Anadia/AL

23 de fevereiro de 2026

Anadia/AL, 23 de fevereiro de 2026

A onda dos livros magrelinhos: é tolice se privar dos tijolos literários

''Antes de dormir, dedico alguns minutos a um livro grande, normalmente um clássico que dificilmente conseguiria ler em meio ao tumulto da rotina''

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 23 de fevereiro de 2026

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Foto: leiturinha

Por: Rodrigo Casarin

Adotei uma prática de leitura que tenho curtido bastante. Antes de dormir, dedico alguns minutos a um livro grande, normalmente um clássico que dificilmente conseguiria ler em meio ao tumulto da rotina.

Assim, de cinco em cinco, de dez em dez páginas, voltei a perambular pela Mancha na companhia de Dom Quixote e Sancho Pança. Agora estou pela Paris do século 19. Com bem mais de mil páginas, “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, é minha breve companhia noturna – a morosidade de Marius tem me feito pegar no sono mais rápido, diga-se.

Leio: desde de 2012, na Espanha, o número de livros publicados com mais de 500 páginas despencou 44%. Enquanto isso, o de obras com menos de 100 páginas aumentou quase 15%. Hoje elas representam 40% de tudo o que é lançado.

Ilustro com a Espanha porque foram os últimos dados que me chegaram. A tendência, no entanto, parece ser global quando olhamos não para os livros de forma geral, mas especificamente para a literatura. Digo parece por conta do que vejo nas mãos de leitores e ouço de livreiros e editores.

Um problema? Não necessariamente. Há grandes lixos verborrágicos aterrados em volumes enormes e verdadeiras joias que ocupam pequenas páginas.

Alguns dos melhores livros que li recentemente são bem ligeiros. “Manhã e Noite”, de Jon Fosse, tem 96 páginas em sua narrativa literária. “Tarântula”, de Eduardo Halfon, tem 136. “Corsária”, de Marilene Felinto, é um pouco maior: 176. São infinitamente superiores ao novo de Dan Brown, “O Segredo Final”, que joga o leitor de um lado pro outro ao longo de 560 páginas.

Outro dia, em meados de 2024, apelidei essa onda de ”livros magrelinhos.”O que parece estar por trás disso, isso sim, é motivo para preocupação.

Livros menores têm feito mais sucesso porque a atenção das pessoas anda muito mais dispersa após cérebros virarem paçoca por conta do uso excessivo de redes sociais.

Não só. Para muita gente, a leitura virou um hábito performático, então pula-se de um livro para outro com a mesma lógica que se muda de uma besteira para outra em qualquer Tiktok da vida. A leitura passou a obedecer uma lógica de produtividade que nada tem a ver com a natureza da própria leitura.

A leitura de literatura tem seu próprio tempo, seu próprio ritmo, varia de leitor para leitor. Não deve ser massacrada por exibicionismos, pela pressa, por competições estúpidas de números de páginas ou livros lidos em determinado período. A leitura de literatura não combina com hype, ostentação ou metas. Combina, isso sim, com introspecção, reflexão e prazer.

Como já disse, os magrelinhos podem ser um convite a tudo isso. Mas tem leitor que só dá atenção para livros curtíssimos, como se chegasse numa leitura já de olho na próxima. A esses, meu conselho é que repensem o hábito.

Parte dos melhores livros que li recentemente eram breves. Por outro lado, alguns dos livros que me marcaram de maneira mais profunda nos últimos anos exigiram muito do meu tempo e da minha atenção, muito da minha entrega como leitor.

Muito do melhor da literatura segue ocupando algumas boas centenas de páginas. Tolo é o leitor que se priva dessas grandes obras por preguiça, modismo ou por ser refém das redes sociais.

– Uol/ Splash

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