Anadia/AL

13 de julho de 2024

Anadia/AL, 13 de julho de 2024

Bolsonaristas usam vídeo falso para denunciar exploração sexual infantil na Ilha do Marajó

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 24 de fevereiro de 2024

vv2

Foto; Bruno Cecim/ Agência Pará

guerra cultural sobre exploração sexual infantil na Ilha do Marajó, travada nas redes entre bolsonaristas e governo federal, resultou no uso de vídeos falsos. Uma das imagens bastante compartilhadas em montagens que tratam do tema trazem um caso fora de contexto, que ocorreu, na verdade, no Uzbequistão, quando uma professora foi presa após transportar dezenas de crianças em um carro. O deputado federal Carlos Jordy (PL) foi uma das pessoas que compartilhou a publicação.

O vídeo traz uma narração de uma mulher falando dos problemas sociais locais, até chegar ao tema do “desaparecimento e comercialização das crianças”. Nesse momento, a publicação usa como imagem de fundo cenas de dezenas de crianças dentro de um carro, com expressões tristes. Essas cenas, na realidade, foram publicadas em setembro de 2023 e se tratam de um caso em Bukhara, no Uzbequistão, quando uma professora de ensino infantil foi flagrada transportando irregularmente 25 alunos em seu carro, e acusada de direção perigosa. O caso foi noticiado, inclusive, no GLOBO.

As cenas se alternam com trechos da apresentação de Aymeê Rocha no programa “Dom reality”, quando cantou a sua música “Evangelho de fariseus”, em que faz referências ao tema de exploração sexual infantil na Ilha do Marajó. A narradora diz que as famílias marajoaras, por falta de renda, enviam seus filhos às embarcações turísticas, para fins de prostituição infantil. Depois, diz que as acusações feitas pela ex-ministra Damares Alves geraram a pecha de “loucos” sobre os bolsonaristas que denunciavam o caso.

Ao final, o vídeo resgata o discurso de 2022 de Damares, quando disse que os dentes das crianças marajoaras eram arrancados para facilitar sexo oral. Por causa dessas declarações sem provas, o MPF pediu a indenização de R$5 milhões a hoje senadora, pelos danos sociais e morais coletivos supostamente causados à população da ilha.

Na quinta, o deputado federal Carlos Jordy, investigado no inquérito que apura responsáveis por financiar e organizar atos antidemocráticos de 8 de janeiro, compartilhou o vídeo com essa montagem. Na publicação, ele reclamou que Damares foi acusada de “fake news” na época das denúncias.

O mesmo vídeo teve bastante compartilhamento nas redes sociais, através de perfis e páginas ligadas a Jair Bolsonaro.

Entenda a polêmica

Cinco anos depois da então ministra Damares Alves falar da existência de uma suposta rede de mutilação e tráfico de crianças para exploração sexual na Ilha de Marajó (PA), o tema voltou à tona nesta semana e levantou uma guerra cultural entre bolsonaristas, artistas, ONGs e o governo federal nas redes, além de gerar conteúdos com desinformação. A performance de uma cantora evangélica marajoara com uma música sobre o tema foi compartilhada pela própria Damares, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e diversos artistas, como Angélica, Juliette, Luisa Sonza e Rafa Kalimann. Nesta sexta, em resposta, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, criticou as “ideias preconceituosas” na campanha e o Ministério dos Direitos Humanos publicou um “alerta de fake news”, para desmentir a informação de que o governo teria cancelado programas sociais para o Marajó.

