Por: Nathália Fontes
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a regulação das grandes empresas de tecnologia, o combate à criminalidade, a educação pública e os investimentos em inovação estarão entre as prioridades de seu quarto mandato.
Em seu primeiro discurso após ser reeleito, na noite de domingo (25), o petista também prometeu ampliar o diálogo com a população pelas redes sociais e minimizou as dificuldades que poderá enfrentar no Congresso Nacional, que terá uma oposição fortalecida.
Reeleito com 51,79% dos votos válidos, Lula fez o pronunciamento em um hotel em São Paulo, após a confirmação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O presidente agradeceu aos eleitores que participaram da campanha, especialmente aos idosos que sairam de casa para ir votar apesar das comorbidades e aos jovens que organizaram mobilizações de rua.
O petista também mencionou os desafios enfrentados durante a disputa, criticou o que chamou de interferência das plataformas digitais e afirmou que governará para toda a população, independentemente de posicionamentos políticos.
“Eu tenho que governar para 215 milhões. Eu tenho que governar todas as cidades”, declarou.
Entre os principais compromissos apresentados estão a regulamentação das big techs, a ampliação da atuação federal na segurança pública, a universalização do ensino em tempo integral e a criação de uma política de comunicação digital mais próxima dos brasileiros.
Regulação das big techs é prioridade para Lula
Lula voltou a defender regras para as grandes empresas de tecnologia e afirmou que o ambiente digital deve estar sujeito a mecanismos de responsabilização semelhantes aos aplicados fora da internet. Durante a campanha eleitoral, o presidente e sua equipe acusaram plataformas digitais de prejudicar a visibilidade de conteúdos favoráveis à candidatura petista.
“Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual o crime na vida real”, afirmou.
Na sequência, o presidente criticou o poder econômico das empresas de tecnologia e questionou a atuação delas no processo eleitoral brasileiro.
“Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes, ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto pra esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país”, disse.
A campanha de Lula apontou a Meta, responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp, como uma das empresas que deveriam ser investigadas quanto à distribuição de conteúdo político. Entre as reclamações estava a retirada do ar da conta de anúncios do presidente.
A equipe petista também citou um relatório da Secretaria Nacional de Comunicação do PT segundo o qual a página do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou mais engajamento nas redes sociais do que a de Lula, apesar de ter menos seguidores. As alegações foram apresentadas pela campanha e não devem ser confundidas com uma comprovação independente de interferência eleitoral.
O tema deve continuar no centro do debate sobre a atuação das plataformas digitais, a transparência dos algoritmos e a responsabilidade das empresas na circulação de conteúdo político.
Segurança pública: Lula defende PEC e promete prisão para criminosos
Na área da segurança pública, Lula voltou a defender a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A iniciativa pretende ampliar a participação do governo federal no setor, historicamente concentrado na atuação dos estados.
O presidente argumentou que os governos estaduais não conseguem enfrentar sozinhos os desafios da criminalidade e prometeu reforçar a proteção aos trabalhadores.
“O governo federal nunca teve responsabilidade com a segurança pública porque a Constituição de 88 transferiu toda a responsabilidade para os Estados, mas está provado que os Estados não dão conta”, afirmou.
Em seguida, Lula resumiu a proposta com uma declaração direcionada à população e aos criminosos.
“Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão”, disse.
O presidente já havia prometido recriar o Ministério da Segurança Pública após a aprovação da PEC. A proposta busca estabelecer diretrizes nacionais e ampliar a coordenação entre União, estados e demais órgãos responsáveis pelo enfrentamento da violência.
No entanto, a aprovação depende da tramitação no Congresso Nacional, onde o governo terá de negociar com parlamentares de diferentes correntes políticas.
Educação: escola integral e programa para universitários
Na educação, Lula prometeu universalizar a oferta de escolas em tempo integral até o ensino médio. O presidente também voltou a anunciar o Pé-de-Meia para universitários, programa que pretende ampliar o apoio financeiro aos estudantes do ensino superior.
Outro ponto destacado foi a necessidade de fortalecer o ensino de matemática e engenharia, com o objetivo de preparar o país para competir em áreas estratégicas da economia mundial.
“Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira”, declarou.
O presidente relacionou a formação de profissionais à capacidade nacional de desenvolver tecnologia e atrair investimentos em infraestrutura digital. Nesse contexto, mencionou a possibilidade de instalar centros de processamento de dados no país, aproveitando a disponibilidade de fontes renováveis de energia.
“Nós temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tem a maior capacidade de energia renovável, pra trazer pra cá os data centers necessários para acumular também os nossos dados pro Brasil”, afirmou.
A estratégia apresentada por Lula associa educação, inovação e transição energética à ambição de ampliar a participação brasileira em setores de maior valor agregado.
“Nós queremos fazer desse país um país que pare de ser um país em via de desenvolvimento e se transforme num país desenvolvido”, disse.
