Anadia/AL

13 de julho de 2024

Anadia/AL, 13 de julho de 2024

Kobra inaugura mural em Saint-Ouen, cidade que vai receber o Brasil nos Jogos Olímpicos de Paris

O subúrbio parisiense de Saint-Ouen-sur-Seine está mais colorido. O artista paulistano Eduardo Kobra inaugurou nesta quinta-feira (13) mais um de seus grandes painéis, na fachada de um edifício.

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 14 de junho de 2024

Geral

Painel do artista brasileiro Kobra em Saint-Ouen-sur-Seine, ao norte da capital francesa. Em 13 de junho de 2024. © RFI Maria Paula Carvalho

Por Maria Paula Carvalho

O painel tem 19 metros de altura e 10 de largura. Está localizado perto da prefeitura de Saint-Ouen, ao lado de uma escola. Foi todo feito em spray e esmalte sintético com o uso de pistola.

O artista levou quatro dias para realizar o mural, inspirado em um óleo sobre tela do pintor francês Eugène Delacroix: “Liberdade Guiando o Povo”, de 1830, que exalta as três “Revoluções Gloriosas” e mostra uma figura feminina liderando os revoltosos. Na versão de Kobra, ela é uma atleta, usa tênis e em sua bandeira há uma mensagem em francês: “soyons nos propres héros”, “sejamos os nossos próprios heróis”, em tradução livre em português.

“Eu fiz essa analogia porque esta pintura está muito conectada com alguns valores e princípios relacionados ao esporte como resiliência, força, coragem, superação e dedicação”, diz Kobra em entrevista à RFI. “Este painel também traz essa mensagem: ‘seja o herói de você mesmo'”, completa o artista, que está em Paris para a inauguração da obra.

A cerimônia contou com a presença do embaixador do Brasil na França, Ricardo Neiva Tavares, de autoridades locais, estudantes, moradores de Saint-Ouen e esportistas.

“Muitos dos atletas do Brasil vêm de origem simples, de origem humilde e conseguem vencer e estar aqui por sua dedicação, força de vontade, coragem e resiliência”, compara Kobra. “A obra faz essa conexão, não só com o meu trabalho, pois eu tenho que ter muita coragem e força de vontade para executar, mas ela foi especialmente criada para os atletas brasileiros”, acrescenta.

Nascido em Jardim Martinica, na periferia de São Paulo, o artista Eduardo Kobra começou sua carreira como Street Art, antes de se tornar um muralista. Em 1995, ele fundou o Estúdio Kobra, especializado em painéis artísticos e hoje conta com uma equipe de 12 pessoas. Outros dois artistas vieram a Paris para realizar o mural no número 10 da rua Alexandre Bachelet, em Saint-Ouen.

Os vizinhos da obra aprovaram. “É uma coisa maravilhosa”, diz uma moradora. “Magnífico. É a mensagem mais linda, para todos se entenderem bem”, diz outra.

“Todos nós temos a nossa responsabilidade de deixar a nossa região melhor e mais bonita”, salienta o artista. “A arte abriu portas no mundo para mim e eu sou alguém que sempre busca evolução. Hoje eu tenho trabalhos em 38 países, de cinco continentes, mas continuo com o pé no chão”, diz.

O embaixador do Brasil na França, Ricardo Neiva Tavares (e), a esgrimista brasileira Nathalie Moellhausen, o prefeito de Saint-Ouen-sur-Seine, Karim Bouamrane, e o artista Kobra (d).
O embaixador do Brasil na França, Ricardo Neiva Tavares (e), a esgrimista brasileira Nathalie Moellhausen, o prefeito de Saint-Ouen-sur-Seine, Karim Bouamrane, e o artista Kobra (d). © RFI Maria Paula Carvalho

Com grande sensibilidade para as mazelas sociais, os trabalhos de Kobra são também uma forma de chamar a atenção para as dificuldades vividas por muitos brasileiros. No Brasil, ele pintou algumas máscaras de esgrima de Nathalie Moellhausen, que foram colocadas à venda para ajudar projetos sociais que têm o esporte como alavanca.

“A ideia surgiu no final de 2022, quando lançamos no Brasil o projeto ‘Seja o seu próprio herói’, destinado às instituições brasileiras que oferecem esgrima para crianças desfavorecidas no Brasil”, explica a esgrimista brasileira Nathalie Moellhausen, que vai competir no Grand Palais, nos Jogos Paris 2024.

“Por causa da minha vivência em Paris, achei que o trabalho do Kobra representava muito bem esses valores universais, que valem para atletas, artistas ou qualquer ser humano”, completa. “Eu sempre pensei que este slongan pudesse marcar essa Olimpíada de Paris”, afirma a atleta, que apresentou o projeto à prefeitura de Saint-Ouen.

A esgrimista Nathalie Moellhausen discursa na inauguração do painel do artista Kobra, em Saint-Ouen-sur-Seine. Em 13 de junho de 2024.
A esgrimista Nathalie Moellhausen discursa na inauguração do painel do artista Kobra, em Saint-Ouen-sur-Seine. Em 13 de junho de 2024. © RFI Maria Paula Carvalho

O município de quase 50 mil habitantes, no norte da capital francesa, será a base de apoio do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Localizada a 600 metros da Vila Olímpica, a cidade foi escolhida pela proximidade e pelas instalações que oferecerá à delegação brasileira. O COB terá cinco locais à disposição dos atletas e suas equipes na cidade: o Château Saint-Ouen, a Escola Petit Prince, o Parque das Docas, o Ginásio das Docas e a Serra Wangari.

Para a prefeitura de Saint-Ouen, a parceria com o Brasil marcará uma geração. A obra, de Kobra, assim como a presença da delegação brasileira na cidade, simbolizam valores que a França tem em comum com o Brasil.

“Kobra é um ícone artístico e internacional e sua obra se integra com a nossa filosofia de parceria com o Brasil”, afirma à RFI o prefeito de Saint-Ouen, Karim Bouamrane. “Nós receberemos a delegação brasileira com orgulho. Queremos colocar beleza na cidade e Kobra incarna a democratização cultural, especialmente neste momento que precisamos de generosidade”, completa. “São valores universais, valores de fraternidade”, conclui.

Em março, o município já havia inaugurado a rua Doutor Sócrates, a primeira do mundo com o nome do ex-jogador brasileiro, no local onde antes havia casas insalubres. A cidade será sede de quase 300 atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de Paris e a rua com o nome do ex-jogador fica dentro da Vila Olímpica.

Rio 2016

Esta não é a primeira vez que o artista Kobra integra seu trabalho aos Jogos Olímpicos. Em 2016, ele pintou um dos maiores murais grafitados do mundo, chamado Etnias, com 2,5 mil metros quadrados, para celebrar os Jogos do Rio de Janeiro.

“O boulevard Olímpico no Rio de Janeiro também era uma área abandonada, degradada e eu tive a oportunidade de pintar um mural lá para a Olimpíada”, lembrou o artista. “Para mim, estar num bairro nobre ou um subúrbio tanto faz, o que eu gosto é deixar a minha marca registrada.”

Redação com RFI

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