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Modelo cadeirante usa moda para inclusão: “Roupa tem que se adaptar a nós”

Por Alagoas Brasil Noticias
Samanta Bullock, 41 anos: cadeirante, ex-jogadora de tênis, modelo e empresáriaImagem: Arquivo Pessoal
 

Em cima de sua cadeira de rodas, Samanta foi capa de revistas e desfilou em passarelas do mundo inteiro. E criou a SB, uma loja de departamentos que comercializa roupas universais e adaptadas com foco em inclusão social. Ela divide sua história abaixo:

“Eu tinha 14 anos quando peguei escondida a arma do meu pai que estava armário e dei um tiro acidental, que pegou na minha barriga, fígado, pâncreas, coluna e queimou minha medula. Na hora, caí no chão e já não senti as pernas. Foi uma dor tão forte que me anestesiou. Minha mãe ouviu o barulho e rapidamente me levou ao hospital com a ajuda de alguns vizinhos. Chegando lá, eu ouvi um dos médicos comentar com outro que eu não iria mais andar.

Samanta Bullock: acidente com arma de fogo a deixou paraplégica - Ange
 
Samanta Bullock: acidente com arma de fogo a deixou paraplégica

Imagem: Ange

Eu não me importava de não andar, meu maior medo era o de morrer. Fizeram a cirurgia para retirar a bala e, quando acordei, eu já sabia que tinha perdido os movimentos das pernas e que seria cadeirante. A pior parte para mim não era a paralisia em si, mas é a dor crônica que eu sinto todos os dias até hoje.

Não via a cadeira de rodas como algo negativo, mas como a minha libertação.

Com ela, eu me adaptei e aprendi a fazer tudo o que eu podia dentro do meu alcance. O apoio dos meus amigos e familiares foi fundamental nesse processo.

Cadeirante número 1 do tênis no país

Samanta chegou a ser a jogadora número 1 do país - Arquivo Pessoal
 
Samanta chegou a ser a jogadora número 1 do país

Imagem: Arquivo Pessoal

Após o acidente, eu achei que não poderia mais modelar e nem jogar tênis, as duas coisas que eu mais gostava de fazer. Eu trabalhava como modelo desde os 8 anos de idade por influência da minha mãe, que tinha sido miss. E jogava tênis desde os 9, vinha de uma família de praticantes do esporte.

Para mim, o não poder modelar era pior do que o não poder andar.

Com o sonho interrompido, segui minha vida e foquei nos meus estudos. Entrei na faculdade de odontologia, parei, comecei a fazer direito e a trabalhar na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Após um tempo, fui transferida para o Senado, em Brasília, onde atuei na elaboração do Estatuto da Pessoa com Deficiência.

Durante esse trabalho, conheci um projeto de tênis de cadeira de rodas. Fiz uma aula teste e, mesmo 12 anos longe das quadras, percebi que eu ainda tinha habilidade para o esporte. Voltei a praticar a modalidade três vezes na semana, participei de alguns torneios, me profissionalizei, virei atleta e me tornei a cadeirante número 1 do tênis no Brasil. Disputei três mundiais pelo meu país e ganhei a medalha de prata nos Jogos Parapan-Americanos com a minha dupla, a Rejane Cândida.

Enxurrada de nãos no caminho para ser modelo

Na passarela: ser modelo era um sonho de infância - Ange
 
Na passarela: ser modelo era um sonho de infância

Imagem: Ange

Com a minha popularização na modalidade, meus patrocinadores pediram para eu atuar como modelo e tirar fotos com os produtos que eles patrocinavam. Eu fui para um ensaio fotográfico de cadeira de rodas e todo aquele universo me despertou. Eu estava no tênis, mas pensei: “É isso que eu quero fazer”.

O tênis me proporcionou voltar para a minha paixão, que era modelar. Eu continuei com o esporte, mas corri atrás do meu objetivo. Não foi fácil: além de estar em uma cadeira de rodas, eu estava com 26 anos — já era considerada uma coroa para o mundo da moda.

Paralelamente aos ensaios com os patrocinadores, fiz um book e passei a ligar e ir em várias agências pedindo para me contratarem. Dizia que eu era cadeirante e falava da importância da inclusão social. Recebi uma enxurrada de nãos. Eu persisti e consegui desfilar em um evento de uma marca de jeans com a ajuda de um amigo que conhecia o dono da loja.

Casamento e capas de revistas em Londres

Com o marido britânico, que ela conheceu por meio do tênis - Arquivo Pessoal
 
Com o marido britânico, que ela conheceu por meio do tênis

Imagem: Arquivo Pessoal

Um ano depois desse primeiro desfile, em 2007, conheci meu marido, que é britânico, durante os torneios de tênis pelo mundo. Ele trabalhava na Federação Internacional de Tênis. Mudamos para Londres e nos casamos.

Quando cheguei a Londres, assinei contrato com uma agência que trabalhava com pessoas com deficiência. Eu fiz capas de revistas, participei de desfiles, fui figurante em novela. De 2009 a 2014, fui garota propaganda de uma marca de roupa adaptada em Portugal.