O assunto ganhou tração nas redes nos últimos dois dias, graças à participação da cantora Aymeê Rocha no programa “Dom reality”, competição musical entre artistas do universo gospel. Na sua apresentação, ela cantou a sua música “Evangelho de fariseus”, em que faz referências ao tema de exploração sexual infantil na Ilha do Marajó. Depois, aos jurados do programa, ela disse que o local, onde mora, sofre com problemas de tráfico de órgãos e “pedofilia em nível hard”: “

Bolsonaristas defendem Damares

O vídeo, então, passou a ser muito compartilhado por artistas, sensibilizados pela causa. Mas também por apoiadores de Bolsonaro, que aproveitaram o retorno do assunto para lembrarem das denúncias de Damares Alves. O discurso bolsonarista é de que a acusação teria sido silenciada e que não houve engajamento de artistas e autoridades. A volta do tema, por uma moradora local, seria uma “prova”, na visão de parlamentares e eleitores bolsonaristas, de que Damares estaria certa.

Em 2019, a ex-ministra da Família e dos Direitos Humanos citou a ideia do programa “Abrace o Marajó”, para combater o problema de prostituição infantil, lançado oficialmente em 2020. Mas, como O GLOBO mostrou em 2022, nenhum centavo foi gasto pelo projeto. No ano passado, o governo Lula revogou o programa e o substituiu pelo “Cidadania Marajó”, para levar políticas sociais à região.

Depois de não ter apresentado provas de que crianças marajoaras tinham seus dentes removidos para facilitar o sexo oral, como afirmou em 2022, Damares foi denunciada pelo MPF por danos sociais e morais coletivos supostamente causados à população da ilha, com um pedido de R$ 5 milhões de indenização. Na quinta, a hoje senadora voltou a se manifestar sobre o assunto, na esteira do vídeo de Aymeé:

“Espero, sinceramente, que esta música acorde nossa sociedade, acorde o Brasil. Para que quem denuncia os abusos na região não seja silenciado. O Marajó pede socorro e não é de hoje. Que dessa vez as pessoas sejam verdadeiramente compelidas a agir ao ouvir o choro silencioso das crianças” escreveu a senadora, que disse que o Abrace o Marajó não teve êxito por causa da pandemia.

O deputado Nikolas Ferreira também vem se manifestando sobre o assunto. Em um vídeo de sete minutos, com 1,9 milhão de curtidas, ele disse que acha “excelente” a repercussão e relembrou o programa de Damares, ao dizer que “basicamente toda internet fez chacota com as denúncias da Damares”. Ainda destacou postagens irônicas do deputado André Janones e afirmou que a deputada Erika Hilton pediu investigações sobre as acusações da Damares. Também mencionou que Xuxa iniciou um abaixo assinado pedindo sua cassação na época, com apoio de outros artistas.

ONGs rebatem campanha

Artistas como Angélica, Ludmilla, Juliette, Ludmilla e Thayla Ayala também se manifestaram, em favor da denúncia contra a exploração sexual. Por outro lado, ONGs que atuam na região entraram em cena para desmentir propagandas que teriam associado Marajó à exploração sexual infantil.

“A propaganda que associa o Marajó à exploração e o abuso sexual não é verdadeira: a população marajoara não normaliza violências contra crianças e adolescentes. Insiste nessa narrativa quem quer propagá-la e desonrar o povo marajoara. Enquanto ministra de Estado, Damares Alves não destinou os recursos milionários que por diversas vezes prometeu para a região, para fortalecer comunidades escolares. Ao invés disso, atentou contra a honra da população diversas vezes, espalhando mentiras, e abriu tais políticas públicas para grupos privados de São Paulo que defendem a privatização da educação pública” escreveu, em nota, o Observatório do Marajó

Planalto se manifesta

Diante da campanha nas redes, o Planalto resolveu entrar no assunto. Na manhã desta sexta, o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, publicou um vídeo de mais de cinco minutos, em que critica as acusações generalizadas. Na sua fala, ele admite os problemas da região, mas critica o antigo programa de Damares e diz que muitos vídeos sobre a situação são falsos.

