Por: Bianca Barki
A terceira temporada de Euphoria estreou e dividiu o público exatamente onde a série sempre soube doer: na fronteira entre retratar o sofrimento feminino e se beneficiar dele. Rue se envolve com tráfico, Cassie produz conteúdo adulto, Jules virou sugar baby, Maddy atua num meio artístico controverso. A questão que não sai de pauta desde o primeiro episódio não é o que acontece com essas mulheres, mas como Sam Levinson filma o que acontece com elas, e há uma linha tênue entre retratar o fetiche como artifício narrativo e expor suas atrizes em cenas excessivamente desnecessárias que Levinson cruza com uma regularidade que se torna desconfortável.
O male gaze, conceito cunhado pela teórica Laura Mulvey nos anos 70, descreve a câmera que olha o corpo feminino do ponto de vista do desejo masculino, organizando o que se vê a partir de quem deseja e não de quem é visto. Em Euphoria, o olhar de Sam Levinson atravessa cada canto de uma série protagonizada majoritariamente por mulheres onde nenhuma delas ganhou qualquer tipo de representatividade que faça jus à complexidade que deveriam ter, e a estética deslumbrante e as atrizes extraordinárias acabam servindo para enquadrar sofrimento feminino com a mesma elegância com que enquadrariam qualquer outra coisa bonita.
Mostrar mulheres em situações de exploração não é o problema em si, porque a realidade exige que a ficção vá lá. O que incomoda é que essas personagens não encontram subjetividade própria dentro dessas situações, porque a câmera as olha de fora, como superfície, e o sofrimento que carregam existe como imagem, não como história. O crítico do Telegraph, jornal britânico, escreveu que Euphoria cada vez mais parece a fantasia misógina de um velho perturbador, que é uma frase forte mas aponta para algo real: quando um homem escreve, dirige e produz sozinho uma série sobre o sofrimento de mulheres jovens e esse sofrimento é filmado com uma câmera mais interessada no corpo do que na pessoa que o habita, a pergunta que fica é simples e difícil ao mesmo tempo, para quem, afinal, essa imagem está sendo feita.
Euphoria não está sozinha nesse movimento, porque o que a série faz com imagens, as músicas mais consumidas no Brasil fazem com palavras. Um levantamento recente mostrou que “p*ta” é a palavra mais usada pelos intérpretes masculinos entre as dez músicas mais ouvidas no Spotify, aparecendo em metade das faixas do top 10, com versos como “Quantas p*ta mercenária que eu já comi sem colete”, em “Relíquia” do 2T, que acumula 72 milhões de streams, ou “Cê não quer, as p*ta quer, eu já tô metendo o pé”, em “Carnívoro”. O que chama atenção não é apenas o vocabulário, mas a naturalidade com que ele circula, cantado em coro, dançado em festa, reproduzido sem que quase ninguém pause para ouvir o que está sendo dito.
Seria fácil dizer que isso sempre existiu, e é verdade que existiu. As novelas das décadas anteriores objetificavam mulheres, as músicas dos anos 1980 e 1990 também, e ninguém precisava de estudo acadêmico para perceber. Mas havia diferenças que importam. O conteúdo chegava mediado pelo horário, pela família, pela escola, e havia pausas, outros modelos, outras imagens concorrendo pelo mesmo espaço. O que mudou não foi apenas o volume, embora o volume seja sem precedente histórico, mas a estrutura da relação entre quem consome e o que consome. A menina de hoje não é só espectadora de um conteúdo que chega pelo canal aberto. Ela produz, publica, coleciona curtidas, e é avaliada pelo mesmo padrão que consome. O olhar do outro, que a psicanálise entende como constitutivo do sujeito, deixou de vir só de fora e passou a ser uma ferramenta de autoavaliação permanente que ela carrega no bolso. A menina não apenas vê mulheres sendo objetificadas, ela aprende a se objetificar para ser vista. Isso é estruturalmente diferente do que qualquer geração anterior enfrentou.
A psicanálise tem um conceito preciso para o que acontece quando isso se repete sem interrupção: identificação. É pelo processo de identificação que o sujeito se constitui a partir do olhar e do desejo do outro, internalizando as imagens que o cercam como referências de si mesmo. Euphoria ultrapassou 20 milhões de espectadores globalmente na estreia da terceira temporada, e a maior parte desse público são adolescentes, especialmente meninas, que crescem vendo mulheres filmadas como superfície e ouvindo letras onde o feminino é reduzido a um insulto cantado em refrão, sem que ninguém lhes diga explicitamente o que isso ensina, porque elas aprendem pelo que é repetido, pelo que recebe aplausos, pelo que já não parece provocação porque virou paisagem. O sujeito se constitui a partir do olhar do outro, e uma menina que cresce sendo vista como objeto aprende, antes de qualquer escolha consciente, que é isso que ela é. O que ninguém pergunta é o que se perde quando ela tenta, mais tarde, descobrir o que ela mesma deseja.
Redação com Voque.Globo

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