MundoSLIDE

Democracia não funciona quando há pessoas passando fome, diz pesquisadora alemã

Lígia Guimarães | 10|08|2019 ÀS 21:31

Para professora alemã, “engajamento político não está morrendo, mas os meios tradicionais de participação democrática estão perdendo importância” | Agencia Brasil.

É errado culpar a popularidade das redes sociais por fenômenos que parecem enfraquecer a democracia atual, como a polarização do debate eleitoral, a propagação de notícias falsas durante as campanhas e os ataques virtuais a adversários políticos. Mesmo antes da digitalização, os modelos tradicionais de democracia e política já tinham seu futuro ameaçado pela própria decepção do eleitorado com seus representantes.

A análise é da professora e pesquisadora alemã Jeanette Hofmann, diretora do Instituto Alexander von Humboldt para Internet e Sociedade e professora da Universidade Livre de Berlim. Desde o fim dos anos 1990, quando a socióloga começou a dedicar-se a entender os efeitos da digitalização e da internet sobre a política, já era notável na Europa o declínio dos partidos políticos tradicionais, que perdiam membros, votos, e convenciam cada vez menos pessoas a votarem nas eleições.

“A democracia está mudando em muitas maneiras, e as redes sociais são o espaço em que as pessoas tentam outras maneiras de fazerem suas vozes ouvidas”, disse Hofmann em entrevista à BBC quando esteve no Brasil para palestrar sobre digitalização e democracia em evento da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. “Hoje, muitas pessoas exigem o direito de falar, e estão desconfiando do parlamento, desconfiando das instituições democráticas, e veem a si mesmos como pessoas que julgam os políticos, os membros do parlamento. E eles usam o direito de votar, isso quando eles votam, para punir o governo.”

Hofmann vê ameaça mais grave às democracias vinda da desigualdade social, que priva grande parte da população dos direitos básicos de uma sociedade, fazendo com que os excluídos percam o interesse em serem representados.

“É um princípio básico o fato de que toda democracia depende de certa distribuição da riqueza, e que a democracia não pode funcionar quando as pessoas estão passando fome”, afirma a socióloga, que diz que o problema é ainda mais grave em países em que a diferença de renda e oportunidades para ricos e pobres é abismal, como é o caso do Brasil. “Elas estão tão privadas de seu direito de participar da sociedade que elas perdem interesse nessa sociedade.”

 

BBC News Brasil – Muitas democracias no mundo estão sentindo os efeitos e desafios desse novo espaço público digital, como a propagação de notícias falsas e a polarização política. Quais a senhora diria que são os problemas ou questões mais importantes em relação a esses desafios?

Jeanette Hofmann – Primeiro, vamos colocar de maneira diferente. Nós vemos uma grande mudança, mas eu não diria que as redes sociais são a causa da mudança que vemos. Eu diria que a própria democracia representativa está mudando e nós deveríamos ver o papel das mídias sociais no contexto da mudança mais ampla da democracia representativa.

BBC News Brasil – E qual é esse papel das redes sociais?

Hofmann – As nossas Constituições nacionais não retratam mais a realidade democrática.

BBC News Brasil – Por causa da tecnologia?

Hofmann – Não. Porque nossas constituições tratam o nosso direito ao voto como o elemento mais importante da democracia. Mas, na prática, votar não é mais a parte mais importante. Hoje, muitas pessoas exigem o direito de falar, e estão desconfiando do parlamento, desconfiando das instituições democráticas, e veem a si mesmos como pessoas que julgam os políticos, os membros do parlamento. E eles usam o direito de votar, isso quando eles votam, como o direito de punir o governo.

Jeanette HofmannDireito de imagemREPRODUÇÃO – ALEXANDER VON HUMBOLDT INSTITUT
Image captionJeanette Hofmann esteve em São Paulo para participar de evento na USP

BBC News Brasil – Mas essa mudança da democracia começou junto com o avanço da tecnologia? Ou quando?

Hofmann – Não, começou muito antes. Eu diria que os primeiros sintomas que nós vemos foi de um certo nível de declínio nos partidos políticos, que perderam membros, perderam votos, cada vez menos pessoas participaram das eleições.

