Por: Fabíola Perez, Stella Borges e Uesley Durães
A influenciadora e advogada Deolane Bezerra, suspeita de ligação com o PCC, foi denunciada hoje pelo Ministério Público de São Paulo pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. A defesa alega que ela é inocente.
Além de Deolane, o MP denunciou mais cinco pessoas. São elas: Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder da facção; Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, irmão de Marcola; Everton de Souza, apontado como operador financeiro da organização; Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinhos de Marcola.
O MPSP ofereceu denúncia por suposta integração de Deolane com o núcleo financeiro do PCC. A investigação aponta que há evidências de que ela operava um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro para a organização criminosa, a maior do país.
A defesa da influenciadora disse que “lamenta a divulgação antecipada da denúncia na imprensa. Ao UOL, o advogado Aury Lopes Júnior disse que ainda não teve acesso a acusação do MP. “Deolane não faz parte de nenhuma organização criminosa e tampouco cometeu qualquer crime, o que será provado ao longo do processo”, conclui a manifestação.
O advogado de Marcola, Paloma, Leonardo e Alejandro informou que “adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória e a improcedência das imputações”. O advogado Bruno Ferullo disse que Marco e Alejandro estão custodiados em presídios federais desde 2019 e que isso torna “inviável” suas participações nos fatos investigados.
Ficou claro que familiares ou pessoas de confiança (denunciados Paloma e Everton) recebiam ordens dos líderes do Primeiro Comando da Capital (os denunciados Marcola e Alejandro) para distribuição da renda ilícita obtida com a empresa de transportes (depósitos em favor de Deolane, Everton e Paloma, a última se utilizando de interposta pessoa; apontamento sobre a porcentagem de Leonardo nas conversas), administrada diretamente por Ciro Cesar Lemos. Trecho da denúncia
A denúncia ocorre um dia depois de Deolane ter um habeas corpus pedindo sua liberdade negado no STJ (Superior Tribunal de Justiça). A defesa alega, entre outras, que Deolane é mãe de uma criança e por isso deveria ficar presa em casa, mas os ministros entenderam que, por ora, não caberia ao STJ essa avaliação e recomendaram celeridade na análise do caso pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
A influenciadora está presa desde o dia 21 de maio, suspeita de ligação com o PCC. Ela estaria envolvida com transações para a família de Marcola, segundo o Ministério Público, e teria usado as próprias contas para transferir dinheiro de uma transportadora de cargas que, por sua vez, lavava dinheiro para a família Camacho.
Sobre as acusações contra Leonardo e Paloma, o advogado narra que o “mero vínculo familiar não pode ser confundido com participação criminosa”. O UOL tenta contato com a defesa de Everton Sousa.
Deolane recebeu repasses financeiros de uma transportadora que serve para lavagem de dinheiro da facção, diz o MP. Os valores eram indicados por Everton de Sousa, que informava os líderes da organização, Marco Herbas Camacho e Alejandro Herbas Camacho, sobre as transações.
A influenciadora utilizava suas empresas para lavagem de capitais, conforme a denúncia. Relatórios técnicos apontados pelo MPSP mostram que Deolane movimentou R$ 140 milhões— e que a quantia seria incompatível com o que ela declarou oficialmente. Foram listadas as empresas: Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda, Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda, DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda, DSDD Cobranças e Informações Cadastrais Ltda, Bezerra Produções Artísticas Ltda, e D & G Comércio em Geral Ltda.
As empresas, de acordo com o MPSP, tinham endereços inconsistentes e falta de estrutura física para as atividades declaradas oficialmente, o que levantou mais suspeitas. As firmas contavam com serviços de contadores de empresas ligadas a familiares de líderes do PCC.
A influenciadora tinha um plano para enviar dinheiro do PCC para Dubai, segundo o órgão. O plano para “reestruturação criminosa de suas empresas” envolvia fundos do país conhecido por companhias que facilitam a lavagem internacional de ativos financeiros. O envio das quantias para fundos serviria para dificultar a localização do dinheiro ilícito.
Durante operação, foram apreendidos valores em dinheiro em casas de Deolane. Uma máquina de contagem de cédulas de propriedade da influenciadora também foi apreendida. A prova da presença de dinheiro vivo da facção seria um áudio em tom de ameaça enviado pela advogada a uma diarista acusada furtar milhares de reais de uma residência.
O MPSP aponta, ainda, que Deolane utilizou familiares e outras pessoas como supostas laranjas. Foi destacado na investigação que a influenciadora e outros envolvidos tinham um padrão de vida luxuoso, movido a ostentação com “alta rotatividade de bens de luxo” com a compra venda rápida de veículos caros.
Como a investigação chegou até ela
Deolane foi presa sob suspeita de integrar um esquema milionário de lavagem de dinheiro ligado à facção. A investigação começou com bilhetes e manuscritos atribuídos à organização apreendidos há sete anos em um presídio de Presidente Venceslau, no interior paulista.
Os bilhetes apreendidos em 2019 levaram à abertura de três inquéritos e indicaram o caminho para transportadoras investigadas. Um manuscrito encontrado na cela de Gilmar Pinheiro Feitoza, o Cigano, citava “aquela mulher da transportadora” e mencionava o “endereço novo do Bizzoto”, ex-diretor de unidade prisional alvo de plano de atentado.
A apuração chegou a uma transportadora que, para a polícia, teria sido criada pela facção para lavar dinheiro. O inquérito cita a empresária Elidiane Saldanha Lopes Lemos, sócia da Lopes Lemos Transportes Ltda., como peça que levou os investigadores a aprofundar a investigação sobre a empresa.
Deolane não é citada diretamente nos bilhetes, mas foi identificada como beneficiária de valores atribuídos à transportadora investigada. Conforme os autos, ela teria recebido dinheiro da empresa, descrita pelas autoridades como usada para lavagem de dinheiro.
Investigadores apontam que ela seria um “caixa do crime organizado” e que faltariam contratos que justificassem a movimentação financeira. A polícia afirma que o dinheiro era depositado na conta dela para se misturar com outros valores e ser devolvido em momentos oportunos.
A advogada nega ligação com o crime organizado. Deolane escreveu uma carta na penitenciária e afirmou ser alvo de perseguições há cinco anos. Ela sustenta que a prisão tem relação com o exercício da advocacia. “Fui advogada atuante em centenas de processos e nunca sequer estive presente na Penitenciária de Presidente Venceslau. Não sou e nunca fui bandida!”
Redação com Uol

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