Anadia/AL

28 de julho de 2021

Anadia/AL, 28 de julho de 2021

Vacinas em forma de spray nasal contra covid-19: o que se sabe sobre elas?

Por GyanCarlo

Em 14 de junho de 2021

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Há poucos dias, os testes realizados pela Rússia de uma nova vacina contra a covid-19 para crianças em forma de spray nasal viraram notícia em todo mundo. Indicada para crianças de 8 a 12 anos, a expectativa é que ela esteja disponível já a partir de setembro, segundo o cientista que liderou o desenvolvimento da vacina Sputnik V, Alexander Gintsburg, que dirige o Instituto Gamaleya. O grupo de pesquisa disse que já testou a vacina em menores e não encontrou efeitos colaterais, nem mesmo aumento na temperatura corporal, segundo a agência de notícias TASS. “Estamos inoculando nossos pequenos (pacientes) por via nasal, apenas administrando a mesma vacina em forma de um spray nasal”, disse Gintsburg, sem dar mais detalhes sobre o estudo ou sobre quantas crianças estavam envolvidas.

O fato é que essa não é a única vacina nasal que está sendo desenviolvida e testada no momento. Segundo o MedPage Today, apesar do arsenal de vacinas injetáveis ​​altamente eficazes, os fabricantes de medicamentos estão procurando produtos que serão mais fáceis de armazenar, transportar e administrar na crise global, no caso, as vacinas intranasais. No entanto, a pergunta é: elas também podem ser tão eficazes no bloqueio à transmissão?  Embora a maioria ainda esteja em estágios iniciais de desenvolvimento, alguns especialistas acreditam que elas podem ser ainda melhores.

Como age o spray nasal contra covid-19?

“O sistema imunológico da mucosa representa a primeira linha de defesa do corpo contra patógenos externos em superfícies como nariz, pulmões, boca, olhos e trato gastrointestinal. Como a nasofaringe é o principal ponto de entrada para a SARS-CoV-2, alvejar a cavidade nasal pode ser uma das melhores linhas de defesa para as vacinas”, explicou Michael Russell, PhD, professor emérito de microbiologia e imunologia da Universidade de Buffalo, em Nova York, à revista científica. “Ao gerar respostas imunológicas eficazes da mucosa, deve ser possível prevenir a infecção por coronavírus desde o início e também reduzir de forma mais eficaz a transmissão do vírus. A imunização nasal visa replicar esse processo natural de imunização de uma maneira mais eficaz”, completou.

Portanto, as vacinas injetáveis induziriam uma resposta imune sistêmica ao gerar anticorpos IgG circulantes que neutralizam os patógenos antes que possam causar danos graves aos tecidos. No entanto, os especialistas explicam que o IgG não é muito bom no controle da entrada do vírus no corpo e, para fazer isso, o sistema imunológico da mucosa é necessário. Então, produz IgA secretora no local de entrada do vírus e em maiores quantidades do que qualquer outro tipo de imunoglobulina do corpo. “A principal vantagem das vacinas mucosas seria criar uma forte resposta imunológica no local inicial de entrada do vírus. Se você puder interromper o vírus aqui, ele não será capaz de entrar nos pulmões para causar danos”, esclareceu Richard Kennedy, PhD, que estuda o desenvolvimento de respostas imunológicas após a vacinação na Mayo Clinic.

Vacinas nasais em desenvolvimento

Segundo a revista médica, de 96 vacinas que estão em testes atualmente, pelo menos oito são intranasais, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde divulgados em 5 de maio. Os ensaios clínicos estão sendo conduzidos nos Estados Unidos, Reino Unido, China, Índia, Cuba e Irã. Duas vacinas candidatas intranasais estão em testes clínicos de fase II. Uma usa um vírus da gripe vivo atenuado adaptado para expressar a proteína spike do SARS-CoV-2 e está sendo desenvolvido pela Universidade de Hong Kong, pela Universidade de Xiamen e pela Beijing Wantai Biological Pharmacy Enterprise, em parceria com a Coalition for Epidemic Preparedness Innovations ( CEPI ). A segunda é uma vacina de subunidade de proteína que está sendo desenvolvida pelo Razi Vaccine and Serum Research Institute, no Irã.

Nos EUA, duas vacinas candidatas intranasais estão em testes de fase I. A primeira é a vacina de vetor adenoviral não replicante da Altimmune, chamada AdCOVID. Em 25 de março, a empresa divulgou resultados pré-clínicos em ratos sugerindo que a vacina era protetora contra doenças, diminuiu os níveis de replicação do vírus no nariz e no trato respiratório e produziu uma resposta IgG “robusta”. Resultados anteriores em camundongos mostraram que os anticorpos IgA foram mantidos por pelo menos 6 meses após uma única dose da vacina. O segundo é o candidato vivo atenuado de Meissa. Dados pré-clínicos em primatas não humanos sugeriram que o candidato induziu IgA mucosa e anticorpos neutralizantes do soro, e foi “altamente protetor” contra a infecção com SARS-CoV-2 no trato respiratório superior e inferior.

