Por: Amanda S. Feitoza
As mulheres são maioria entre os consumidores de livros no Brasil e vêm influenciando diretamente os rumos do mercado editorial. Segundo o levantamento Panorama do Consumo de Livros 2025, da Nielsen BookData, 62% das compras de literatura no país foram feitas por mulheres. Já a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, do Instituto Pró-Livro, mostra que 49% das mulheres se declaram leitoras, frente a 44% dos homens.
A diferença no perfil de consumo tem refletido nas estratégias das editoras e na dinâmica das livrarias. Além de representarem a maior fatia do público comprador, mulheres também exercem papel central na formação de leitores dentro de casa, na indicação de títulos em clubes de leitura e nas redes sociais e na consolidação de tendências que alcançam listas de mais vendidos.
O impacto aparece nas prateleiras. Editoras têm ampliado a publicação de autoras, investido em gêneros com forte apelo feminino, como romantasia e ficção contemporânea, e aberto espaço para temas antes pouco explorados comercialmente, como menopausa, maternidade real, carreira, saúde mental e autonomia financeira.
Para a escritora e produtora cultural brasiliense Lella Malta, o movimento ultrapassa a lógica de mercado. “O protagonismo feminino no consumo de livros do Brasil revela muito mais do que uma tendência de mercado, aponta para uma mudança estrutural no cenário editorial”, afirma.
Segundo ela, a atuação das mulheres no setor não se limita à compra. “Mais do que consumidoras, somos criadoras de conteúdo, mediadoras e articuladoras culturais. Buscamos narrativas plurais, representatividade, aprofundamento emocional e diversidade de vozes. Isso impulsiona o surgimento de novos selos, clubes de leitura, eventos literários e projetos independentes liderados por mulheres”, diz.
A presença feminina também cresce nos bastidores da cadeia produtiva do livro. Lella coordena dois projetos voltados à inserção de mulheres no setor editorial. O Escreva, Garota! funciona como comunidade de formação para mulheres que desejam escrever e publicar. Já o Elas Publicam reúne profissionais que atuam em diferentes etapas da produção editorial, como revisoras, editoras, ilustradoras e agentes literárias.
Para ela, o avanço no consumo precisa ser acompanhado por maior ocupação de espaços de decisão. “Já comandamos o consumo, agora precisamos ocupar de vez as prateleiras das livrarias e os espaços de decisão na cadeia produtiva do livro”, afirma.
Lella também defende a escrita como ferramenta de permanência e transformação social. “A escrita não é tratada como hobby, mas como projeto de vida, trabalho e resistência. Acreditamos na palavra como ferramenta de permanência, autonomia e transformação, especialmente para mulheres que escrevem em meio a atravessamentos como maternidade, raça, trabalho e silenciamentos históricos”, finaliza.
-Correio Braziliense

















