Anadia/AL

4 de agosto de 2021

Anadia/AL, 4 de agosto de 2021

Copa América não se justifica nem financeiramente. A Conmebol aguenta o cancelamento se usar (um pouco de) sua poupança

Por GyanCarlo

Em 1 de junho de 2021

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Não, não deveria haver Copa América. E não vou entrar em questões de saúde pública, as quais deixo para infectologistas, epidemiologistas e demais especialistas. Não deveria haver Copa América porque, mesmo financeiramente, a sua realização no Brasil não se justifica.

É possível entender a gravidade da situação com duas perguntas básicas: de onde vem o dinheiro e para onde ele vai. Neste caso excepcional, de pandemia do coronavírus e de discussão sobre a necessidade de realizar competições, essas respostas nos ajudam a ter prioridades.

A origem do dinheiro é comum a praticamente todas as partes no mercado: direitos de transmissão (comercializados para emissoras) e patrocínios (obtidos por meio de empresas variadas). Também há, dependendo da situação, bilheterias e demais receitas ligadas ao estádio.

Já o destino da grana varia de acordo com a entidade. Um clube de futebol gasta quase tudo com salários de jogadores e demais funcionários, porque a razão de sua existência é ganhar campeonatos. Uma federação gasta a maior parte consigo mesma, outra parte relevante com as seleções nacionais e uns trocados com o resto.

Pois é exatamente por causa dessa diferença de natureza e de finalidade que, num momento como o atual, em que milhares de pessoas perdem a vida todos os dias para um vírus, deveríamos estabelecer prioridades.

Na opinião pública, é comum a seguinte questão: por que a Copa América deveria ser cancelada, mas o Campeonato Brasileiro ocorre?

Porque se o Brasileirão for cancelado em uma ou duas temporadas inteiras, clubes perderão quase a totalidade de suas receitas com direitos de transmissão, patrocínios e estádio. Sem dinheiro, eles não conseguirão honrar contratos com jogadores. Nem com funcionários. Haveria o desemprego de milhares de pessoas. O mercado colapsaria.

As viagens ocasionadas pela competição nacional oferecem riscos a jogadores e familiares. A menos que todas as partidas ocorressem no mesmo lugar, numa bolha, em que os participantes não tivessem relação com o que está fora, haverá algum risco à saúde dessas pessoas. Para que o mercado inteiro não colapse, no entanto, aceitam-se riscos.

O faturamento da Conmebol em 2019
No último ano em que realizou a Copa América, 25% de suas receitas vieram da competição de seleções

No caso da Copa América, trata-se de uma competição que coloca cerca de US$ 120 milhões nos cofres da Conmebol. A confederação sul-americana, por sua vez, afirma que todo esse valor é reinvestido na própria competição. É o que consta em seu orçamento para 2021. O evento responde por 25% de todo o faturamento da entidade.

O que aconteceria se a Copa América não acontecesse? Bem, a Conmebol teria de rever seu acordo comercial com a Dentsu, a terceirizada que vende seus direitos de transmissão. A entidade deixaria de arrecadar uma quantia relevante e teria dificuldades financeiras.

A Conmebol quebraria? Considerando que ela possui US$ 67 milhões em caixa, além de outros US$ 101 milhões em aplicações financeiras, que podem ser resgatadas, o cancelamento da Copa América seria um desconforto tão grande quanto gastar parte da poupança.

E as demais competições?

O raciocínio serve para qualquer campeonato. Se tal competição for cancelada em definitivo, quem perde dinheiro? E quanto? Essas respostas ajudam a montar uma noção de prioridade para cada evento.

A Copa do Brasil, como o Campeonato Brasileiro, causaria a destruição de clubes do país inteiro que contam com suas cotas de participação para pagar contas. Além disso, é uma competição de caráter nacional. Então, a dificuldade no caso dela é encontrar os meios para que riscos à saúde dos envolvidos sejam reduzidos – ainda que nunca zerados.

Um caso complicado é o das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Disputado por seleções nacionais em diferentes países, a ameaça à saúde pública é ainda maior. E há uma consequência esportiva que torna o caso ainda mais difícil: caso essa competição não chegue a um fim, fica difícil definir de maneira justa quem tem o direito de viajar ao Qatar.

Financeiramente, no entanto, as Eliminatórias se assemelham à Copa América. A venda dos direitos de transmissão e dos patrocínios, no caso delas, é feita pelas federações nacionais. A CBF comercializa a seleção brasileira; a AFA, a seleção argentina; e assim sucessivamente.

O que acontece se uma federação nacional não recebe o dinheiro que contava? Nenhum jogador perde o emprego. Ninguém das comissões técnicas. Campeonatos nacionais prosseguem com seus clubes. Torcedores não são prejudicados. O mercado não entra em colapso.

A federação precisaria apertar os cintos. Gastar um pouco menos de dinheiro com seus funcionários, seus prédios. Cartolas teriam de rever seus contratos com agências que vendem seus direitos. Daria um trabalhão! Talvez as seleções não consigam viajar para determinadas competições. Ainda assim: a parte relevante do futebol não acaba.

É por essa razão que, em último caso, quando a pandemia estiver em níveis alarmantes, nem mesmo as Eliminatórias deveriam estar imunes. Partidas podem ser jogadas depois. E se não houver solução até o apito inicial da Copa no Qatar, que se resolva com cara e coroa. Vidas de pessoas valem mais do que qualquer competição esportiva.

Por que a confusão continua

O futebol se acostumou a uma falsa dicotomia que também foi usada para justificar atrocidades noutros cantos da sociedade, a da economia versus saúde pública. Como se a todo momento, em qualquer circunstância, a escolha tenha de ser entre sacrificar um ou outro.

Comparações toscas também servem de pretexto na pandemia. Se ele pode, por que não posso? Aplica-se a restaurantes e bares, shoppings e cinemas, igrejas e clubes de futebol. Pior: esses paralelos vêm acompanhados de uma suposta defesa da coerência.

Competições diferentes causam riscos diferentes à saúde das pessoas e à economia do futebol. É possível fazer a mensuração de ambas as esferas e estabelecer prioridades. Quais riscos estamos dispostos a enfrentar em relação ao vírus e ao potencial desemprego?

Falando especificamente do futebol, não conseguimos até hoje criar esse senso de prioridade porque os bolsos são diferentes. A Conmebol não quer deixar de faturar com a Copa América, a federação do seu fulaninho não pode perder uns trocados. Todos se impõem. Na falta de hierarquia e bom senso, os riscos escalam a níveis desnecessários.

Fonte: GE Esporte 

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