Policia

Irmã de cabo Gonçalves afirma que vítima foi assassinada com mais de 70 tiros

'Não enterrei um homem, enterrei a metade de um', disse a testemunha, durante julgamento no Fórum do Barro Duro | Por Larissa Bastos e Jobison Barros | 22/08/2019 | 10h29

Ex-tenente-coronel Cavalcante e irmão são julgados na 7ª Vara Criminal

FOTO: LARISSA BASTOS

 
 

O ex-tenente-coronel Manoel Francisco Cavalcante e seu irmão Marcos Antônio Cavalcante sentam no banco dos réus, nesta quinta-feira (22), no salão do júri da 7ª Vara Criminal, no Fórum do Barro Duro, em Maceió, acusados da morte do cabo Gonçalves em maio de 1996, enquanto este abastecia o carro em um posto de combustíveis na Avenida Menino Marcelo, na Serraria. A irmã da vítima, primeira testemunha a ser ouvida em juízo, disse que Gonçalves foi assassinado com mais de 70 tiros e que já havia sofrido diversos atentados, mesmo residindo em vários estados. 

Em sua fala, Ana Maria Valença informou que chegou a retirá-lo de Alagoas para ele não morrer. Segundo ela, os atentados foram motivados pelo fato de o cabo Gonçalves ter se recusado a matar o então prefeito de Coruripe, Enéas Gama.

“Pela recusa e, ainda, por avisar a esse senhor que ele iria morrer, foi convidado por duas pessoas para vir a Maceió e, no trajeto, sofreu o primeiro atentado. A bala pegou no pavilhão auricular e arrancou a orelha dele. Foi então que começou essa saga, que dura até agora”, lamentou a testemunha, citando que o irmão dela foi para a reserva e começou a prestar serviços para João Beltrão. “Meu irmão sofreu diversos atentados. Quando descobriam onde ele estava, tentavam matá-lo”. 

Ela declarou, em juízo, que o militar foi atingido por mais de 70 tiros e que viu a cena mais triste de sua vida, ou seja, o corpo “dividido em pedaços”. “Não enterrei um homem, enterrei a metade de um. No IML [Instituto Médico Legal], vi a cena mais triste da minha vida. Não permiti que nenhum parente entrasse. Lá, vi um irmão sem olho, sem braço, um irmão despedaçado. Ele só não levou tiro do joelho para baixo, porque, do joelho pra cima, era só tiro”.

Ainda em seu depoimento, marcado por fortes palavras, Ana Maria disse que foi ameaçada também pelo grupo acusado de aterrorizar o irmão e sua família. Segundo a depoente, ela sempre recebeu recados dos réus de que a próxima vítima seria ela. As ameaças eram constantes e aconteceram antes e depois do atentado que tirou a vida do cabo Gonçalves. 

“Sempre que eu ia depor, tinha um carro parado na minha porta. Tive até que acionar a Polícia Federal, porque carros pretos ficavam a noite toda rondando a minha porta. Tive medo de morrer, mas a gente está disposto a tudo. Perdi não um irmão, mas um filho. Renunciei a casar, ter filho, constituir família, porque eu me afastei para proteger meus amigos, minha família. Não tive filhos para não deixar filhos no mundo, se eu morresse.  Enquanto vida eu tiver, estarei lutando por justiça”, declarou Valença. 

O JULGAMENTO

O júri acontece no salão da 7ª Vara Criminal e é presidido pelo juiz Sóstenes Alex Costa de Andrade. O magistrado ressaltou que há nos autos uma confissão de participação. “Ele [o ex-tenente-coronel] confessa a participação, que estava lá na hora do crime, mas que não executou. Não sei se essa versão ele vai confirmar neste novo julgamento. Teremos cinco testemunhas a serem ouvidas e, logo em seguida, o depoimento dos acusados”, explicou o presidente do júri. 

O juiz acredita que o julgamento vai demorar, mas espera que termine ainda hoje. “Como são dos réus, o prazo de sustentação tanto do MP quanto da defesa é de 2h30 para cada. Depois, tem a réplica e a tréplica, com mais 2 horas para cada. Acredito que este júri vai se estender até 21h, mas espero que acabe ainda hoje”.

A defesa, representada pelo advogado Givan Lisboa, disse que espera a absolvição dos réus. “A defesa será baseada no que tem nos autos. Temos duas teses para defender, uma é uma tese institucional, que é a tese de clemência, e a outra é segredo. Mas a expectativa é a absolvição”.

Segundo ele, realmente consta nos autos a confissão do ex-tenente-coronel Cavalcante. “Este é um processo complexo, com quase três mil folhas, mas, nos autos, consta sim certa participação dele, indireta, mas consta”.

Fonte: Gazeta web

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