BBC News Brasil – Quando?

Hofmann – Na Europa eu diria que esse declínio [dos partidos] começou nos anos 70. E o que você também pode notar, particularmente as novas gerações não estão dispostas a se unir a partidos políticos. Não existe mais o compromisso de longo prazo com uma visão política. Eles são centrados em temas, eles estão pensando em causas, em vez disso. Eles estão interessados em mudanças climáticas, por exemplo, e não em uma agenda de um partido político que cobre muitas questões, mas em várias causas. E eu diria que precisamos entender o papel das mídias sociais neste contexto: eles usam, particularmente as gerações mais jovens, usam as mídias sociais para se expressar fora de seu direito de votar.

BBC News Brasil – E como decidem punir o governo?

Hofmann – Eles frequentemente estão desapontados com os políticos, que podem ter uma agenda política e prometem muitas coisas, como: ‘eu vou acabar com a corrupção nesse país’, e depois de alguns anos se mostram incapazes de acabar com a corrupção. E as pessoas ficam desapontadas e então decidem punir o governo, ao votar em outra pessoa. Mas muitas pessoas estão tão desiludidas agora que podem nem votar mais, mas estão procurando meios mais eficientes de expressar suas ideias políticas. E as redes sociais têm servido para isso. Elas formam movimentos, redes, formam ONGs, outros tipos de coisas fora do modelo de participação democrática tradicional.

BBC News Brasil – Vem à mente a eleição de Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, nomes que se apresentam como de fora da “política tradicional”. A senhora vê efeitos positivos dessa atuação não tradicional das pessoas na política?

Hofmann – Sim. Primeiro de tudo, um aspecto positivo é que o engajamento político não está morrendo, mas os meios tradicionais de participação democrática estão perdendo importância. E outras formas de se expressar estão surgindo. O problema é que muito mais pessoas são contra alguma coisa do que a favor de alguma coisa. Estamos em um tempo em que em muitos países as pessoas estão mais protestando e dizendo “não” do que propondo uma visão positiva de onde eles querem que a democracia vá. Isso é um problema. Falta uma visão positiva.

BBC News Brasil – Esse tipo de fenômeno é diferente em cada país?

Hofmann – Eu diria que as democracias parecem ter algumas coisas em comum, como o declínio na importância das eleições e maneiras mais diversas de engagamento democrático, que vemos em muitos países. Mas outras coisas são mais específicas. Corrupção, por exemplo, não é uma grande questão na agenda na Europa neste momento. As gerações mais jovens estão mais no que chamamos de engajamento além do material (post material engagement, em inglês), em muitos países. E eles realmente buscam novas maneiras de conseguirem ser ouvidos. O Fridays for Future é um exemplo recente, ou o Extinction Rebellion, que até no nome é tão provocativo.

BBC News Brasil – A senhora acha que a grande mídia também está reagindo mal a esse novo espaço digital?

Hofmann – Sim. O Facebook, por exemplo, diz que as provocações da extrema direita que eles veem em seu site só se tornam grandes quando a grande mídia as reproduz. E a grande mídia aprende essa lógica das redes sociais e pensa que precisa fazer títulos provocativos para atrair a atenção dos leitores. Então eu acho que é parte do problema atual que temos com movimentos de direita, acho que a grande mídia tem um papel dúbio nisso.

BBC News Brasil – E o que nós, mídia, deveríamos fazer?

Hofmann – Vocês precisam de critérios éticos de reportagem.

BBC News Brasil: Evitar clickbaits (títulos caça-cliques)?

Hofmann: Eu acho que poderia ser uma questão de auto-regulação para a imprensa. Eu sei que há iniciativas já existentes sobre conduta por jornalistas na esperança de que muitos jornais e publicações aceitem que não é uma competição por cliques, mas que você apenas decida quais são os padrões profissionais, o que é relevante, o que não é.

BBC News Brasil – E nesse cenário, para onde estamos indo, como democracias?

