Por Arthur Felipe Farias
Em 536 d.C., uma série de eventos naturais e suas consequências históricas criaram um dos períodos mais dramáticos da história humana, tão severo que muitos historiadores o consideram o pior ano para se estar vivo. Uma misteriosa névoa escureceu o sol por 18 meses, dando início a uma sequência de desastre climático, social e biológico que mergulhou grandes partes do mundo em escuridão, frio extremo, fome e doença devastadora. As informações são do canal Poeira da História.
O fenômeno que oculta o sol
No início de 536 d.C., relatos históricos descrevem um fenômeno incomum: uma névoa espessa cobriu onde hoje estão a Europa, o Oriente Médio e partes da Ásia, obscurecendo o sol tanto durante o dia quanto à noite por cerca de 18 meses.
Testemunhas da época, incluindo o historiador bizantino Procópio de Cesareia, relataram que “o sol emitia sua luz sem brilho, como a lua” durante todo o ano.
Para os habitantes da época, o efeito era apocalíptico: sombras praticamente desapareceram ao meio-dia e a luz que chegava à Terra era extremamente fraca e desprovida de calor.
Causas naturais: erupções vulcânicas
Pesquisas modernas indicam que o fenômeno foi causado provavelmente por erupções vulcânicas massivas. Estudos de núcleos de gelo na Groenlândia e na Antártida revelaram aumentos substanciais de sulfato no ano de 536, um subproduto de grandes erupções.

A hipótese dominante é que um vulcão de alta latitude, possivelmente na Islândia ou no Alasca, expeliu enormes quantidades de cinzas e partículas de aerossol que se espalharam pelo Hemisfério Norte, formando um véu que refletiu a luz solar para o espaço.
Além disso, outras erupções ocorridas nos anos seguintes, incluindo a do vulcão Ilopango, em El Salvador, em 539 ou 540, podem ter intensificado e prolongado o resfriamento global iniciado em 536.
Resfriamento global e colapso das safras
O bloqueio da luz solar causou um resfriamento global drástico, especialmente no Hemisfério Norte. Verões em 536 registraram quedas de temperatura de mais de 1,5 °C a 2,5 °C abaixo da média, tornando aquele ano o mais frio em mais de dois milênios. Em algumas regiões, como na China, que já tinha esse nome, houve relatos de neve durante o verão.

Esse resfriamento profundo e prolongado teve consequências diretas e devastadoras para a agricultura. As safras fracassaram em vastas áreas dos hoje hoje Europa, Oriente Médio e Ásia, levando a escassez de alimentos generalizada.
Crônicas irlandesas da época registraram uma “falha de pão” entre os anos de 536 e 539, um indicativo da severa carência de grãos essenciais.
Fome, migrações e instabilidade social
A quebra das colheitas não apenas privou milhões de alimentos, mas também desestabilizou sociedades inteiras. Territórios antes prósperos enfrentaram fome extrema, o que intensificou tensões sociais, migrações forçadas e conflitos locais por recursos escassos. Sem alimentos suficientes, comunidades inteiras foram forçadas a se deslocar, um fator que pode ter intensificado conflitos em várias regiões.
A praga que se seguiu
A natureza implacável do período não terminou com fome e frio. Em 541 d.C., apenas alguns anos após o início do resfriamento, a Peste de Justiniano irrompeu no atual território do Egito e rapidamente se espalhou por grande parte do Império Bizantino e além. Essa epidemia de peste bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, pode ter matado dezenas de milhões de pessoas.
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