É aí que mora o autoritarismo. A retirada simbólica da humanidade daquele que pensa diferente torna aceitável qualquer tipo de agressão, consolidando um poder estabelecido e impedindo que ideias divergentes circulem.
Sempre foi assim, desde a invasão portuguesa. O autoritarismo bebe da fonte de que precisa restaurar a ordem diante de crises políticas e sociais, apresentando-se como a melhor alternativa para o país e enganando uma multidão de pessoas que, de fato, sofre pelas mazelas que o próprio sistema produz e promete curar.
Novas faces do autoritarismo patriótico
Ao contrário do que pode parecer, o bolsonarismo não é algo tão novo assim. Pelo menos com este nome. De tempos em tempos o autoritarismo brasileiro muda de nome, mas permanece incrustado na sociedade contemporânea como uma continuidade daquilo que nasce desde os tempos da colonização portuguesa.
Não precisamos de rupturas abruptas na democracia para identificar os mecanismos do militarismo na política brasileira. Tanques de guerra, militares nas ruas e parlamentos fechados — ícones clássicos de um golpe — deram lugar às fake news, curtidas, compartilhamentos e vídeos curtos.
Desde a primeira eleição de Bolsonaro como vereador carioca no final dos anos 1980, até se tornar presidente, sua trajetória política evidencia a ascensão do bolsonarismo como mais uma das formas de legitimar um sistema construído dia após dia desde os tempos de Brasil Colônia.
Mesmo após sua derrota eleitoral e a posterior inelegibilidade, imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral até 2060, essa lógica não se interrompe. Ao contrário, o processo se reafirma e se reorganiza dentro do mesmo padrão histórico, mostrando que o fenômeno ultrapassa a figura individual e segue operando como estrutura.
De mãos dadas com o autoritarismo, o bolsonarismo não é uma novidade. Ele revela sintomas de um país profundamente marcado por uma herança do passado, que continua sendo reproduzida, gerando novos filhos de um conservadorismo moral.
Um exemplo disso é o fenômeno midiático, ao menos nas redes sociais, Nikolas Ferreira, também do Partido Liberal (PL). De uma forma inteligente e mal intencionada, ele percebeu que ao beber da mesma fonte de sensacionalismo, retórica de ódio, mentiras e fake news, também pode ascender ao poder, principalmente enquanto a principal figura da extrema direita, encontra-se inelegível.
O militarismo e a República andam de mãos dadas
A ideia de que as Forças Armadas são neutras politicamente em nosso país é refutada pela própria história da República. Os militares estão envolvidos em muitos processos políticos do Brasil, do período do Império à Proclamação da República em 1889 (quando o militar Deodoro da Fonseca se torna nosso primeiro presidente), passando por momentos como a renúncia de Vargas e o golpe de 1964, até chegar ao bolsonarismo contemporâneo.
Movimentos como o bolsonarismo também não são exclusivos do Brasil, mas acontecem em todo o mundo. O nazismo e o fascismo, por exemplo, não teriam sido possíveis se, pelo menos durante uma década, não houvesse a construção de uma pedagogia de desumanização de judeus, negros, ciganos, comunistas, socialistas e todos aqueles que não representavam um ideal de “raça ariana”, exaltando o patriotismo e o ultranacionalismo, que promove a supremacia de uma nação sobre outras.
Na construção do período que antecedeu o golpe militar de 1964 no Brasil, houve uma das maiores articulações golpistas já vistas no país. Com a fundação do IPES, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais — presidido por um general —, foi fortalecida a propaganda da ameaça comunista e desumanização de João Goulart, então Presidente da República, entre os anos de 1961 e 1964.
O discurso antigo de eliminar os inimigos internos do país é o modus operandi da extrema direita. Ele nada mais é do que um discurso que prega a eliminação dos próprios brasileiros, muitas vezes incitando a morte, com lemas como “bandido bom é bandido morto”. Ao optar pelo caminho “mais fácil” e populista de tratar a causa e não o sintoma, não importa quantos bandidos morrem, seus lugares sempre serão ocupados por outros.
No cenário global, isso ficou evidente no segundo mandato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Após assumir em 2025, o mandatário intensificou sua postura nacionalista e passou a promover a desumanização total de grupos considerados “inimigos”, como os imigrantes.
