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Com Amazônia emitindo mais CO2 do que absorvendo, mundo pode perder o seu “ar condicionado”

Por Alagoas Brasil Noticias

Por Lúcia Müzell  – Foto: AFP Photo/Tarso Sarraf – Publicado às 16:19

As florestas absorvem cerca de 30% dos gases de efeito estufa despejados na atmosfera. A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, representa um ator essencial neste mecanismo.

“Na bacia como um todo, não só no Brasil, a Amazônia guarda uma década de emissões globais de gases de efeito estufa na sua vegetação. Imagine você emitindo, ao longo dos anos, 10 anos de emissão global”, explica o pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). “É muita coisa, e isso sem falar na perda da biodiversidade, culturas, e do ar condicionado do planeta, muito relacionado à absorção que a floresta faz do CO2. Ela age como um grande ar condicionado.”

Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). © ipam.org.br

Esse “serviço” é uma consequência do ciclo de precipitações gerado na área pela floresta e sua interação com a atmosfera. A destruição da mata leva a mais emissões de CO2 e diminui a evapotranspiração, que “resfria” o ar.

“Se existe um ponto que podemos chamar de positivo de termos mais CO2 na atmosfera, é que isso estimula a vegetação a fazer mais fotossíntese. Se por um lado, estamos sujando mais a atmosfera, a natureza está tentando compensar o estrago que estamos fazendo retirando esse CO2”, complementa a pesquisadora Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). “O problema é que o estrago que a humanidade está causando é tremendamente maior do que a pobrezinha da natureza está conseguindo compensar da sujeira que nós estamos fazendo no planeta”, resume.

Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). © Arquivo pessoal

Primeiros alertas já têm 10 anos

O primeiro estudo sinalizando a diminuição da capacidade de absorção de gás carbônico pela Amazônia foi publicado em 2010, baseado em dados das três décadas anteriores. Desde 2014, Luciana alerta sobre o desequilíbrio acelerado do ciclo do carbono na região – causado pela interação entre as mudanças climáticas e a alta das queimadas e o desmatamento.

“Temos essa região do lado leste da Amazônia, que está cerca de 30% desmatada, emitindo 10 vezes mais carbono do que a oeste, que é 11% desmatada. A nossa descoberta é até mais sombria do que a comunidade científica tem ciência. A Amazônia já é fonte de carbono – e eu não sei se isso é reversível”, lamenta a especialista em mudanças climáticas.

“A primeira medida, se quiséssemos resolver o problema, seria proibir totalmente queimada a partir de agosto, quando começa a estação seca. Nós temos leis de proteção ambiental, Código Florestal, que não estão seguidas e estamos vendo as consequências disso. Eu gostaria de ver a CPI do meio ambiente, a CPI da Amazônia, do Pantanal”, completa.

Paulo Moutinho também insiste neste ponto. Segundo ele, a única esperança para restaurar a capacidade de captação CO2 pela floresta é o fim do desmatamento, legal como ilegal, associado ao reflorestamento nas áreas mais degradadas.

“É preciso entender que isso pode ser o início de uma degradação, que precisa ser alertado. Podemos estar chegando mais rápido a um ponto sem retorno, o tiping point, não só pelo desmatamento, mas por uma degradação muito avançada em que você tem mortalidades de grandes árvores”, observa o ecólogo, um dos fundadores do Ipam. “Elas acabam morrendo emitindo muito, abrindo grandes clareiras, que facilitam a entrada do fogo. Num cenário inflamável e de mudança do clima amazônico, pode gerar, na região, uma situação muito diferente em termos de de vegetação do que a gente tem agora.”

Condições climáticas e região mais inflamável antecipam mortes das árvores

Luciana Gatti e sua equipe têm investigado as causas da morte precoce de grandes árvores amazônicas, que necessitam de solo úmido o ano inteiro para sobreviverem. “A seca está mais seca, mais quente e mais prolongada. A estação chuvosa está sendo empurrada para frente. Estamos tendo os impactos negativos da mudança no clima, que nós estamos promovendo também, com o desmatamento. Jogamos mais CO2 na atmosfera e a condição de estresse da floresta está se intensificando”, frisa a doutora em ciências. “Isso leva a aumento da mortalidade das árvores e, sob estresse, várias árvores paralisam a fotossíntese e continuam respirando. Ou seja, mais emissão de CO2 do que absorção.”

A pesquisadora ressalta que os dados de referência de emissões do Brasil desconsideram o impacto das queimadas e dessas mudanças na Amazônia – tema de um novo artigo que deve ser publicado em breve na revista Nature. “Se incluir isso, a situação será tremendamente pior do que os cálculos e emissões preveem hoje”, destaca.

Fonte: RFI



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