O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, afirmou em entrevista à TV 247 que o crescimento recente da economia brasileira está sendo impulsionado principalmente pelos mais pobres. Ele defende que o “PIB dos pobres” – o consumo gerado por quem saiu da fome e da miséria e passou a ter renda, emprego ou pequeno negócio – é hoje uma das bases do ciclo de expansão em curso no país.
O ministro fez um balanço do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva na área social, com foco no combate à fome, na redução da desigualdade e na reconstrução das políticas desestruturadas após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.
Do mapa da fome à reconstrução
Dias resgata o início da trajetória das políticas de combate à fome ainda em 2003, quando o presidente Lula lançou o Fome Zero. À época, ele era governador do Piauí, cenário escolhido para o pontapé inicial do programa. Do debate em torno do cartão “Fome Zero” surgiu a ideia do Bolsa Família, consolidando a política de transferência de renda.
Segundo o ministro, o esforço articulado de programas como Bolsa Família, merenda escolar, programas de aquisição de alimentos, incentivo à agricultura familiar e rede de proteção social permitiu ao Brasil reduzir a insegurança alimentar severa para menos de 2,5% em 2013/2014, patamar que tirou o país do mapa da fome dentro dos critérios da ONU. Ele lembra que a conquista foi interrompida após o que chama de “golpe contra a presidenta Dilma”, acompanhado do desmonte de políticas sociais e de segurança alimentar.
Novo Bolsa Família, cadastro único modernizado e busca ativa contra a fome
Ao assumir o ministério, já no governo Lula 3, Wellington Dias descreve um esforço concentrado para reconstruir a rede de proteção social com base na experiência acumulada e em ferramentas mais modernas. Ele destaca o “moderníssimo cadastro único” como eixo central da estratégia:
“Um cadastro muito muito moderno. Quem são as pessoas que estão na miséria, na pobreza, de baixa renda, quem são as pessoas em situação de vulnerabilidade, população de rua, imigrante, tá tudo ali com uma base de informação extraordinária.”
Com esse mapa, o governo passou a operar uma busca ativa que vai às favelas, às áreas rurais, à floresta, às Unidades Básicas de Saúde, cruzando dados de desnutrição e subnutrição com a rede do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e do Ministério da Saúde. A cada caso, equipes avaliam se o problema é falta de renda, de alimento ou de saúde, acionando Bolsa Família, cozinhas solidárias, restaurantes populares ou atendimento médico.
Renda, crianças e gestantes: como o benefício é estruturado
Dias explica que o novo desenho do Bolsa Família foi pensado para garantir que quem entra no programa não volte à fome. O benefício parte de um valor mínimo por pessoa e inclui adicionais para crianças, gestantes e adolescentes:
“A gente pagou um mínimo de R$ 142 por pessoa, mas com um olhar, tem criança, opa, mais 150, tem gestante, então mais 50. Tem adolescente aqui mais 50. E isso termina resultando num patamar de mais ou menos R$ 230 per capta, não é?”
Segundo ele, esse arranjo coloca as famílias acima do parâmetro internacional de extrema pobreza mencionado na entrevista, garantindo condições mínimas para a compra de alimentos. O ministro lembra ainda que cerca de 50 milhões de crianças se alimentam diariamente nas escolas, integrando merenda escolar e produção de pequenos agricultores, além de redes de cozinhas solidárias, bancos de alimentos e programas de aproveitamento de alimentos que seriam descartados.
Regra de proteção e colchão contra a volta à miséria
Um dos pontos que Wellington Dias destaca como inovação decisiva é a regra de proteção, que busca romper o ciclo de entrada e saída da pobreza e da fome. Ele resume o mecanismo: quem entra no Bolsa Família só sai quando sobe na escala de renda, e continua protegido se houver queda posterior:
“O novo Bolsa Família, ele criou um mecanismo que quando alguém entra no cadastro e entra no Bolsa Família, só sai para cima e nunca mais volta a fome. […] Quando ela ultrapassa esse limite, em tese, ela saiu da extrema pobreza, mas a gente mantém no Bolsa Família. Criamos a chamada regra de proteção.”
O ministro explica que famílias que atingem determinado patamar de renda per capita continuam no programa por um período de transição. Se perderem o emprego ou se o pequeno negócio não der certo, o retorno ao benefício é automático, sem fila. Ele cita o dado de novembro em que 41 mil pessoas deixaram o Bolsa Família por emprego, perderam essa ocupação e voltaram para o benefício, amparadas pelo “colchão de proteção” construído pelo sistema.
