
A Polícia Federal investiga o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, com quem mantém relações pessoais e profissionais. O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. As informações foram reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmadas pelo jornal O Globo, que também identificou documentos indicando possíveis vínculos financeiros entre os dois.
Entre os elementos examinados pelos investigadores estão registros bancários, mensagens eletrônicas, viagens internacionais realizadas em conjunto e movimentações financeiras relacionadas ao setor de apostas. Um dos documentos obtidos pela Polícia Federal indica que Flávio Bolsonaro teria figurado como “usuário master” de uma conta bancária vinculada a uma empresa administrada por Tomaz.
Flávio classificou a investigação divulgada pela imprensa como “fake news”. O advogado negou irregularidades e afirmou considerar estranha a publicação das informações na véspera do primeiro debate presidencial do segundo turno.
Investigação começou com suspeitas de lavagem de dinheiro em plataformas de apostas
O inquérito envolvendo Flávio Bolsonaro surgiu como desdobramento de uma investigação conduzida pela Polícia Federal no Rio Grande do Sul sobre possíveis crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas esportivas.
Durante as apurações, os investigadores identificaram indícios de que Willer Tomaz controlaria a Rede Loto, casa de apostas autorizada pelo governo do Rio de Janeiro a operar em maio de 2023.
A partir dessas informações, a Polícia Federal solicitou a quebra do sigilo telemático do advogado e passou a examinar mensagens, e-mails e outros dados extraídos de seu telefone celular e de sua conta no serviço de armazenamento iCloud.
Segundo relatório policial mencionado pelo Globo, os “elementos analisados” indicariam uma relação de proximidade entre Tomaz e Flávio Bolsonaro.
A descoberta de possíveis vínculos financeiros envolvendo o senador levou ao encaminhamento da investigação ao Supremo Tribunal Federal, em razão da prerrogativa de foro do parlamentar.
Flávio teria figurado como usuário de conta bancária administrada por Tomaz
Um dos documentos considerados relevantes pelos investigadores é um e-mail que indica que Flávio Bolsonaro esteve cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária associada ao advogado.
A informação foi divulgada pela jornalista Malu Gaspar, do Globo.
A conta, mantida no Santander, estava registrada em nome da Alcazar Holdings e era administrada por Willer Tomaz. Uma troca de mensagens obtida pela Polícia Federal indica que o senador também teria permanecido vinculado à estrutura bancária até maio de 2025.
Naquele mês, uma secretária do advogado solicitou ao banco a desvinculação de uma conta identificada com o nome de Flávio Bolsonaro e de outra vinculada ao próprio Tomaz.
O Santander confirmou a exclusão dos cadastros.
Os investigadores procuram esclarecer a natureza dessa relação, a finalidade dos acessos e a eventual existência de movimentações financeiras envolvendo o parlamentar.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam ter compartilhado uma conta bancária. Ambos sustentam que os e-mails apresentados não comprovam a existência de uma relação financeira entre eles.
O registro de um usuário em um sistema bancário, isoladamente, não demonstra a realização de transações ou a prática de irregularidades, pontos que dependem da análise dos documentos e das movimentações efetivamente identificadas.
Advogado movimentou quase R$ 10 bilhões em apostas na Blaze
Outro aspecto da investigação envolve as operações de Willer Tomaz na plataforma de apostas Blaze.
O advogado protagoniza uma disputa judicial com a empresa após afirmar ter perdido R$ 163,2 milhões em jogos de cassino virtual ao longo de 2025.
Documentos apresentados na ação judicial registram valores expressivos: R$ 4,8 bilhões em ganhos e R$ 4,96 bilhões em perdas.
Somadas, as operações representam quase R$ 10 bilhões em apostas e prêmios contabilizados pela plataforma.
O volume de movimentações chamou a atenção para a dimensão das operações financeiras realizadas pelo advogado no setor.
Tomaz afirma que solicitou o bloqueio de sua conta na Blaze, mas que a plataforma não impediu a continuidade das apostas.
As cifras representam o movimento acumulado de apostas e prêmios, e não necessariamente recursos próprios equivalentes ao total registrado. A investigação procura esclarecer a origem, a circulação e a natureza das operações consideradas suspeitas.
Polícia Federal identificou viagens internacionais de Flávio e Tomaz
A relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz também aparece em registros de viagens internacionais examinados pela Polícia Federal.
Segundo o Globo, os investigadores identificaram pelo menos cinco viagens realizadas pelos dois no primeiro semestre de 2025.
Em março daquele ano, o senador viajou à África do Sul acompanhado de familiares e amigos, entre eles o advogado. O roteiro incluiu um safári.
Posteriormente, Flávio e Tomaz também viajaram a Portugal e à França.
Fotografias, reservas de hotéis, registros de voos e documentos de aluguel de veículos foram encontrados nos arquivos eletrônicos examinados pelos policiais.
Uma das imagens mostra Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e outras pessoas em uma região de savana durante a viagem à África do Sul.
A Polícia Federal também identificou documentos que indicariam o custeio de viagens de Flávio e seus familiares por meio da Cathedral Holding, empresa utilizada como intermediária na aquisição de passagens aéreas.
