Anadia/AL

30 de março de 2025

Anadia/AL, 30 de março de 2025

Lula: Bolsonaro ‘tentou dar golpe e contribuir para o meu assassinato’

Em primeira declaração desde que Bolsonaro se tornou réu, presidente Lula afirma no Japão que Bolsonaro 'tentou dar um golpe no país' e 'contribuir' para seu assassinato -08h40

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 27 de março de 2025

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Lula discursando no palanque, entre bandeiras do Japão e Brasil Foto: BBC News Brasil


Laís Alegretti – Enviada da BBC News Brasil a Tóquio

Horas após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) virar réu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou no Japão que Bolsonaro “tentou dar um golpe no país” e “contribuir” para seu assassinato e de outras autoridades.

Essa foi a primeira declaração de Lula sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de acatar a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro e mais sete pessoas.

“É visível que o ex-presidente tentou dar um golpe no país, é visível por todas as provas que ele tentou contribuir para o meu assassinato, para o assassinato do vice-presidente, para o assassinato do ex-presidente da Justiça Eleitoral brasileira”, disse Lula em entrevista coletiva na manhã de quinta-feira (27/3, horário local; noite de quarta-feira 26/3 no horário de Brasília)

“Todo mundo sabe o que aconteceu nesse país. Não adianta agora ele ficar fazendo bravata, dizendo que está sendo perseguido. Ele sabe o que ele cometeu”, completou.


Segundo a PGR, Bolsonaro teria conhecimento e acompanhou a “evolução” do plano “Punhal Verde Amarelo”, que teria como objetivo matar o vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente Lula, além de matar ou restringir a liberdade do ministro Alexandre de Moraes — na época, também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Lula também criticou Bolsonaro pela movimentação em torno de um projeto de anistia que perdoaria todos os condenados por atos relacionados ao 8 de janeiro de 2023.

“Não adianta ficar pedindo anistia antes do julgamento. Quando ele pede anistia antes do julgamento, significa que ele está dizendo que foi o culpado”, afirmou o presidente em Tóquio.

Entretanto, Lula disse que Bolsonaro deve receber um tratamento justo no processo.

“Defendo que ele tenha a presunção de inocência que eu não tive”, disse o petista, referindo-se a processos judiciais do qual foi alvo e à sua prisão por 580 dias, entre 2018 e 2019, devido a uma condenação em segunda instância que acabou anulada pelo STF.


Após ter virado réu, Bolsonaro falou à imprensa que as acusações contra ele são infundadas – Foto: Reuters / BBC News Brasil

Nesta quarta, a Primeira Turma do STF decidiu por unanimidade aceitar denúncia da PGR contra Bolsonaro, que agora é réu por acusações de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; tentativa de golpe de Estado; envolvimento em organização criminosa armada; dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

Outros sete denunciados cujos casos também foram avaliados pela Primeira Turma entre terça e quarta-feira também se tornaram réus.

Entre eles, estão três generais do Exército e ex-ministros durante o governo Bolsonaro: Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil).

Os oito réus fariam parte do que a PGR chamou de “núcleo crucial” de uma trama golpista contra a vitória de Lula nas eleições de 2022. Todos negam as acusações.

Após o encerramento do julgamento da denúncia, Bolsonaro reuniu a imprensa na saída do Senado e fez um longo discurso.

O ex-presidente afirmou que a acusação contra ele é “infundada” e destacou que não estava no Brasil no dia dos ataques de 8 de janeiro de 2023.

A acusação da PGR aponta que Bolsonaro teria liderado uma tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques.

“Espero colocar um ponto final nisso. A acusação contra mim é muito grave, infundada, e não é algo que eu diga da boca para fora. Parece que há algo pessoal contra mim”, disse a jornalistas.

O ex-presidente também voltou, na tarde desta quarta-feira, a colocar em dúvida a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Ele está inelegível até 2030 após ter sido punido pelo TSE por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação ao colocar em dúvida a lisura das eleições de 2022.

Afago a Lira e Pacheco: ‘Rei morto não é rei posto’

Lula com os atuais e ex-presidentes da Câmara e do Senado, na chegada ao Japão
Foto: Ricardo Stuckert/PR / BBC News Brasil

Depois de levar em sua comitiva ao Japão os ex-presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Lula fez afagos aos dois.

“Rei é sempre rei”, disse.

A viagem à Ásia acontece num momento em que Lula lida com pressões de partidos de sua base diante de uma reforma ministerial a ser concluída.

