Segundo o documento, a estimativa foi elaborada com base em números de maio de 2025, cerca de seis meses antes da intervenção. O BC ressalta que não é possível afirmar qual era exatamente a situação patrimonial no momento da liquidação, já que, naquele estágio, o banco praticamente havia interrompido suas atividades de captação e concessão de crédito.
Essa é a primeira projeção tornada pública pela autoridade monetária que aponta que, além de graves problemas de liquidez, o Banco Master apresentava deficiências patrimoniais relevantes. Esse tipo de desequilíbrio é, em tese, um dos fatores que podem levar o Banco Central a decretar uma intervenção ou liquidação. A liquidação extrajudicial do Master foi oficialmente decretada em 18 de novembro.
Problema agudo de liquidez
Até então, o que se sabia publicamente era que o banco enfrentava um problema agudo de liquidez. A instituição havia anunciado, inclusive, a venda de parte de suas operações ao Banco Regional de Brasília (BRB), operação que acabou sendo negada pelo BC seis meses depois, em meio a suspeitas de fraudes. À época, o diagnóstico divulgado indicava dificuldades para renovar captações, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), e insuficiência de ativos líquidos para honrar compromissos de curto prazo.
O número de R$ 20 bilhões evidencia a magnitude do desafio que um eventual investidor teria para reequilibrar o balanço do Master. Além da necessidade de recuperar a credibilidade para restabelecer fontes de captação, o desequilíbrio patrimonial indicaria a exigência de uma grande capacidade de mobilização de capital. Para efeito de comparação, alguns dos principais bancos médios brasileiros tinham patrimônio de referência entre R$ 15 bilhões e R$ 23 bilhões no fim de setembro, conforme os dados mais recentes disponíveis no Banco Central.
Pelo último balanço conhecido, referente a dezembro de 2024, o patrimônio líquido do Banco Master era de R$ 4,7 bilhões. O patrimônio de referência, no entanto, difere desse indicador, pois reflete uma visão prudencial, após ajustes realizados pela supervisão do BC para apurar o valor efetivo dos ativos e passivos da instituição.
Na comunicação ao MPF, o Banco Central também destacou problemas estruturais de liquidez. O regulador afirmou que fazia “acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez” do Master, uma vez que grande parte do funding do banco estava concentrada em operações de longo prazo, o que comprometia a geração de caixa necessária para cumprir obrigações de curto prazo.
Sem captação
A situação se agravou significativamente na segunda metade de 2024. O banco não conseguiu captar recursos junto a investidores institucionais na escala planejada. A meta era levantar R$ 15 bilhões ao longo do ano, mas apenas R$ 2 bilhões foram efetivamente obtidos. De acordo com o BC, essa lacuna no funding ocorreu em paralelo a um “gerenciamento inadequado do risco de crédito”, combinação que tornou a quebra do banco praticamente inevitável.
A partir de novembro de 2024, mesmo com um plano de contingência em andamento, o Banco Master passou a não conseguir rolar integralmente os vencimentos de CDBs distribuídos por plataformas de investimento. Simultaneamente, o conglomerado deixou de cumprir integralmente o recolhimento de depósitos compulsórios. Segundo o BC, dirigentes do grupo foram alertados de que esse quadro poderia levar à adoção de medidas prudenciais preventivas.
Na tentativa de conter a crise, o Master iniciou a cessão de carteiras de crédito ao BRB — operações que, posteriormente, investigações apontariam como fraudulentas. O banco também interrompeu a oferta de crédito corporativo e buscou outras instituições financeiras interessadas na compra de ativos. Nesse contexto surgiu, no fim de março de 2025, a proposta do BRB para adquirir parte das operações do Master. Em paralelo, Daniel Vorcaro passou a negociar, a partir de maio de 2025, a venda de ativos pessoais ao BTG e, posteriormente, a alienação da seguradora Kovr. O banco ainda tentou prorrogar uma linha assistencial junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Impacto das supostas fraudes
O documento do Banco Central não esclarece se, na avaliação das deficiências patrimoniais realizada em maio de 2025, já estavam incorporados os impactos das supostas fraudes ocorridas entre 2023 e 2024. Segundo as investigações, teriam existido dois esquemas principais. Um deles, envolvendo empréstimos simulados, teria causado um desvio estimado em R$ 11,5 bilhões. O outro diz respeito à venda de carteiras sem lastro ao BRB, calculada em cerca de R$ 12,2 bilhões.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro negou que o Banco Master tenha enfrentado uma insolvência estrutural. Em nota, afirmou que o Banco Central auditava o banco diariamente e que todos os ajustes e aportes solicitados pelo regulador teriam sido realizados pelo controlador. “Desta forma, não faz qualquer sentido um ajuste de R$ 20 bilhões no balanço”, afirma a defesa. Segundo o texto, “os eventos citados de redução de liquidez decorrem de retração abrupta de funding no varejo das plataformas, ocasionados por ataques de mídia orquestrados e por mudanças regulatórias”.
ABN C/ Brasil 247

















