Geral

Poder de fala

Em videoinstalações performáticas, Grada Kilomba assume o papel de contadora de histórias que foram silenciadas e sugere como eliminar o racismo | Paula Alzugaray | 19/07/19 | 09h30 | GRADA KILOMBA: DESOBEDIÊNCIAS POÉTICAS/ Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP/ até 30/9

CONTADORA DE HISTÓRIAS A voz da artista amplificada em “Storyteller #1” (Crédito: Divulgação) 

Sabemos que o ouvido humano suporta ruídos de até 70 decibéis. Em uma das telas da videoinstalação “Illusions Vol. I, Narcissus and Echo” (2017), Grada Kilomba está cercada por meia dúzia de microfones para expandir e potencializar sua fala, mas só precisa mesmo de um canal aberto para recontar o mito grego de Narciso, desde um novo ponto de vista. O enfoque de sua versão do mito é em Eco, a deusa condenada ao silêncio e à eterna repetição das palavras de Narciso. Grada Kilomba, a contadora dessa história, tem a voz doce, suave e pausada. As palavras saem de sua boca como sons que ficaram sufocados, guardados em segredo por muito tempo. Palavras que durante séculos não foram ouvidas, hoje parecem atingir a potência de mil decibéis.

O poder da fala de Grada Kilomba começa com as palavras negação, culpa, vergonha, reconhecimento, reparação. Esses são os cinco passos do percurso proposto pela artista portuguesa de origem africana para uma conscientização coletiva das feridas e dores impetradas pela história colonial e para um processo psicológico de desmantelamento do racismo. Elas estão enumeradas e significadas na videoinstalação “The Dictionary” (2019), uma das quatro obras que compõem a exposição individual da artista na Pinacoteca de São Paulo. Com curadoria de Jochen Volz e Valeria Piciolli, “Grada Kilomba: Desobediência Poéticas” é uma importante presença no eixo curatorial que o museu dedica este ano à relação entre arte e sociedade.

Tradição Colonial

O posicionamento das obras em quatro salas nas extremidades do segundo andar da Pinacoteca, onde está exposta a coleção de arte brasileira do século XIX, é um acerto da curadoria, por endossar e fazer vibrar o discurso da artista. As obras de Debret, Taunay, Almeida Junior, Eliseu Visconti, Pedro Alexandrino, entre tantos outros, pertencem à tradição artística do Brasil colonial em que a versão de indígenas e africanos escravizados foi silenciada. Mas nas salas contíguas à coleção que conta histórias de um Brasil açucareiro e cafeeiro, Kilomba assume a palavra e a narrativa sobre sua história.

“Por que deve a boca do sujeito negro ser amarrada? Por que ela ou ele deve ficar calada/o? O que poderia o sujeito negro dizer se ela ou ele não tivesse a boca tapada? O que o sujeito branco teria de ouvir?”, são perguntas colocadas pela artista no recém-lançado “Memórias da Plantação — Episódios de Racismo Cotidiano”, o livro mais vendido na Flip 2019, lançamento da Editora Cobogó. O livro é resultado de seu doutorado em Filosofia pela Freie Universität Berlim, em 2008, onde também foi professora associada no Departamento de Gênero.

REENCENAÇÃO Frame do vídeo “Illusions Vol. II ­– Oedipus”, de Grada Kilomba

“Escrever é um ato de descolonização”, afirma. “Enquanto escrevo, eu me torno a oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou”. Em leituras cênicas e performances, Kilomba dá corpo artístico ao seu trabalho acadêmico, que atravessa memória, trauma, psicanálise, feminismo negro e colonialismo. Nos dois vídeos da série Illusions, a artista encena os mitos de Édipo, Narciso e Eco sobre fundo branco, como forma de estudar e colocar à prova as políticas da branquitude. O “cubo branco” do sistema de arte, por exemplo, ganha paralelismo com o sistema etnográfico, que destaca o objeto de seu contexto para classificá-lo e catalogá-lo segundo a lógica de sistemas de poder.

Em meio às aberrações proferidas a altos brados pela atual política brasileira, voltemos nossa sensibilidade combalida para a escuta de formas silenciosas de interromper, apropriar e transformar a história.

Roteiro
D’Alessandro e a urgência da vida breve

NÃO OFICIAL – PAULO D’ALESSANDRO/ Casa da Imagem, SP/ até 13/10

Divulgação

Paulo D’Alessandro é um fotógrafo da vida urbana. Começou a carreira fotográfica nos anos 1990, como repórter fotográfico policial do jornal Notícias Populares, e no início dos anos 2000 desenvolveu um trabalho de decomposição formal da arquitetura paulistana. Sete dessas imagens da cidade concreta integram a coleção do MAM-SP. Quando montou sua empresa de fotos de festas e casamentos, D’Alessandro levou para o registro das noites borbulhantes da alta burguesia paulistana o olhar enviesado e o clique indiscreto de quem trabalhou na noite dos excluídos. Essa urgência da vida breve é a tônica
das imagens selecionadas pelos curadores Henrique Siqueira e Monica Caldiron para a mostra “Não Oficial”, na Casa da Imagem, em São Paulo.

A exposição atravessa quase 30 anos de fotografia, em 40 imagens. Trata-se de uma mostra de retratos em que a pose está desconstruída, ou captada alguns segundos antes de sua formação. O momento clássico em que o retratado constrói a identidade que deseja imortalizar, não interessa ao fotógrafo. O que fica plasmado é uma espécie de anti-imagem, ou anti-clímax, em que o sujeito fotografado se despe da imagem socialmente conhecida, para tornar-se um gesto, um movimento transitório. Por esse motivo, o rosto e o olhar não são sempre os elementos centrais da imagem e as mãos ganham acentuado protagonismo, seja na recusa da câmera, como na foto “Por favor!” (1992), seja portando telefones celulares, copos de uísque ou taças de champagne. Na era da selfie, D’Alessandro afirma que o que fala mais alto é mesmo a imagem não oficial. Tim tim!

Fonte: Isto é

Facebook Comments

Artigos relacionados

Fechar