Por Dafne Ashton
O economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia e ex-conselheiro das Nações Unidas, afirmou que a estratégia dos Estados Unidos em relação ao Irã fracassou completamente e que a única saída racional para Washington seria encerrar sua intervenção militar na região. As declarações foram feitas durante entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo ex-juiz Andrew Napolitano.
Segundo Sachs, a recente decisão do Irã de abandonar as negociações com os Estados Unidos é consequência direta da política adotada por Washington e do apoio incondicional dado a Israel. Para ele, a guerra contra Teerã foi construída sobre premissas equivocadas desde o início.
Na avaliação do economista, a Casa Branca acreditou que conseguiria impor suas condições ao Irã em poucos dias, mas acabou presa em um impasse que ameaça ampliar ainda mais a instabilidade no Oriente Médio. Sachs argumenta que os Estados Unidos enfrentam apenas duas alternativas: aprofundar a escalada militar, com consequências potencialmente devastadoras para toda a região, ou reconhecer o fracasso da estratégia adotada e se retirar.
“Dobrar a aposta em um erro é cometer um erro ainda maior. É hora de ir para casa”, declarou.
Para ele, uma retirada americana teria efeitos imediatos sobre a economia mundial. Sachs sustenta que, sem a pressão militar exercida por Washington, o Estreito de Hormuz voltaria a operar normalmente, permitindo a estabilização dos mercados globais de energia. Segundo o economista, essa solução interessa não apenas ao Irã, mas também a seus parceiros estratégicos, como China e Rússia, além dos países do Golfo Pérsico.
Ao comentar o papel de Donald Trump na crise, Sachs foi especialmente crítico. Ele afirmou que o presidente americano se recusa a admitir o fracasso da operação e continua apresentando exigências que o governo iraniano não tem motivos para aceitar.
Questionado sobre a possibilidade de Trump reconhecer um erro, respondeu com ironia: “Ele pode dizer que conquistou a maior vitória da história do universo e depois ir embora. Não me importo com o que ele diga. O importante é encerrar isso.”
Sachs também sugeriu que as frequentes declarações da Casa Branca sobre supostos avanços diplomáticos servem para conter pressões econômicas, especialmente sobre o mercado de petróleo. Segundo ele, a atual estabilidade dos preços pode ser temporária e mascarar um problema muito maior.
“Os estoques estão sendo reduzidos. Se continuarmos nesse ritmo sem uma solução real, veremos um salto enorme nos preços do petróleo”, alertou.
O economista acredita que uma interrupção prolongada dos fluxos energéticos na região pode provocar escassez de combustível e elevar significativamente os custos para consumidores em todo o mundo.
As críticas de Sachs também atingiram diretamente o governo israelense e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Segundo ele, Israel vem conduzindo uma política expansionista baseada no controle permanente dos territórios palestinos e em intervenções militares contínuas nos países vizinhos.
“Israel está tentando construir aquilo que chama de Grande Israel, controlando toda a Palestina, Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e partes da Síria e do Líbano”, afirmou.
Na visão do economista, o governo israelense só consegue sustentar essa estratégia graças ao apoio político, militar e financeiro dos Estados Unidos. Por isso, argumenta que Washington teria condições de interromper imediatamente as operações israelenses caso suspendesse esse respaldo.
“Não mais dinheiro, não mais munição e não mais cobertura diplomática. Israel não teria condições de continuar sem o apoio americano.”
Sachs também acusou a política externa americana de ser movida por ressentimentos históricos. Segundo ele, parte da elite política dos Estados Unidos jamais aceitou a Revolução Islâmica de 1979, que encerrou décadas de influência direta de Washington sobre o Irã após o golpe apoiado pela CIA em 1953.
“Os impérios odeiam quando um país se liberta de sua influência. A visão predominante em Washington é que o Irã escapou do controle americano em 1979 e precisa ser punido por isso.”
Ao longo da entrevista, o economista argumentou que as autoridades americanas possuem uma compreensão extremamente limitada da sociedade iraniana. Para ele, a política de sanções, ameaças e ataques militares revela desconhecimento sobre a história e a cultura do país.
“Eles não entendem o Irã. Enxergam o país como um Estado medieval que pode ser esmagado por exigências e ameaças.”
Outro alvo das críticas foi o aparato militar e de segurança dos Estados Unidos. Sachs comentou a decisão do Pentágono de restringir o acesso de jornalistas a determinadas áreas das instalações militares americanas e afirmou que a medida demonstra receio em relação à divulgação de informações sobre as guerras conduzidas por Washington.
“Eles têm medo da verdade”, afirmou.
O economista comparou a situação atual ao período que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, quando o governo americano justificou a guerra com alegações sobre armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Segundo ele, a repetição desse tipo de narrativa ocorre porque a população americana não apoia novos conflitos militares nem os gastos bilionários associados a eles.
“Os americanos não querem essas guerras. Não querem trilhões de dólares sendo gastos com contratantes militares e nem milhares de pessoas sendo mortas em seu nome.”
Nos momentos finais da entrevista, Sachs voltou sua atenção para a guerra na Ucrânia e demonstrou preocupação com o risco de ampliação do conflito para outros países europeus. Ele criticou a postura adotada por lideranças da União Europeia, que considera excessivamente hostil à Rússia, e revelou ter enviado uma carta aberta ao chanceler alemão Friedrich Merz pedindo maior empenho diplomático.
“O dever da Alemanha hoje é impedir uma guerra europeia. Antes que tudo saia do controle, é preciso ao menos telefonar para o outro lado e conversar.”
Para Sachs, tanto no Oriente Médio quanto na Europa, o caminho para evitar uma escalada de consequências imprevisíveis passa pelo abandono da lógica militar e pela retomada de negociações políticas efetivas. Em sua avaliação, insistir em estratégias de confronto apenas aumenta os riscos para a segurança internacional e para a economia global.
Fonte: Brasil 247

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