Anadia/AL

13 de fevereiro de 2026

Anadia/AL, 13 de fevereiro de 2026

Governo de SC pagou mais de meio bilhão em supersalários em 2025

Carreiras de auditores, procuradores e da segurança pública - como oficiais da Polícia Militar e delegados - formaram a elite do funcionalismo em 2025.

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 13 de fevereiro de 2026

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Foto: Renata Rocha - Secom Gov. SC.

Por Amanda Miranda

O governo de Santa Catarina gastou mais de R$ 544 milhões em supersalários ao longo de 2025, o que equivale a 5% do custo de todos os servidores públicos na ativa ao longo dos últimos 12 meses. No total, 8.808 salários pagos no ano ultrapassaram o teto do funcionalismo público, que é de R$ 46.366,19. As remunerações foram distribuídas a 1082 funcionários, o que representa menos de 1% do total, tendo como data de corte dezembro de 2025.

Os dados foram tabulados pela coluna a partir do Portal da Transparência do governo de Santa Catarina e se referem aos meses de janeiro a dezembro, aí inclusos os salários base acrescidos de verbas indenizatórias, mas também de componentes trabalhistas, como diárias, férias, retroativos de aumento salarial e décimo-terceiros.

O montante também representa cerca de 10% do que o governo investiu nos servidores e encargos da Educação em 2025. A carreira dos professores só aparece no topo dos maiores salários do ano quando chega no nível ensino superior, em algumas remunerações da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sinte), quando Jorginho Mello assumiu o governo, 55% dos recursos da educação eram dirigidos para a folha de pagamento, índice que caiu para 49,6% em 2025. O decréscimo também revela uma política de valorização de algumas carreiras – como da segurança pública – em detrimento de outras.

A pauta dos supersalários voltou ao debate público após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que suspendeu os chamados “penduricalhos” no serviço público e limitou a remuneração ao teto constitucional. A decisão impactou os três poderes, em todas as esferas – municipal, estadual e federal.

No início de fevereiro, deputados também votaram por aumentos que criavam supersalários entre os servidores da Câmara e do Senado. “Um dos problemas mais sérios deste País é o abismo entre os que ganham muito, os bilionários. Por isso é que se reivindica sempre — e essas Casas, Senado e Câmara, têm que enfrentar isso — a contenção, a taxação dos supersalários, dos super-ricos e, ao mesmo tempo, a necessária valorização do servidor público”, pontuou o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) na sessão.

Em Santa Catarina, no caso do serviço público estadual, os supersalários são monopólios de carreiras como auditores, procuradores, agentes de pesquisa e servidores de todas as áreas da segurança pública, com destaque para oficiais da Polícia Militar, em diversas patentes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros.

Folhas de pagamento de mais de R$ 200 mil também chegaram a ser pagas para atividades de nível médio na agora extinta Santa Catarina Turismo S.A (Santur). Médicos e peritos são outras carreiras identificadas na relação que conta com 8.808 salários de altos valores distribuídos ao longo do ano.

Em dezembro, mês de pagamento do décimo terceiro salário, só com a elite do funcionalismo o governo do Estado gastou R$ 220 milhões – o equivalente a dez vezes as despesas com o mesmo grupo de remuneração em janeiro. Além de atingirem o executivo e o legislativo em diversas esferas, os supersalários também atingem em cheio ao Judiciário. Levantamento do UOL indicou que 76% dos pagamentos a juízes estaduais furaram o teto de R$ 46 mil em 2025, alertando para uma prática comum na magistratura.

Super supersalários

Governador Jorginho Mello aumentou salário dos servidores da segurança pública e concedeu vantagens a procuradores e auditores Foto: Eduardo Valente/SECOM

Em 2025, pelo menos dois servidores do Governo de Santa Catarina – um auditor da Secretária da Fazenda e um funcionário da Casa Civil acumularam o maior montante da máquina de servidores da ativa. Um recebeu R$ 814 mil ao longo do ano e o outro, com gratificação do alto escalão do governo, R$ 792 mil. Isso equivale a mais de 17 salários do teto do funcionalismo público.

No caso de um dos servidores, o salário oscilou de cerca de R$ 26 mil em janeiro 2022, quando ocupava o cargo de tenente-coronel e não chegava no teto salarial, para R$ 77 mil em janeiro de 2026 – quando aparecem, no Portal da Transparência, de modo vago, retroativos, verbas indenizatórios e outros proventos de mais de R$ 18 mil.

Pelo menos 306 salários ao longo do ano superaram os R$100 mil, com a maior parcela deles situada na carreira de agente de pesquisa e extensão da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina. Delegados de polícia civil e o oficialato da Polícia Militar também se destacam no topo da lista.

A folha de pagamento inflada nestas áreas da segurança pública condizem com a política de Jorginho Mello, que reajustou os salários dos servidores públicos em 21,5% no ano passado. Além de oficiais e delegados da polícia civil, policiais penais e policiais científicos também aparecem na relação de supersalários com folhas de pagamento robustas ao longo de 2025.

Outra decisão de Jorginho Mello que fez crescer o bolo salarial na elite do funcionalismo público do estado foi uma lei que, em 2025, criou programas estratégicos na Administração Tributária Estadual e na Procuradoria-Geral do Estado (PGE).

Este programa permite, dentre outras coisas, a valorização de um quadro funcional que já estava dentre as melhores remunerações do Estado. A lei também estabelece vantagens remuneratórias, como por exemplo a licença compensatória, em que dias de folgas podem ser convertidos em dinheiro.

Para se ter uma ideia do impacto disso nos cofres públicos, em janeiro de 2022 a folha da Procuradoria Geral do Estado era de R$ 8 milhões. Em janeiro de 2025, era de R$ 9 milhões. Já em janeiro de 2026, com a nova regra em vigor, o custo total chegou a quase R$ 12,6 milhões. Já no caso dos auditores o volume aumentou de R$ 17,7 milhões para R$ 18,6 milhões.

Em nota, a Secretaria de Administração do Estado informou que o Governo de Santa Catarina “segue todas as legislações vigentes em relação ao pagamento dos salários dos servidores públicos”. Além disso, manifestou que seu foco está nas “carreiras essenciais, como as forças de segurança, os professores e os profissionais que atuam nos hospitais públicos”, que tiveram aumentos salariais “que estão entre os maiores já concedidos no País nos últimos anos”.

Apesar disso, com exceção de algumas carreiras da segurança pública, saúde e educação não aparecem com frequência dentre os salários acima do teto. O governo não explicou o motivo de uma carreira da Epagri ter remunerações que chegam a quase três vezes a renda máxima e nem de qual maneira a decisão de Flávio Dino deve impactar a folha dos servidores. A secretaria também não informou quais as verbas indenizatórias são pagas a quais carreiras, informação que aparece vaga no Portal da Transparência.

* ABN C/ ICL Notícias

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