Por: Laís Gouveia
Fazendeiros ameaçam invadir a Terra Indígena Apyterewa, no Pará, caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) vença o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. O plano foi mencionado em mensagens de áudio enviadas a indígenas do povo Parakanã, que vivem na região de São Félix do Xingu. As ameaças chegaram ao conhecimento de órgãos de inteligência do governo federal, que determinaram o reforço da segurança para impedir novas ocupações ilegais.
Segundo a Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (12), oito áudios obtidos pelo jornal revelam a intenção de pecuaristas de entrar no território indígena após a votação. As mensagens indicam que os envolvidos esperam contar com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro e com o apoio do governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), para ocupar áreas atualmente protegidas.
Os recados foram encaminhados por moradores da região a integrantes das comunidades indígenas por meio do WhatsApp. A reportagem verificou informações de origem dos arquivos e consultou investigadores que acompanham o caso, identificando vínculos entre as mensagens e endereços próximos à reserva.
De acordo com o material, os fazendeiros aguardam o resultado das eleições para avançar sobre a área e instalar propriedades rurais. Os responsáveis pelas ameaças afirmam acreditar que uma eventual administração de Flávio Bolsonaro, em conjunto com o novo governo estadual, poderá favorecer a transferência das terras aos pecuaristas.
Não há, entretanto, comprovação de participação do candidato presidencial ou do governador eleito na elaboração das ameaças. A reportagem registra a expectativa manifestada pelos próprios autores das mensagens.
Por razões de segurança, a Folha não divulgou a transcrição dos áudios nem a identidade das pessoas envolvidas.
Governo federal determina reforço da segurança na região
As ameaças foram discutidas na quinta-feira (8), durante uma reunião do Comitê de Desintrusão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), responsável por acompanhar ações de retirada de ocupantes ilegais de terras indígenas.
O Ministério dos Povos Indígenas informou que monitora o “aumento da pressão para a ocupação ilegal do território”.
Em nota, a pasta explicou as providências adotadas para ampliar a proteção dos moradores da região.
“Durante a reunião, o Comitê deliberou pelo reforço das ações de segurança, incluindo o aumento do efetivo mobilizado, a fim de intensificar a manutenção da desintrusão e prevenir novas ocupações ilegais”, afirmou o ministério.
O órgão também ressaltou que a identificação dos responsáveis pelas mensagens e a apuração de eventuais crimes são atribuições das autoridades policiais.
“Em relação aos áudios que associam as eleições de 2026 à invasão do território indígena, o Ministério esclarece que a apuração dos fatos compete às autoridades policiais responsáveis pela investigação”, acrescentou.
Um integrante da Polícia Federal ouvido pela Folha sob condição de anonimato afirmou que as informações de inteligência sobre as ameaças apresentam consistência e provocam preocupação entre os investigadores.
Indígenas relatam movimentação de veículos e preparativos para invasão
Além das ameaças diretas, as mensagens recebidas pelas comunidades descrevem movimentações consideradas suspeitas nas proximidades da Terra Indígena Apyterewa.
Moradores relatam a circulação mais intensa de motocicletas e caminhonetes e afirmam que fazendeiros estão adquirindo lonas e materiais utilizados na instalação de estruturas rurais.
Segundo os relatos, esses preparativos estariam relacionados à intenção de iniciar uma ocupação depois do segundo turno.
Algumas mensagens orientam os indígenas a evitar áreas onde pecuaristas já estariam preparando terrenos para pastagens e plantações. Outras sugerem que os integrantes do povo Parakanã abandonem a região.
As informações aumentaram a preocupação das autoridades porque o território tem um histórico de conflitos fundiários, invasões e episódios de violência contra equipes encarregadas da fiscalização ambiental.
Terra indígena tem histórico de invasões e conflitos violentos
Homologada em 2007, a Terra Indígena Apyterewa possui aproximadamente 773 mil hectares e abriga mais de mil indígenas Parakanã, classificados como povo de recente contato com a sociedade não indígena.
A condição exige cuidados especiais de proteção territorial e sanitária, uma vez que o contato não controlado com invasores pode ampliar os riscos à saúde e à integridade das comunidades.
A região enfrentou sucessivas invasões de pecuaristas e outros ocupantes ilegais. Em determinado período, invasores chegaram a instalar uma localidade conhecida como Vila Renascer dentro dos limites da área protegida.
Em 2020, no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709, o então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou que o governo federal adotasse medidas para retirar invasores de territórios indígenas.
A determinação não foi cumprida durante o governo de Jair Bolsonaro, segundo a reportagem da Folha.
As operações de desintrusão em Apyterewa começaram em 2023, durante o governo Lula, e enfrentaram resistência de grupos envolvidos na ocupação ilegal.
Em diferentes ocasiões, pontes foram destruídas para impedir a circulação de agentes públicos. As operações também foram marcadas por emboscadas contra equipes responsáveis pela retirada de gado mantido irregularmente na reserva.
No fim de 2023, um servidor da Funai foi baleado. Em 2025, um profissional contratado pelo Ibama morreu durante o contexto de conflitos envolvendo as ações de fiscalização no território.
Desmatamento disparou durante governo Bolsonaro
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que a Terra Indígena Apyterewa sofreu um aumento expressivo da destruição florestal durante o governo Jair Bolsonaro.
Em 2018, a área desmatada foi de 18,9 quilômetros quadrados. No ano seguinte, primeiro da administração Bolsonaro, o número avançou para 85,3 quilômetros quadrados.
O maior volume da série apresentada foi registrado em 2022, quando a devastação atingiu 102,2 quilômetros quadrados.
Em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, o desmatamento caiu para 20,6 quilômetros quadrados.
A redução ocorreu no período em que o governo federal iniciou as operações para retirar ocupantes ilegais e ampliar a presença de órgãos de fiscalização na área.
Incêndios aumentam e autoridades investigam possível ação criminosa
A situação voltou a se agravar nas últimas semanas, desta vez com o crescimento acentuado dos focos de incêndio dentro do território indígena.
Segundo dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu e divulgados pela Folha, foram identificados 41 focos de calor em julho, 626 em agosto e 1.007 em setembro.
A evolução dos registros despertou suspeitas entre investigadores de que parte das queimadas possa ter sido provocada intencionalmente por fazendeiros interessados em ocupar a área.
Até o momento, a hipótese de ação criminosa permanece sob apuração e não há conclusão divulgada sobre a autoria dos incêndios.
O Ibama também identificou indícios de mobilização em outras áreas protegidas da Amazônia.
“Também há evidências de mobilização em outras regiões da Amazônia, tanto em terras indígenas, quanto em outras áreas protegidas, com vistas à retomada das atividades de garimpo ilegal”, informou o instituto.
*Brasil 247

















