Alagoas

Com medo da Covid-19, caciques isolam 16 mil índios entre Alagoas e Sergipe

Por Arnaldo Ferreira | 21/05/2020 | 07:11 | Preocupação nas tribos é com desempregados que retornam clandestinamente de outros estados 

 

Caciques isolam 16 mil índios entre Alagoas e Sergipe

FOTO: CORTESIA
 

O medo de contaminação pelo coronavírus levou caciques e lideranças da maioria dos 16 mil índios das 11 tribos de Alagoas e uma de Sergipe a apoiar as medidas de isolamento social decretadas pelas prefeituras e pelo Estado. As festas, atividades esportivas, religiosas e encontros de tribos estão suspensas. Outra preocupação é com a chegada às aldeias de ônibus clandestinos com índios desempregados em estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Barreiras evitam o acesso de pessoas das cidades e saídas de índios das comunidades. 

As lideranças contabilizam duas mortes [oficialmente só há registro de uma da aldeia Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio], três casos suspeitos, um confirmado e outro em tratamento. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão do Ministério da Saúde (MS), mantém, em cada aldeia, um posto com equipes completas de profissionais de Saúde. 

As lideranças querem aplicação de testes rápidos na maioria dos índios. Nas tribos que ficam às margens da BR-101 (Kariri-Xocó e Wassu, do município de Joaquim Gomes), o controle do isolamento é mais rigoroso porque os casos registrados são de lá. As cinco tribos do alto Sertão – Jeripankó, Kalancó, Karauzu, Koiupanká e Katokim – pedem água tratada. 

Na região tem chovido satisfatoriamente, mas os índios dizem que a água das barragens e açudes está suja, imprópria para o consumo humano. Na próxima semana, a Coordenação Estadual da Defesa Civil começa a contratar 120 caminhões-pipa, que, junto com 180 caminhões do Exército, levarão água para 300 mil sertanejos, incluindo as comunidades indígenas. 

A preocupação dos caciques é com os índios que, durante o período da seca (2012 e 2017), foram em busca de trabalho em cidades do Centro-Oeste, Sul e Sudeste (Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo). Com o desemprego provocado pela pandemia, a maioria está retornando em ônibus clandestinos. 

Os caciques orientam os “parentes” a comunicar o retorno de índios ao posto de saúde e mantê-los em isolamento nas aldeias por 14 dias. O cacique Wassu “Neguinho” [Edmilsom José da Silva] lidera o trabalho de conscientização com os “parentes” para evitar receber familiares de outros estados e, se receber, tem de comunicar à equipe de Saúde da comunidade para investigar a condição epidemiológica. Se for o caso, manter em isolamento. 

Nas estradas internas, há barreiras para evitar o trânsito de pessoas das cidades, como vendedores ambulantes (prestamistas) e entregadores de gêneros no pequeno comércio da aldeia. As reuniões e atividades sociais e religiosas também foram suspensas, conforme disse o cacique ao confirmar que um dos “parentes” [forma de tratar os índios] foi infectado. A vítima mora fora da aldeia. 

A tribo Wassu tem 645 famílias (mais de três mil índios). “Não há registro de contaminação dentro da aldeia”, garantiu o Cacique “Neguinho”, sem esconder a preocupação com os idosos que, regularmente, vão à cidade para tratamento de saúde, receber aposentadoria, auxílios, fazer compras em locais de aglomeração.

TESTES

O cacique em exercício da tribo Kalankó e secretário de Saúde da cidade de Água Branca, Antônio da Silva – “Tonho” Kalankó, confirmou que estão chegando testes rápidos para as comunidades. Ele recomenda avaliar a saúde da maioria dos índios de Alagoas. A maior preocupação dele é com as comunidades que ficam às margens da BR-101. Afirma, porém, que a situação está sob controle e com vigilância sanitária nas comunidades. O cacique cobrou, também, assistência social para as cinco tribos do Sertão. 

“Água tem. Chove regularmente como não acontece há mais de dez anos. Mesmo assim, as comunidades precisam de água tratada, sementes para o plantio, cestas básicas para 16 mil índios de Alagoas e Sergipe”. Destacou, também, que as aldeias do Sertão dependem dos benefícios sociais e da agricultura. “Depois de uma seca longa, as famílias não têm sementes nem animais para ajudar a arar a terra. Por isso, precisam da política dos Governos Federal e Estadual, que não chega”. 

Nas aldeias do Sertão, a outra preocupação é com os “parentes” que ficaram desempregados e retornam diariamente dos estados de São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais. “As comunidades precisam de mais informações simples e eficientes com relação às formas e aos perigos de contaminação. Não adianta informação com linguagem sofisticada”, disse o cacique “Tonho”. 

Um dos voluntários do Conselho Missionário Indigenista (Cimi) [entidade ligada à Igreja Católica], o professor-doutor em Antropologia Jorge Vieira, depois de visitar algumas aldeias, revelou que a situação dos povos indígenas de Alagoas é semelhante à dos demais estados. 

“Neste período de pandemia se esperava que a Sesai fizesse um trabalho preventivo em conjunto com estados e municípios. Infelizmente, isso não ocorre de forma eficiente”. Por isso, segundo Jorge Vieira, a maioria das lideranças decidiu fechar a entrada de não-indígenas nas aldeias e ajudar no controle epidemiológico. Vieira cobra política de assistência social e alimentos para os índios de Alagoas que estão em isolamento social.

FUNAI

Uma ação coordenada pela Fundação Nacional do Índio e a Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena de Alagoas/Sergipe apoiou a entrega de cestas de alimentos para 70 famílias da Aldeia Wassu Cocal que vivem e trabalham às margens da BR-101. As cestas básicas foram distribuídas em abril. Os índios esperam mais socorro. 

A Universidade Federal de Alagoas (Ufal) disponibilizou as comunidades indígenas e profissionais de saúde que trabalham nas aldeias: 25 escudos faciais (face-shield), 60 litros de álcool e 60 litros de hipoclorito de sódio. Todos os produtos e equipamentos serão utilizados no combate à disseminação do novo coronavírus entre os povos indígenas de Alagoas e Sergipe, segundo garantiu um dos técnicos da Sesai ao acrescentar a distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) enviados pelo Ministério da Saúde por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena. 

Carros de som percorrem as aldeias e divulgam informações a respeito das formas preventivas e de higiene para evitar a contaminação da Covid-19. O trabalho começou na aldeia Kariri-Xocó, com objetivo de alertar os 2.307 índios da tribo, onde há registro oficial de um caso confirmado e um óbito.

Fonte: Gazeta Web 

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