O presidente também defendeu que o Brasil deixe de ocupar uma posição periférica nas decisões internacionais e amplie sua influência política e econômica.
Lula promete mudar comunicação e conversar mais com a população
O presidente afirmou que a comunicação digital terá mais espaço no próximo mandato e disse que a campanha eleitoral trouxe lições sobre a maneira como o governo deve dialogar com a sociedade.
Lula agradeceu ao deputado André Janones (Rede-MG) pela mobilização nas redes sociais durante o segundo turno. O parlamentar coordenou o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, que alcançou mais de 10 milhões de seguidores, segundo os dados apresentados sobre a iniciativa.
O grupo foi utilizado para mobilizar apoiadores, compartilhar mensagens e organizar ações políticas no ambiente digital.
Lula também contou que recebeu um celular do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e afirmou que pretende usar o aparelho para se comunicar diretamente com os brasileiros.
“Eu já ganhei o celular do meu comandante Rafael, governador do Piauí, já estou aprendendo a conversar, e pode ter certeza de que daqui para frente eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente”, declarou.
A fala indica a intenção de ampliar a presença do presidente nas plataformas digitais, em um cenário no qual a comunicação pelas redes sociais teve papel importante na disputa eleitoral.
Congresso conservador não será obstáculo, diz presidente
Lula também abordou a relação com o Congresso Nacional, que terá uma composição com forte presença de parlamentares conservadores e de políticos que apoiaram Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.
O presidente minimizou as previsões de dificuldades para aprovar propostas e afirmou que trabalhará com os representantes escolhidos nas urnas, mesmo sem ter participado da definição da composição parlamentar.
“Na relação com o Congresso… Porque já tem gente falando que o Lula vai ter muita dificuldade para governar, porque o Congresso está muito conservador… Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, afirmou.
O petista também defendeu o respeito à Constituição e ressaltou que a eleição não obriga todos os brasileiros a apoiar o presidente eleito.
“Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição”, disse.
A declaração sinaliza que a articulação política será fundamental para o avanço das propostas anunciadas, especialmente aquelas que dependem de mudanças constitucionais ou de aprovação legislativa.

Saúde: presidente promete ampliar uso de tecnologia
Na área da saúde, Lula falou em uma transformação no atendimento médico e destacou a construção do primeiro hospital inteligente do Brasil. Segundo o presidente, o projeto envolve a ex-presidente Dilma Rousseff, atual presidente dos BRICS — grupo que reúne 11 países em um fórum de cooperação política e econômica que busca ampliar a influência do Sul Global nas decisões internacionais — e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O petista mencionou a implantação de 15 unidades de terapia intensiva (UTIs) inteligentes no país e defendeu o uso de tecnologia para ampliar a capacidade de atendimento.
“Estou convencido de que logo, logo o Brasil será o país do mundo com o maior percentual de tratamento de câncer”, afirmou.
Ao tratar do projeto, Lula disse que a iniciativa pretende reduzir mortes associadas à falta de atendimento ou à demora no tratamento.
A proposta foi apresentada como parte de uma agenda de modernização dos serviços públicos, com investimentos em infraestrutura hospitalar e recursos tecnológicos.
Meio ambiente: Lula cita redução do desmatamento
Lula também agradeceu à ex-ministra Marina Silva e ao atual ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, pela atuação na área ambiental. O presidente afirmou que pretende ampliar o protagonismo brasileiro nas discussões internacionais sobre mudanças climáticas.
“Nós vamos ensinar ao mundo como se trata a política climática neste país”, declarou.
Na sequência, destacou os resultados que atribui à política ambiental de seu governo.
“Esse ano é a primeira vez que a gente consegue reduzir o desmatamento por quatro anos consecutivos”, afirmou.
A agenda ambiental deve permanecer entre os temas centrais do novo mandato, tanto pelas metas de preservação quanto pela relação entre a transição energética, os investimentos em tecnologia e a posição brasileira nas negociações climáticas internacionais.Quarto mandato começa com desafios políticos.
Ao longo do discurso, Lula procurou combinar compromissos sociais com propostas de modernização econômica e tecnológica. A regulação das plataformas digitais, a segurança pública e a educação apareceram entre os principais eixos, acompanhados de promessas para a saúde e o meio ambiente.
O presidente também tentou afastar a perspectiva de um governo voltado apenas aos eleitores que o apoiaram e defendeu a construção de acordos com o Congresso, apesar do avanço da oposição.
A execução das medidas anunciadas dependerá, em diferentes graus, da apresentação de projetos, da disponibilidade de recursos públicos e da negociação com deputados e senadores. No caso da segurança pública e de outras mudanças legislativas, a articulação parlamentar será decisiva para transformar as promessas do primeiro discurso em políticas efetivas.
*IG/ Último Segundo

















