Anadia/AL

4 de abril de 2026

Anadia/AL, 4 de abril de 2026

Marcio Pochmann: “Os jovens de hoje não tem mais a mesma confiança no futuro”

Marcio Pochmann diz que os jovens de hoje não têm mais a mesma confiança no futuro diante da perda de mobilidade social, da violência e da pressão digital.

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 4 de abril de 2026

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O presidente do IBGE, Marcio Pochmann (Foto: Jose Cruz/Agência Brasil)

Dafne Ashton

Os jovens de hoje, segundo Márcio Pochmann, já não veem no Brasil a mesma promessa de ascensão social que marcou outras gerações. Para o presidente do IBGE, a perda dessa confiança no futuro está ligada a mudanças estruturais no mercado de trabalho, ao avanço da violência sobre adolescentes, sobretudo meninas, e ao peso das redes sociais sobre a vida cotidiana, o convívio e a saúde mental.

Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, Pochmann afirmou que a juventude brasileira vive em uma realidade distinta daquela experimentada no período de redemocratização e expansão urbana e industrial.

Ao comentar os dados da pesquisa do IBGE sobre a saúde de estudantes de 13 a 17 anos, realizada com apoio dos ministérios da Educação e da Saúde, ele disse que esse grupo etário está “conformando uma sociedade nova no Brasil, sociedade de serviços hiperconectada na era digital”.

Na avaliação do presidente do instituto, uma das chaves para entender o mal-estar juvenil está na mudança do padrão econômico do país. Ele observou que, no passado, a educação funcionava como caminho mais direto para melhorar de vida e ampliar renda, direitos e posição social. Agora, esse vínculo se enfraqueceu. “O charme do capitalismo brasileiro está desaparecendo enquanto perspectiva de mobilidade social”, afirmou. Em seguida, resumiu o impasse: “É muito difícil hoje haver essa possibilidade de você ter uma situação melhor que a dos seus pais”.

Pochmann situou essa inflexão no deslocamento do Brasil para uma economia centrada em serviços. Segundo ele, “4/5 dos ocupados no Brasil estão no setor terciário”, o que altera a forma de produzir, empregar e remunerar. Nessa configuração, mesmo o acesso à educação já não garante, por si só, uma inserção ocupacional capaz de sustentar expectativas de melhora material entre as gerações.

Ao tratar da pesquisa sobre estudantes, ele também apontou o peso da violência sobre os mais jovens, com particular incidência sobre meninas. “As meninas sentem a violência de várias formas, uma certa pressão e tensão”, declarou. Para ele, os dados mostram uma demanda por políticas públicas mais consistentes, num cenário em que, segundo sua análise, o atendimento oferecido por famílias e pelo poder público ainda está aquém do necessário para compreender “o que é ser jovem ou pré-jovem” no país atual.

Outro eixo destacado por Pochmann foi o ambiente digital. Ele descreveu a juventude como um segmento que já nasceu inserido nas novas tecnologias e, por isso, se relaciona com redes sociais de forma mais intensa do que gerações anteriores. Nesse ambiente, afirmou, cresce a pressão sobre padrões de vida, aparência e formas de relacionamento. “Há uma pressão muito grande em relação à questão do padrão de vida, do formato de relacionamento”, disse. Para ele, esse processo ajuda a explicar “a dificuldade de relacionamento, o aumento da solidão” e o enfrentamento de “problemas existenciais” que passaram a ter dimensão de saúde pública.

Sem se apresentar como especialista no tema, Pochmann observou que esse debate não é exclusivo do Brasil e vem sendo enfrentado em diferentes países, alguns deles com restrições ao uso de celulares em sala de aula e discussões sobre limites de idade e tempo de exposição às telas. Ainda assim, sustentou que o caso brasileiro tem um componente adicional: a combinação entre digitalização da vida social e o bloqueio das antigas expectativas de mobilidade.

Na entrevista, ele também chamou atenção para um dado recente da economia. Apesar da elevação do emprego, do rendimento médio e da massa de rendimentos nos últimos anos, afirmou que parte desse ganho tem sido absorvida pelo endividamento das famílias. “Uma parte importante da renda adicional que se obteve pela ocupação ou pela elevação do rendimento foi sendo capturada pelo processo de endividamento”, afirmou. Na leitura dele, isso ajuda a explicar por que a melhora estatística não se converte, na mesma proporção, em sensação concreta de bem-estar.

Pochmann acrescentou que o custo de vida mais alto e o comprometimento da renda com outras despesas reduzem ainda mais a percepção de avanço material. Ao mencionar a próxima divulgação da Pesquisa de Orçamentos Familiares, indicou que o levantamento deverá trazer elementos sobre a estrutura de gastos das famílias e sobre o uso do tempo dos brasileiros, inclusive em relação aos jogos e apostas, que, segundo ele, passaram a consumir parcela relevante da renda.

Ao reconstruir o contraste entre gerações, o presidente do IBGE sugeriu que a juventude atual já não encontra, no horizonte brasileiro, a mesma ideia de progresso que marcou os anos 1980 e parte dos anos 1990. Se antes a democratização, o combate à inflação e a ampliação do acesso à educação eram percebidos como degraus de um país em transformação, hoje a experiência é de incerteza diante de uma estrutura econômica que oferece menos garantias.

Por isso, sua leitura da pesquisa vai além dos indicadores de tristeza, ansiedade, violência e isolamento. O centro da questão, para ele, está na ruptura entre escolarização crescente e expectativa de ascensão. “Nós estamos hoje com o segmento juvenil mais escolarizado de todos os tempos”, afirmou. Mas acrescentou que essa elevação educacional “não está sendo acompanhada de uma expansão de postos de trabalho que justifiquem justamente esta elevação nos níveis educacionais”. Nesse descompasso, a juventude vê mais estudo, mais conexão e mais pressão, mas menos sinais de que o futuro será melhor.

* Brasil 247

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