Golpe, desigualdade e o papel da “mão visível” do Estado
Questionado sobre a dimensão estrutural da pobreza e da desigualdade, Wellington Dias rejeita a ideia de que a “mão invisível” do mercado seja capaz de resolver sozinha o problema. Ele afirma que a experiência brasileira mostra o oposto:
“Se um país como o Brasil deixar que a mão invisível resolva, que muitos ideólogos acreditam e vende essa ilusão, nós vamos ter o que tem no Brasil e em muitos lugares, a desigualdade.”
“Um governo como o do presidente Lula acredita é na mão visível, é ir lá dar a mão, dar o apoio, como diz na parábola, dar o peixe no primeiro momento, mas também ensinar a pescar e dar os instrumentos mais modernos que tiver para a pesca.”
Para ele, a combinação entre transferência de renda, educação, qualificação profissional, assistência técnica e crédito orientado é o caminho para reduzir de forma duradoura a desigualdade e ampliar a classe média. O ministro lembra que o Brasil, que havia reduzido a pobreza para cerca de 30% até meados do governo Dilma, viu esse índice subir para 37% nos anos seguintes, para depois recuar, segundo ele, ao mais baixo nível da série histórica, em torno de 20%.
Dias também aponta que a extrema pobreza, que chegou a 9% em 2021/2022, caiu para 4%, e que o país alcançou o menor patamar de desigualdade medido pelo índice de Gini, de 0,544 para 0,506. Ele destaca ainda a melhora do Piauí – antigo símbolo da pobreza – no índice de desenvolvimento humano, saindo da faixa de 0,4 para 0,73, e a subida do Brasil em cinco posições no ranking internacional do IDH.
Isenção do IR até R$ 5 mil e tributação dos super-ricos
A entrevista foi gravada no dia em que o governo sancionou a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e a taxação de rendas mais altas, acima de R$ 600 mil anuais. Para Wellington Dias, a medida dialoga diretamente com o compromisso de “pobre no orçamento e rico no imposto de renda”:
“Imagine imposto zero para quem ganha até 5.000. Eu tô falando de professor, comerciário, um monte de gente. […] Essas pessoas ganharam 10%, eu pagava 10% de imposto e agora meu contracheque não tem mais, eu ganhei 10% de reajuste do meu salário líquido.”
Ele argumenta que a ampliação da renda disponível para trabalhadores formais de baixa e média renda aumenta o consumo, estimula a atividade econômica e ajuda a sustentar o crescimento do país, ao lado das políticas voltadas aos mais pobres.
Emprego, qualificação e a tese do “PIB dos pobres”
Um dos eixos centrais da fala do ministro é a relação entre políticas sociais e dinamismo econômico. Dias aponta os números mais recentes do mercado de trabalho como evidência do impacto da estratégia de inclusão produtiva:
“O Brasil tá comemorando porque agora saiu o Caged de outubro, nós fomos para 4.800.000 novos empregos a mais. Quer saber? 83,3% desses novos empregos.”
Ele afirma que 18 milhões de pessoas do Bolsa Família e do Cadastro Único formalizaram contratos de trabalho de 2023 para cá, ainda que parte desses postos sejam sazonais, de 60 ou 90 dias. Ao mesmo tempo, destaca que o país gerou 11 milhões de pequenos negócios adicionais, com 70% dos novos empregos vindo desse segmento.
Nesse contexto, Wellington Dias repete o conceito que dá título à entrevista:
“Quando nós temos uma política bem planejada, como faz o presidente Lula, é o PIB dos mais pobres. […] É o PIB dos mais pobres que estão sustentando o crescimento econômico, cara pálida, é o PIB dos mais pobres.”
Acredita, microcrédito e histórias de mobilidade social
Para ilustrar como a política pública se desdobra na vida concreta, o ministro recorre a casos de beneficiários que se tornaram empreendedores. Ele cita o programa Acredita, que integra Bolsa Família, qualificação, assistência técnica e crédito em parceria com bancos públicos, cooperativas e Sebrae.
Em Aracaju, relata a história de uma artesã que vendia sua produção numa banca improvisada no meio do sol e, com financiamento de R$ 21 mil do Banco do Nordeste, montou uma estrutura que hoje reúne quatro lojas, com carteiras assinadas e empregados.
No Ceará, lembra o caso de uma mulher que, após uma separação, foi acolhida pelo Bolsa Família e pelo aluguel social, fez um curso de beleza em parceria com um grande salão, alugou uma cadeira no estabelecimento e, posteriormente, abriu o próprio negócio:
“Ela contou lá com lágrimas nos olhos também, emocionou a gente que ela disse: ‘Antes eu era Patrícia do Bolsa Família, fiz o curso, passei a ser conhecida como Patrícia Cabeleireira. Eu agora sou a empresária Patrícia, dona de um salão’.”