Mensagens eletrônicas mencionam ainda a contratação de veículos para deslocamentos em Lisboa, capital portuguesa, e Nice, na França.
Os investigadores buscam esclarecer a origem dos recursos utilizados nas viagens e a eventual existência de benefícios financeiros concedidos ao senador.
Viagem em jato particular conecta relação ao universo empresarial de Vorcaro
Outro episódio examinado envolve uma viagem realizada em janeiro de 2025, às vésperas da posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro, sua mulher e suas duas filhas embarcaram em Fort Lauderdale, na Flórida, com destino a Brasília, acompanhados de Willer Tomaz e familiares do advogado.
O grupo utilizou um jato particular operado pela Prime You, empresa de aviação executiva que teve Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, entre seus sócios até setembro de 2025.
Tomaz afirmou que contratou os serviços da companhia na condição de cliente e que desconhecia a participação societária do banqueiro.
A utilização de uma aeronave operada por empresa ligada a Vorcaro não comprova, por si só, qualquer irregularidade. O episódio, entretanto, integra o conjunto de relações pessoais e empresariais examinado pelos investigadores.
Flávio e Tomaz também atuam juntos em processos judiciais
A relação entre o senador e o advogado não se limita a viagens e encontros pessoais.
Em julho, o Globo revelou que ambos atuavam conjuntamente em processos judiciais.
Em uma das ações, em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ), Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz representam um sócio de uma indústria do Rio Grande do Norte em uma disputa empresarial que envolve a execução de R$ 159 milhões.
A atuação profissional conjunta constitui outro elemento da relação entre os dois, cuja dimensão financeira está sendo examinada pelas autoridades.
A proximidade também já havia aparecido publicamente em 2021, durante a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid no Senado.
Na ocasião, Flávio Bolsonaro saiu em defesa de Tomaz diante de iniciativas para quebrar o sigilo do advogado e se referiu a ele como “meu amigo Willer Tomaz”.
Uma reportagem publicada pela revista Veja naquele ano também mostrou que o senador frequentava uma propriedade do advogado em Planaltina, no Distrito Federal, conhecida como “Rancho Tomaz”.
Apartamento utilizado na campanha tem ligação com Daniel Vorcaro
Outro ponto da relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz envolve um apartamento localizado na Vila Nova Conceição, bairro de alto padrão da zona sul de São Paulo.
Em agosto, o advogado cedeu o imóvel ao senador para utilização durante a campanha presidencial.
Segundo reportagem da revista Piauí, antes de ser adquirido por Tomaz, o apartamento pertencia a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela Polícia Federal como operador do ex-controlador do Banco Master.
O imóvel acrescenta um novo elemento à rede de relações entre o senador, o advogado e pessoas próximas ao banqueiro.
Vorcaro está preso sob suspeita de envolvimento em fraudes contra o sistema financeiro.
A investigação busca esclarecer se as relações identificadas entre os envolvidos se limitaram a vínculos pessoais e comerciais ou se estiveram associadas a movimentações financeiras ilícitas.
Flávio também é investigado por recursos destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro
Além do inquérito relatado por Alexandre de Moraes, Flávio Bolsonaro é alvo de outra investigação no Supremo Tribunal Federal, relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
O procedimento examina suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis delitos.
Mensagens divulgadas pelo portal Intercept Brasil indicam que Flávio solicitou a Daniel Vorcaro aproximadamente R$ 131 milhões para financiar a produção cinematográfica.
Planilhas apreendidas pela Polícia Federal apontariam transferências que somam cerca de R$ 60 milhões.
A investigação procura esclarecer a origem dos recursos, os destinatários dos pagamentos e a efetiva utilização do dinheiro na produção do filme.
O procedimento foi solicitado pela Polícia Federal e autorizado pelo ministro André Mendonça, após manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
Na decisão, Mendonça autorizou a abertura de investigação para apurar “a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos”.
As suspeitas relacionadas ao filme são objeto de investigação distinta daquela que examina a relação financeira entre Flávio e Willer Tomaz.
Flávio nega acusações e advogado questiona divulgação na reta final da eleição
Procurado a respeito das informações, Flávio Bolsonaro classificou a notícia sobre a investigação como “fake news”.
Willer Tomaz também negou a prática de irregularidades e afirmou receber com “estranheza” a divulgação do caso “num domingo e a poucas horas do debate entre os candidatos à Presidência”.
A manifestação do advogado faz referência à proximidade entre a publicação das informações e o debate presidencial realizado pela Rede Bandeirantes no domingo (18).
Os dois contestam a interpretação dos documentos e negam que tenham mantido uma conta bancária compartilhada.
A existência dos inquéritos não representa uma conclusão sobre a responsabilidade criminal dos investigados. Caberá à Polícia Federal reunir as provas, ao Ministério Público avaliar eventuais acusações e ao Judiciário decidir sobre possíveis responsabilidades.
As revelações publicadas pelo Globo e pelo Estado de S. Paulo, entretanto, ampliam os questionamentos públicos sobre as relações financeiras e empresariais de Flávio Bolsonaro na reta final da eleição presidencial.
O segundo turno entre o senador e o presidente Lula está marcado para 25 de outubro
# Redação C/ bRASIL 247

