“Eu não seria louco de trazer os companheiros dentro do avião, um espaço muito limitado pra gente fazer as discussões que a gente pode fazer o território brasileiro e lá em Brasília. Não seria louco. E não seria prudente. Imagina viajar todo mundo de cara feia no avião, sem se cumprimentar, sabe? Ir no banheiro e ficar esperando um na porta do banheiro já chutando a porta? Não”, brincou o presidente.


Lula disse ainda que o Congresso e o Executivo vão viver “o melhor momento da relação” e que “o presidente da República não é dono da razão”.

Antes das perguntas dos jornalistas, na abertura de sua fala, Lula já havia citado não só os atuais presidentes da Câmara e do Senado, mas também Lira e Pacheco.

O presidente disse, ainda, que fará questão de “toda vez que viajar convidar o presidente da Câmara, o presidente do Senado”.

“Já convidei muitas vezes o presidente da Suprema Corte, para a gente viajar junto, para gente retomar a normalidade democrática do país”.

Trump ‘não é xerife do mundo’

Respondendo à pergunta de uma jornalista japonesa sobre o anúncio de que os EUA vão tarifar em 25% importações de carros, Lula disse não ver benefício nesse tipo de medida — apontando que isso vai encarecer produtos para os americanos, o que pode gerar uma cadeia de aumento da inflação, dos juros e contenção da economia.

“Sinceramente, estou muito preocupado com o comportamento do governo americano, com essa taxação de todos os produtos de todos os países”, respondeu o presidente brasileiro, acrescentando que o livre comércio e o multilateralismo estão sendo derrotados.

“Estou preocupado porque o presidente americano não é xerife do mundo. Ele é apenas presidente dos Estados Unidos”, disse, sugerindo que Trump converse com os “políticos de outros países para tomar suas decisões”.

Segundo Lula, o Brasil vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra esse tipo de medida e, caso não haja resultado nessa instância, o país vai impor taxas recíprocas.

Visita de Lula ao Japão

Lula foi recebido em visita de Estado, um raro tipo de recepção no Japão – Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ele já tinha se manifestado contra o protecionismo durante a viagem, no momento em que o tarifaço de Donald Trump promete abalar o comércio internacional.

O presidente brasileiro participou de uma recepção e um jantar com o Imperador Naruhito e a Imperatriz Masako no Palácio Imperial, acompanhado pela primeira-dama, Janja da Silva. Também teve reunião com o primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, e ministros brasileiros e japoneses no Palácio Akasaka, em Tóquio.

Nesta quinta-feira (27), ele embarca para o Vietnã, onde tem previstos encontros com o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, To Lam, o primeiro-ministro do país, Pham Minh Chính, e o presidente do Vietnã, Luong Cuong, entre outras autoridades.

No sábado (29/3), retorna ao Brasil.

A Ásia é o destino da primeira viagem internacional de longa distância do presidente após complicações do acidente doméstico que sofreu em outubro.

À BBC News Brasil, Janja da Silva disse que Lula está “plenamente restabelecido, sem nenhuma sequela do acidente, nem da cirurgia que aconteceu em dezembro”.

Na entrevista, ela afirmou que Lula diz que será candidato em 2026 se estiver bem de saúde – e complementou dizendo que a saúde dele está “muito forte”.

“Não sei [se Lula será candidato]. Você sabe que ele fala sempre que… ele não gosta de antecipar as coisas, né? Mas ele será candidato se tudo estiver bem com a saúde dele. Ele sempre coloca essa questão da saúde. Eu tô vendo ele muito forte de saúde, então… É isso”, afirmou.

Janja chegou ao Japão uma semana antes de Lula, sem que a ida fosse divulgada, e virou alvo de críticas da oposição.

Questionada pela BBC News Brasil, Janja disse que “nunca houve falta de transparência” e afirmou que economizou em passagem aérea e hospedagem.

Em uma agenda diferente do presidente, Janja foi convidada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para visitar a finalização das obras do Pavilhão Brasil na Expo Osaka, que começa em 13 de abril e terá seis meses de duração.

“Obviamente, eu vim com a equipe precursora, inclusive, para economizar passagem aérea. Vim um pouco antes, fiquei hospedada na residência do embaixador”, afirmou.

Janja não vai ao Vietnã com o presidente. Ela seguiu para a França, onde vai discursar no evento Nutrition for Growth sobre desnutrição infantil, a convite do presidente francês, Emmanuel Macron.

Redação com Terra

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