Desde 2010 faço um trabalho social no Brasil: sou embaixadora do projeto ‘Fashion Inclusivo’. Faço workshops, palestras, ensino a maquiar, a desfilar, a usar acessórios. Trabalho com crianças com Síndrome de Down, cadeirantes, amputadas. Meu objetivo é lançar outras modelos criando uma maior representatividade. Em 2011, me aposentei do tênis e foquei só na carreira de modelo.

Não encontrava roupas bonitas, confortáveis e funcionais

Com roupas da sua grife, Samantha pretende promover a inclusão - Divulgação
 
Com roupas da sua grife, Samantha pretende promover a inclusão

Imagem: Divulgação

Uma das minhas maiores dificuldades desde que me tornei cadeirante e, principalmente, quando voltei a modelar era encontrar roupas bonitas, confortáveis e funcionais. Pode não parecer, mas um dos grandes problemas da pessoa com deficiência é achar roupas adequadas para suas necessidades e que a façam se sentir bem.

A moda é ditatorial, define o que vamos usar.

As grandes empresas vendem peças pequenas, médias e grandes, como se todo mundo se encaixasse só nisso. As roupas não são pensadas na posição sentada, por exemplo. E não digo isso só porque sou cadeirante, mas se formos pensar, a maioria das pessoas passa a maior parte do tempo sentada, no trabalho, na escola, em viagens.

Ao usar casacos e vestidos longos, eu precisava puxá-los para cima, porque eles encostavam na roda, sujavam e ainda corriam o risco de rasgar. Às vezes eu precisava comprar um vestido com uma numeração maior para ficar mais confortável, e isso dava a impressão que eu estava com uns quilos a mais. Usar calça jeans sem elastano me apertava, machucava minha virilha.

Eu tinha algumas estratégias. Colocava, por exemplo, uma camisa mais larga ao usar uma calça com cós baixo para não mostrar o bumbum. A calça de cintura alta apertava a minha barriga, então eu desabotoava o botão e colocava uma camisa maior por cima. Era muito difícil encontrar uma roupa bonita e, ao mesmo tempo, confortável.

Sempre tinha que achar formas de me ajustar à roupa, e não a roupa se ajustar a mim.

Isso me incomodava muito. Já existiam peças adaptadas na época, mas eu achava a maioria delas feias e sem estilo.

Ao desfilar e fazer os ensaios, analisava as roupas no meu corpo e percebia que com alguns ajustes elas ficariam perfeitas para uma mulher cadeirante. Às vezes eram ajustes simples, como mudar o botão de posição, ou deixar menos tecido em uma região. Ao perceber essa necessidade, refleti que já tinha conquistado muitas coisas como modelo e que precisava resolver esse problema das peças inadequadas para as pessoas com deficiência e trazer soluções de uma forma que as clientes se sentissem bem e bonitas.

Roupas universais e adaptadas com foco na inclusão

Em um desfile de sua grife, com os modelos - Arquivo Pessoal
 
Em um desfile de sua grife, com os modelos

Imagem: Arquivo Pessoal

Decidi lançar a SB em Londres, uma loja de departamentos online que fornece roupas universais e adaptadas com foco na inclusão e na posição sentada. Eu me reuni com oito designers das marcas com as quais já trabalhava e fiz a proposta de cada um deles fazer de três a cinco peças adaptadas, com minha consultoria, unindo beleza, conforto e elegância.

Entre as peças adaptadas, há opções para cadeirantes e anões e joias com frases escritas em braile para cegos.

A ideia deu certo e, em junho de 2019, nós lançamos a coleção primavera-verão, com 35 peças assinadas por mim. Minha empresa funciona como um marketplace, onde comercializamos nossas próprias produções e as de outros designers. Vendemos uma peça, por exemplo, que foi criada por uma designer inspirada no pai com Parkinson. Como ele tremia muito, ela fez a camisa com os botões decorativos na frente, mas que abria e fechava com velcro.

Também temos parcerias com marcas que tenham a sustentabilidade no DNA. Comercializamos peças de empresas que reaproveitam tecidos que seriam jogados fora e fazem saias. Há uma outra que cria jaquetas pochetes e luvas com couro de abacaxi. Outra que usa as fibras da maconha para confeccionar vestidos. E uma marca faz um sutiã de cotton orgânico.

Passarela com modelos com síndrome de Down e vitiligo

Começamos com oito marcas e hoje temos parceria com 23. Nossas peças são vendidas pelo site e pelo Instagram. Em fevereiro deste ano, apresentamos a SB no London Fashion Week. Levamos para a passarela modelos cadeirantes, com síndrome de Down, com vitiligo, com queimadura. Foi um momento único e especial.

No futuro, tempos planos de criar a linha infantil adaptada e ampliar a linha masculina. Estamos em busca de parcerias com marcas brasileiras que se encaixem na nossa filosofia.

Quase 30 anos após o acidente, não mudaria nada do que aconteceu. Sou deficiente e não tenho nenhum problema com isso.

Minha deficiência é parte da minha história. Estou entre as 100 pessoas com deficiência mais influentes no Reino Unido. Se eu não tivesse sofrido o acidente e as consequências dele, não teria me transformado na pessoa que sou.

É o que sempre digo: faça o que você pode, com o que você tem, da melhor maneira possível. Eu faço o meu melhor buscando a inclusão e a igualdade através da moda.”

Fonte: Terra 

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