— Chega a ser chocante gente dizer que faz parte da cultura do povo do Marajó ser pedófilo, vender seus filhos. Isso não faz parte da cultura do povo do Marajó. Isso muitas vezes são situações de exclusão. Geradas muitas vezes inclusive por muita gente que ganha muito dinheiro a partir das dificuldades do Mrajó, mas que nunca se dignou a ouvir para construir junto com ela as soluções – afirmou o ministro, que desferiu uma indireta a “influenciadores” ao dizer que é preciso se influenciar por quem vive no Marajó. — Há ideias muitas vezes preconceituosas de quem nunca pisou lá, ou que só conheceu aquela região através de vídeos muito suspeitos.

Horas depois, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania publicou um “alerta de fake news” no X. Na publicação, a pasta diz que é falsa que o “governo cancelou as ações, políticas e projetos voltados ao Marajó”. O ministério explica que o Abrace Marajó foi revogado após ser alvo de críticas e que o governo criou o Cidadania Marajó, “um novo marco em políticas públicas na região”:

“Essa retórica, que visava apenas à estigmatização do povo marajoara, foi justamente o motivo que fez com que o programa anterior fosse descontinuado, sem nenhuma entrega ou ação concreta”, escreveu o ministério. A publicação foi compartilhada pelo ministro Silvio Almeida.

A presidente do PT, Gleisi Hoffman, também se manifestou, na tarde desta sexta, ao citar “fake” de Damares. Ela destacou que um dos vídeos compartilhados pela base bolsonarista mostra uma imagem que na verdade aconteceu no Uzbequistão.

“A extrema-direita é tão falsa que começou a circular um vídeo com crianças dentro de um carro, mas que não tem nada a ver a história e nem foi feito no Brasil”, escreveu.

Pior IDH do país

No Brasil, o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) — indicador composto por dados acerca de expectativa de vida, educação e renda per capita — está numa ilha do arquipélago do Marajó. Melgaço (PA) tem pouco mais de 26 mil moradores e índice de 0,418. A título de comparação, o município na melhor posição, São Caetano do Sul (SP), é 0,862, o dobro. A lista mais recente dos IDHs municipais, feita pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), é de 2013. Quanto mais perto de 1, maior o desenvolvimento.

Ilha de Marajó já tem ação itinerante contra abuso sexual — Foto: reprodução
Ilha de Marajó já tem ação itinerante contra abuso sexual — Foto: reprodução

Denúncias desde 2006

As acusações sobre uma rede de exploração sexual infantil no Marajó começaram em abril de 2006, quando o bispo emérito de Marajó, Monsenhor Dom José Luiz Azcona, apresentou denúncia formal ao governo federal e ao presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial na Câmara dos Deputados sobre casos de adolescentes que estariam sendo vítimas de exploração sexual em Portel (PA), também em Marajó.

O presidente da comissão à época — o deputado Luiz Couto (PT-PB) — viajou para o Pará, em maio de 2006, com o objetivo de apurar denúncias que apontavam a existência de uma rede de prostituição infantil na região próxima à Ilha de Marajó. O relatório da viagem, disponível no site da Câmara, trouxe depoimentos de vítimas. Parte delas acusava dois vereadores locais por estupro de menores. Os fatos foram imediatamente levados ao conhecimento do Conselho Tutelar.

Há mais ou menos três décadas, o bispo Dom José Luis Azcona denuncia as mazelas da região de Marajó e a exploração sexual de crianças no arquipélago. A autoridade religiosa foi fundamental para a instalação da CPI da Pedofilia na Assembleia Legislativa do Pará e no Congresso Nacional, nos anos de 2009 e 2010. Em 2015, ele chamou atenção para casos em que as crianças se ofereceram aos ocupantes de balsas com o consentimento da própria família. Os fatos tiveram repercussão nacional.

Em 2023, Dom José Luis Azcona recebeu um pedido da representação diplomática do Vaticano no Brasil para que deixasse a região. A população local reagiu ao fato com uma série de protestos, reivindicando a permanência do bispo emérito na ilha amazônica. Os membros da Prelazia do Marajó também se reuniram e enviaram uma carta à Nunciatura no Brasil, e a decisão foi revista.

*Redação com o Globo 

Galeria de Imagens