Hofmann – O que você vê e o que eu não ouvia antes é que as pessoas estão questionando a eficácia da democracia, mas também questionam se a democracia é desejável, está virando uma questão. “É mesmo uma forma de governo que nos leva a algum lugar? Os governos são capazes de resolver os grandes problemas?”

BBC News Brasil – Em comparação a regimes autoritários?

Hofmann – Há diferentes níveis de autoritarismo. Você vê na costa oeste americana que as pessoas dizem – governos democráticos são uma tecnologia do passado, que apenas parou de evoluir, vou criar uma boa solução técnica, como uma ferramenta de participação que permite avaliar o consenso das pessoas, por meio de testes A-B, e apenas descobrir o que as pessoas querem, cor azul, cor laranja, e podemos expandir e generalizar esse tipo de tecnologia, descobrir o que as pessoas querem e implementar isso. Então isso é um tipo de uma versão de ciberlibertarianismo, de pessoas que estão ansiando por um líder forte. Então você acha muitas versões assim, que não conseguem alcançar um consenso majoritário, mas são questões. E só o fato de as pessoas começam a questionar a superioridade da democracia, só isso já é uma questão.

BBC News Brasil – A senhora vê um risco expressivo para a democracia?

Hofmann – Sim, mas eu não acho que são as mídias sociais que causam isso, mas acho que é a desigualdade social que causa. É um princípio básico o fato de que toda democracia depende de certa distribuição da riqueza, e que a democracia não pode funcionar quando as pessoas estão passando fome. Elas estão tão privadas de seu direito de participar da sociedade que elas perdem interesse nessa sociedade mais. E isso é uma tendência mundial, que a desigualdade social está realmente crescendo e é uma ameaça enorme para a democracia. Uma ameaça enorme à democracia.

BBC News Brasil: Então para o Brasil, que é um dos mais desiguais do mundo, há um risco maior?

Hofmann – Sim.

BBC News Brasil – E o futuro? Como fortalecer a democracia?

Hofmann – Pode parecer trivial ou banal, mas para mim tudo começa com uma educação de qualidade para todos. Esse é meio o ponto de partida.

BBC News Brasil – E no Brasil há o desafio de que as pessoas não compreendem textos longos, por exemplo.

Hofmann – Isso também te dá uma ideia de como são as redes sociais. Como você pode participar e usá-las ativamente se você não sabe nem ler e escrever? Se a alfabetização vai mal, isso é um sinal muito ruim. Quer dizer, seria possível prover isso para todos, não é tão caro assim. É uma questão de como distribuímos os meios que nós temos com os países. Me tira do sério o fato de que não façamos isso de maneira suficiente.

BBC News Brasil – Os políticos também precisam aprender a se comportar de maneira diferente? Aqui no Brasil vemos uma nova onda de políticos que votam contra seus partidos, mas alinhados com seus seguidores, motivados por hashtags. É uma tendência que vai crescer?

Hofmann – Trump também se comporta assim, e sempre falando por meio de tuites, com erros de digitação, de gramática… responde a pessoas que se tornaram muito desconfiadas de instituições tradicionais, e que buscam autenticidade na política, que se perdeu nas últimas décadas. As pessoas, com razão, ficam frustradas e buscam alguém que realmente os represente e entregue, não apenas prometa, e é isso o que elas esperam de pessoas como Trump. Mas as coisas estão complicadas para líderes como Trump e Bolsonaro também, porque as pessoas estão procurando por autenticidade que nunca vão encontrar nessas pessoas. Porque Bolsonaro não vai entregar mais do que outras pessoas já fizeram antes dele. E isso é preocupante, porque que conclusões as pessoas tirarão ao serem mais uma vez desapontadas?

BBC News Brasil – Para muitos eleitores, ele é uma última esperança?

Hofmann – Sim, e o mesmo para Trump. E se a última esperança desapontar? Que lição se tira disso?

BBC News Brasil – Vê risco de ditaduras?

Hofmann – Sim. Mas não é culpa das redes sociais.

Fonte: B B C NEWS | Brasil

Facebook Comments

Artigos relacionados

Fechar