido a infiltração agravada no local por conta das chuvas. 

“Cheguei a dar aula no escuro porque, por um tempo, a gente não podia acender as luzes devido ao vazamento de corrente elétrica. Também nesse período, cheguei a dar aula com os pés na água, porque a água entrava nas salas. Inclusive, por causa dessa condição adoeci e desenvolvi uma pneumonia que até hoje estou tratando”, relatou.

Por causa do período chuvoso, ela conta que as reformas no colégio foram prometidas apenas após o cessar do inverno. Contudo, antes de tomar conhecimento da pneumonia, Suzanne pediu transferência para poder lecionar em outra escola e foi atendida.

Além da problemática das chuvas, a professora relatou que também já teve que lidar com alguns estudantes de temperamento difícil no Benedito Bentes, apesar de ter mantido bom relacionamento com a maioria deles.

“Na escola tinham mães de alunos que me diziam que não podiam sair de casa porque moravam na ‘área vermelha’. Com isso, o único ambiente de socialização desses estudantes era a escola. E, dessa forma, elas justificavam se o filho tinha um comportamento mais difícil, se ele gostava de bagunça, se tirava notas baixas, por causa dessa condição e, devido a esse contexto, eu procurava dar aulas mais lúdicas para eles”, comentou.

Um dos alunos de Suzanne, inclusive, chegou a ser assassinado no bairro. Ela afirma que trabalhar com essa realidade era muito diferente da escola que ela posteriormente começou a lecionar.

Com a saída da escola no bairro do Benedito Bentes, a professora foi transferida para a Escola Estadual Professora Laura Dantas, localizada no Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa), no bairro Farol. Sobre lá, ela conta que desenvolveu um projeto de sarau sobre literatura negra e que, com o final do ano letivo, pediu licença e passou a cuidar da saúde, que já estava fragilizada. 

Atualmente, Suzanne ensina reforço em ambiente particular e, paralelamente, se fortalece da doença pela qual foi acometida. Com o término do tratamento, ela pretende voltar a lecionar em sala de aula regular. 

“Eu já pensei diversas vezes em largar a profissão. Na outra escola a gente não tinha apoio da direção, da secretaria, não tinha estrutura, o núcleo de professores não era unido, era difícil. Mas hoje tenho outra consciência, pretendo voltar a lecionar, não sei fazer outra coisa”, complementou.

Sinteal pede melhorias

 

Maria Consuelo diz que sindicato vem recebendo casos de violência verbal contra professores

FOTO: DÁRCIO MONTEIRO

 

A falta de estrutura das escolas públicas é um dos primeiros e mais evidentes entraves para o pleno desenvolvimento da educação. E ela não diz respeito somente à estrutura física dos prédios, cuja falta de manutenção é muitas vezes visível, mas também à falta de mobiliário – um conforto necessário para que os estudantes possam se concentrar na aula. 

“O aluno entra em uma sala de aula e passa anos em uma mesma carteira, que não cresce junto com ele. Isso causa desconforto, que é um dos fatores que geram indisciplina, evasão escolar”, ilustra a presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal), Maria Consuelo. 

Ainda de acordo com Consuelo, a forma como o ensino está estruturado – currículo e metodologia – e as deficiências de aprendizado acumuladas nas etapas anteriores são outros desafios à qualidade da educação. 

Os professores argumentam que a escola de hoje é a mesma da de décadas atrás, organizada em um sistema ordenado de carteiras enfileiradas e pouca correlação entre as disciplinas, o que resulta em um tipo de aula que não é o mais adequado para esta geração. 

“Fazer uma aula mais dinâmica, nas quais os estudantes possam se posicionar e refletir, é impossível em uma sala com poucos alunos, principalmente no turno da noite. Do modo como o sistema é construído, você não consegue dar uma aula que os envolve”, avalia.

Violência verbal

À reportagem, Maria Consuelo revelou que nos últimos meses o sindicato vem recebendo um número expressivo de casos de violência verbal contra professores do estado. “Somos uma classe que adoece muito. Só perdemos para os carcereiros de presídios. E, mesmo assim, não recebemos o real valor que temos. Os próprios alunos nos amedrontam. Temos casos de discussão em sala de aula e, até, de ameaça de morte. No último acontecimento, um aluno arranhou o carro da professora com um objeto pontiagudo por não aceitar uma nota”, disse.

Dados nacional

Em pesquisa divulgada neste ano pelo Movimento Todos Pela Educação, 49% dos 2.160 docentes entrevistados da educação básica do país disseram que não indicariam a profissão para um jovem. Os principais motivos para a justificativa dessa afirmação estão nos baixos salários e na falta de reconhecimento. Além disso, 64% deles também afirmam que não há um bom canal de comunicação entre professores e a Secretaria de Educação.
 
Por outro lado, os docentes que estão há menos de 10 anos lecionando, são os que mais indicam a profissão, seguido dos professores que têm mais de 31 anos de prática. Os que lecionam para a educação infantil e primeiro segmento fundamental, também fazem parte do grupo que indica a carreira de professor.
 
 
Fonte: Gazeta web
 

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