No entanto, soa no mínimo contraditório dificultar a vida dos imigrantes no país, quando, em sua própria origem, ele mesmo tem suas raízes fora dos EUA, sendo neto de um alemão.
Seja nas Américas do Norte, Central e Sul, não existe tanta diferença nos processos políticos enquanto territórios indígenas invadidos pela colonização europeia, com seus incontáveis navios negreiros sequestrando, escravizando e apagando a história de populações e sociedades organizadas.
Enquanto a extrema direita busca desassociar a ideia de que os militares não tomam decisões políticas em nossa democracia, apontamos que não foi uma coincidência termos General Heleno como vice da chapa presidencial de Bolsonaro nas eleições de 2022.
O envolvimento das Forças Armadas e do Exército Brasileiro com a política é institucionalizado como ferramenta de opressão e controle da sociedade. Desde a queda da monarquia, passando pela ditadura até os ataques em Brasília em 8 de janeiro de 2023.
Aprendemos com a história a não repeti-la, mas é preciso nos tornar verdadeiros guardiões do passado para que possamos agir no presente e transformar nosso futuro.
No fim dos anos 1970, foi sancionada a Lei da Anistia, que concedeu perdão aos crimes políticos cometidos no período da ditadura. As coisas não mudaram tanto no discurso. Hoje, bolsonaristas pedem anistia novamente aos terroristas que planejaram, investiram, invadiram e destruíram o patrimônio público no planalto central.
Em comum a todas essas situações, temos o militarismo e a retórica do ódio. Desde que o Brasil foi redemocratizado no período pós-ditadura, nunca tivemos tantos militares em cargos do executivo quanto no governo Bolsonaro.
Até mesmo na pasta do Ministério da Saúde durante um dos momentos mais delicados do planeta, a pandemia de COVID-19, tivemos o general Eduardo Pazuello como ministro da saúde, ocultando dados de mortes e liberando o uso de medicações sem comprovação científica, como hidroxicloroquina e cloroquina, para o tratamento durante a pandemia.
Como a retórica do ódio funciona
Segundo o escritor, professor e intelectual brasileiro João Cezar de Castro Rocha, um dos grandes estudiosos do bolsonarismo, o discurso de ódio é apenas a ponta do iceberg do que ele chama de pedagogia de desumanização.
Primeiro, se você é capaz de ridicularizar alguém, esvazia todo o conteúdo e relevância que essa pessoa promove. Se você não é levado a sério antes mesmo de se manifestar, o que diz não vale de nada.
Depois, vem a estigmatização do indivíduo. No caso de um professor progressista, por exemplo, tachá-lo como esquerdista, comunista e doutrinador de Paulo Freire faz parte do processo de desindividualização, colocando-o em uma caixa com dezenas de outras pessoas categorizadas, quase que com etiquetas.
Se você é petista, você é petralha. Se você é um político que apoia movimentos como o MST/MTST, você é um invasor de territórios privados. Se é comunista, apoia ditaduras.
Dessa forma, a retórica do ódio esvazia qualquer tipo de individualização e dá o passe livre para que a sustentação de discursos de ódio, mentiras e fake news se manifestem na prática da sociedade contemporânea.
Fake News e discursos de ódio: um ecossistema autoritário
Não existe um consenso internacional do que são discursos de ódio, o que dificulta a fiscalização e criação de leis específicas. Isso faz com que a extrema direita atue na impunidade, se beneficiando dessa indefinição, que não acontece de maneira espontânea, mas, sim, sendo resultado de uma pedagogia cotidiana de desumanização que segue uma estrutura recorrente:
- Ridicularização do indivíduo: fazendo um esvaziamento simbólico de cada ser
- Estigmatização: transformando e categorizando cada indivíduo em um tipo
- Anulação: agora que o valor das pessoas foi esvaziado e categorizado, elas deixam de serem vistas como pessoas
Enquanto isso, falar sobre fake news não é falar simplesmente sobre mentiras ou de notícias falsas isoladas. Elas existem quando fazem parte de um ecossistema sistemático de desinformação, com o objetivo de gerar um caos cognitivo, fortalecendo teorias conspiratórias e criando verdadeiras cortinas de fumaça.
