A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato abre novas perspectivas para o aprofundamento das relações entre Brasil e China, o fortalecimento do BRICS e a ampliação da autonomia diplomática da América Latina. A avaliação é do professor Jiang Shixue, da Universidade Normal de Hangzhou, em artigo de opinião publicado pelo jornal chinês Global Times, que analisa os impactos geopolíticos da vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras.
Segundo Jiang, a continuidade do governo Lula tende a preservar a orientação diplomática que permitiu uma aproximação entre Brasília e Pequim nos últimos anos. O acadêmico ressalta que a China mantém o princípio de não interferência nos assuntos internos de outros países, mas considera que o resultado eleitoral brasileiro cria condições favoráveis para ampliar a cooperação bilateral.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em novembro de 2024, durante a visita do presidente Xi Jinping ao país, os dois governos decidiram elevar o nível da parceria estratégica e trabalhar pela construção de uma comunidade com futuro compartilhado, voltada à promoção de um mundo mais justo e sustentável.
Para Jiang, o novo mandato de Lula poderá aprofundar essa relação e ampliar seu alcance para setores de maior valor agregado. Entre as áreas com maior potencial de cooperação estão inteligência artificial, tecnologia 5G, energia limpa, minerais críticos e economia digital.
O professor destaca que essas iniciativas podem contribuir para os objetivos da Nova Indústria Brasil, política de reindustrialização lançada pelo governo brasileiro, ao estimular investimentos produtivos, transferência de tecnologia, inovação e desenvolvimento sustentável.
● BRICS ganha importância estratégica
Outro ponto central da análise é o papel do BRICS na articulação entre Brasil e China e na ampliação da influência internacional dos países do Sul Global.
Segundo Jiang, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia ter levado o Brasil a uma aproximação mais estreita com Washington, com possíveis consequências para seu compromisso com o BRICS e com a construção de uma ordem internacional multipolar.
Com a continuidade de Lula, o professor avalia que o Brasil poderá intensificar sua participação no bloco e fortalecer iniciativas voltadas à reforma da governança global, à ampliação do comércio em moedas locais e à cooperação econômica entre países em desenvolvimento.
O artigo também destaca a importância da sequência de presidências do BRICS. Depois de o Brasil comandar o grupo em 2025, a China assumirá sua presidência em 2027, criando oportunidades para a continuidade de projetos e iniciativas estratégicas.
Na avaliação do acadêmico, a coordenação entre Brasília e Pequim poderá contribuir para ampliar a capacidade de atuação dos países emergentes em instituições multilaterais e reduzir vulnerabilidades diante de pressões externas.
● América Latina busca maior autonomia diante dos Estados Unidos
Jiang também relaciona a reeleição de Lula ao debate sobre a autonomia diplomática da América Latina em um cenário de crescente competição geopolítica entre China e Estados Unidos.
Em sua análise, Washington tem recorrido a instrumentos de pressão econômica e política para preservar sua influência sobre os países latino-americanos. O professor interpreta esse movimento como uma atualização da Doutrina Monroe, historicamente associada à tentativa dos Estados Unidos de manter a região sob sua esfera de influência.
O autor menciona tarifas comerciais, pressões diplomáticas e disputas eleitorais como elementos desse cenário, sustentando que a política externa brasileira poderá desempenhar um papel relevante na defesa de maior margem de decisão para os países latino-americanos.
Jiang observa que a América Latina não precisa necessariamente escolher entre Estados Unidos e China. Em sua avaliação, a diversificação de parcerias internacionais permite aos países da região ampliar oportunidades econômicas e preservar sua autonomia estratégica.
Nesse contexto, a política externa de Lula, baseada na defesa da multipolaridade, da integração regional e da cooperação Sul-Sul, é apresentada como um fator capaz de fortalecer a posição internacional do Brasil e ampliar as possibilidades de articulação entre os países em desenvolvimento.
Para o professor, o peso econômico e diplomático brasileiro confere ao país uma responsabilidade que ultrapassa suas fronteiras. Como maior economia latino-americana e integrante relevante do BRICS, o Brasil pode contribuir para a construção de mecanismos internacionais de cooperação menos dependentes das grandes potências tradicionais.
A conclusão do artigo é que o quarto mandato de Lula poderá representar uma oportunidade para consolidar a parceria estratégica entre Brasil e China, ampliar a cooperação tecnológica e industrial e fortalecer a participação do Sul Global nas decisões sobre os rumos da economia e da política internacional.
# Brasil 247

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