Outras vacinas intranasais candidatas em ensaios clínicos incluem: Vacina de subunidade protéica do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba (fase I / II); Covishield da Universidade de Oxford / AstraZeneca , uma versão em spray nasal de sua vacina ChadOx1 (fase I); Codagenix / Serum Institute of India, vacina viva atenuada SARS CoV-2 COVI-VAC (fase I); e a vacina de vetor adenoviral não replicante da Índia, Bharat Biotech. Recentemente, a CanSino Biologics da China anunciou planos para iniciar um ensaio de fase I/II de outra vacina inalada, de acordo com um comunicado à imprensa enviado por e-mail da empresa de dados e análises Global Data.

Vacina de spray brasileira

No Brasil, a Universidade Federal do Paraná anunciou que está avançando os estudos com uma vacina contra a covid que provavelmente também poderá ser usada na forma de spray nasal, feito com uma adaptação das partículas. Isto é, o imunizante continua o mesmo, mas a partícula é modificada. A fase de testes pré-clínicos deve ser finalizada até o final de 2021, no entanto, já demonstraram que essas particulas foram capazes de ativar o sistema imune e gerar anticorpos, inclusive do tipo IgA, que são anticorpos que normalmente são produzidos pelo sistema imune nas mucosas.

O professor Breno Castello Branco Beirão ressalta que o imunizante em spray também reduz a transmissão do coronavírus. “Nas formas injetáveis da vacinação o efeito sobre a transmissão do vírus é menor. Então, a gente tem essa expectativa de que a vacina poderá, eventualmente, ser administrada dessa forma. Os testes das duas formas avançam paralelamente”, informou, através da assessoria de imprensa da universidade. No momento, a equipe está medindo a concentração de anticorpos gerados por esta via de imunização em camundongos. Uma das possibilidades é a proposição de uma proteção associada entre vacina e preparação nasal, para garantir a não-propagação do vírus mesmo após a imunização.

A vacina usa insumos nacionais e tem tecnologia de produção 100% desenvolvida na UFPR, fruto de pesquisas realizadas com biopolímeros biodegradáveis e com partes específicas de proteínas virais. Com isso, pode ser recombinada para proteger contra outras doenças, como dengue, zika, leishmaniose e chikungunya, sem precisar mudar todo o processo. De acordo com os testes pré-clínicos realizados em camundongos, duas doses da vacina da UFPR foram capazes de produzir mais anticorpos do que o imunizante da AstraZeneca. Para avançar para os testes em humanos, porém, ainda é preciso descobrir por quanto tempo esses anticorpos permanecem ativos e se são capazes de bloquear e neutralizar a infecção, assim como definir qual a dose exata para proteção e possíveis efeitos colaterais.

Vantagens e desvantagens

Entre as pricipais vantagens, está o fato de as vacinas intranasais serem estáveis ​​à temperatura ambiente, facilitando o transporte e melhorando potencialmente o acesso à vacinação em locais remotos ou com poucos recursos. Outro ponto positivo é a fácil administração, melhorando a aceitação, especialmente entre as crianças, destacou o pesquisador Michael Russell.

No entanto, elas também têm desvantagens. Embora possam produzir imunidade sistêmica e local, um obstáculo é a produção de imunidade eficaz e duradoura. As superfícies mucosas contêm várias barreiras aos patógenos que podem interferir na capacidade das vacinas de acessar e ativar o sistema imunológico da mucosa. Isso poderia contribuir para a imunogenicidade fraca e a imunidade diminuindo mais rapidamente. “Não existem muitas vacinas para mucosas licenciadas. Essas vacinas são eficazes para certos patógenos, mas isso pode ou não ser verdade para o SARS-CoV-2”, disse Richard Kennedy. “Se recursos semelhantes puderem ser disponibilizados para o desenvolvimento acelerado de vacinas intranasais, como foram implantados para as vacinas existentes, meu palpite é que poderemos ver alguns delas sendo disponibilizadas em cerca de um ano”, completou.

Palavra de especialista brasileiro

O infectologista pediátrico e neonatologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), acredita que as vacinas nasais podem ser importantes e eficazes imuizantes contra a covid-19. “A ideia é colocar um vírus, um estímulo para a produção de anticorpos já na mucosa nasal, que é a porta de entrada do vírus e, com isso, estimular a produção de uma classe de anticorpos, o igA, que é um potente anticorpo de mucosa. Isso pode funcionar muito bem”, diz. “Só temos uma experiência com vacina de spray nasal, que é a vacina da gripe chamada Flumist. Ela não está licenciada no Brasil, mas os Estados Unidos usam há mais de uma década e funciona muito bem, protege bem e seria baseada nessa mesma tecnologia”, explica.

“Entre as vantagens está o conforto, ou seja, não precisa aplicar uma injeção. Em geral, é um pouco mais cara, pois cada dispositivo de spray é individual. Apesar de ser uma tentativa, ainda não temos nenhuma pespectiva de uso a curto prazo”, finalizou.

Fonte: Revista Crescer 

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