Ao mesmo tempo em que se compreende que lutar contra as fake news de uma forma individual, na verdade, amplia sua difusão e fortalece o ecossistema, é preciso pensar em estratégias de enfrentamento, aplicando leis já existentes e previstas no Código Penal, como crimes contra a honra (calúnia, difamação, injúria) e contra a paz pública.
Processos judiciais são muito importantes contra as fake news, pois mesmo que não resultem em condenações graves, retiram o réu primário nos casos de reincidência e também produzem uma resposta pública.
É preciso estar atento com o bolsonarismo contemporâneo. Em um cenário em que, a cada dia que passa, as ferramentas de inteligência artificial tornam as imagens muito próximas da realidade, as deepfakes criam vídeos falsos com rostos e vozes reais que podem alterar o rumo das eleições em todo o planeta.
Mesmo que, de alguma forma, o uso dessas ferramentas durante as eleições seja regulamentado, é impossível impedir que a própria população produza e compartilhe conteúdos falsos. Muitas vezes, esses materiais se apresentam como orgânicos e espontâneos quando, na verdade, são resultado da manutenção do poder e de uma cadeia estruturada de comunicação, orientada por práticas autoritárias.
Ataques à democracia como fundamento.
Agora, com a retórica do ódio enraizada na população, fica muito mais fácil desestabilizar a democracia e ter apoio popular. Antes mesmo de uma ruptura com a democracia, temos exemplos pela história política mundial de que alguns sinais existem e devemos ter atenção com eles. No livro “Como as Democracias Morrem”, Ziblatt e Levitsky apontaram algumas atitudes em comum em líderes que colocaram (ou tentaram colocar) a democracia em risco:
- Ataques organizados à democracia: fazem com que a população rejeite as regras do sistema democrático e que acreditem que o modelo de democracia não é funcional para o país
- Deslegitimação dos adversários políticos: faz parte do processo descrito no começo do artigo, em que desumanizar as pessoas e categorizá-las faz com que quaisquer tipos de violência sejam tolerados pela sociedade, criando um inimigo público comum que deve ser combatido a qualquer custo, em nome da nação
- Restrições às liberdades civis e fechamento de parlamentos: quando o autoritarismo consegue restringir o direito de ir e vir, manifestar-se politicamente, fechar parlamentos e pastas importantes, como foi o caso, entre outros, dos Ministérios da Cultura e também do Esporte no governo Bolsonaro, acoplado a outras pastas e sem a devida importância política e financeira
Características assim são comuns em governos autoritários. Um povo que não consome cultura e não se educa é um povo que não questiona e é facilmente combatido e controlado. Para que uma democracia morra, é preciso que mais do que ataques, deslegitimações e restrições aconteçam. É preciso que a população se omita, ao invés de defendê-la
Atenção para interromper ciclos repetitivos
O discurso de ódio e a desinformação são fenômenos históricos, estruturados e contínuos, não exclusivos dos momentos atuais. O Estado Democrático de Direito precisa utilizar suas ferramentas de forma decisiva, pois a omissão institucional cria as condições para que a extrema direita ganhe força e avance.
É através dessas ferramentas que a extrema direita impõe seu autoritarismo. Com elas, o bolsonarismo é capaz de renascer de forma quase cíclica. O autoritarismo, que antes tinha a face de um capitão reformado do exército, agora pode se apresentar também no rosto de um jovem deputado mineiro, como Nikolas Ferreira.
É com o alicerce do militarismo que o autoritarismo brasileiro tem se sustentado historicamente. O patriotismo construído pelo próprio sistema há décadas pede que você ame o Brasil ou deixe-o. Somente este ideal de patriota é considerado pelo militarismo.
Foi assim na colonização, monarquia, proclamação da república, ditadura civil-militar e, até mesmo, da redemocratização aos dias contemporâneos.
Não à toa, o debate da segurança pública é central nas campanhas eleitorais da extrema direita, sempre tratando a causa e nunca o sintoma. Essas práticas distorcem nossa realidade e impedem um debate racional, fortalecendo um ambiente em que decisões políticas são baseadas no medo, na mentira e confusão, traços claros de regimes autoritários.
ABN C/ ICL Notícias


