Outra história que o marcou foi a de uma jovem que se formou como técnica em eletricidade em programa de qualificação ligado à Neoenergia, alcançando renda suficiente para realizar um desejo antigo da mãe:
“Quando a mãe passou, ela viu o olho da mãe lá na maçã verde e ela disse: ‘Mãe, pode comprar a maçã verde. Meu dinheiro do meu emprego dá para pagar’.”
Para o ministro, esses relatos exemplificam o salto de uma condição de miséria ou pobreza para a classe média, ajudando a puxar a economia e a mudar o padrão de consumo e de expectativas dessas famílias.
Pequeno produtor, floresta produtiva e integração social–ambiental
Wellington Dias também menciona iniciativas que articulam combate à pobreza e preservação ambiental. Um caso citado é o de um assentamento em Santa Bárbara do Pará, em área antes degradada por monocultura de eucalipto, que se transformou em “floresta produtiva” com culturas como açaí, cacau, café, mamão, andiroba e cajá (taperebá).
Segundo ele, a recuperação dos olhos d’água e dos riachos convive com a geração de renda para 414 famílias assentadas, integrando política social, desenvolvimento econômico local e conservação ambiental. O ministro vincula essas experiências à defesa da “floresta produtiva” incluída na declaração da COP realizada em Belém.
Aliança global contra a fome e fundo garantidor
Na arena internacional, o ministro relata a criação da Aliança Global contra a Fome, aprovada no G20 sob liderança do Brasil, a partir de proposta do presidente Lula para que países ricos apoiem na prática os que estão em desenvolvimento.
Dias lembra que, em 2015, quando foram aprovados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a fome no mundo atingia cerca de 600 milhões de pessoas e, em 2022, o número chegou a 750 milhões, sinalizando que o modelo então em vigor não estava funcionando. A resposta, afirma, foi reunir programas que deram certo – como alimentação escolar e crédito produtivo orientado – numa espécie de “cesta” de políticas eficientes a serem compartilhadas.
Ele destaca, nesse contexto, o fundo garantidor federal criado para viabilizar crédito a pequenos empreendedores sem exigir avalista ou bens como garantia, mecanismo que, segundo estudo do Banco do Nordeste citado na entrevista, apresentou inadimplência de apenas 0,36%, “15 vezes menor” que em outras linhas de empréstimo.
Economia do cuidado, idosos e política de cuidados
Na parte final da conversa, Wellington Dias trata da situação dos idosos, sobretudo mulheres endividadas e em situação de vulnerabilidade, e da chamada “economia do cuidado”. Ele observa que milhões de pessoas em idade economicamente ativa – entre 2 e 3 milhões dentro do universo do Bolsa Família e do Cadastro Único – dedicam-se integralmente a cuidar de idosos ou pessoas com deficiência, muitas vezes sem qualquer remuneração.
O ministro fala inclusive da própria experiência familiar, lembrando que ele e a esposa cuidam de uma filha autista em nível de grande dependência. A partir desses casos, apresenta iniciativas como as “cuidotecas”, espaços em que a pessoa pode estudar enquanto deixa sob cuidado profissional seus filhos, idosos ou familiares com deficiência, e modelos de atendimento domiciliar articulados com o Ministério da Saúde para evitar o rompimento de vínculos afetivos e sociais dos idosos.
Ele também cita parcerias com empresas privadas, como a visita à fábrica da Lupo, em Araraquara, onde uma creche integrada à rede municipal de educação teria reduzido faltas e doenças, demonstrando, na sua avaliação, que políticas de cuidado também têm impacto econômico positivo.
Formação em “superação da pobreza” e futuro da classe média brasileira
Wellington Dias enfatiza a necessidade de tratar a superação da pobreza como campo de conhecimento, e não apenas de boa vontade. Ele menciona a criação de um curso de pós-graduação em superação da pobreza em parceria com uma universidade paulista, além do desenho de bacharelado e de formação técnica na mesma área, com o objetivo de orientar políticas baseadas em evidências e diagnósticos detalhados de cada família.
O ministro afirma que, quando Lula assumiu o atual mandato, a classe média – que já havia alcançado 52% dos domicílios – havia recuado para 43% ou 44%. Segundo ele, esse percentual já teria voltado a superar 50%, chegando a 50,1% dos domicílios classificados entre as classes C, B e A. Em sua conta, não haveria menos de 3 milhões de famílias que vieram do Bolsa Família e hoje compõem a nova classe média brasileira.
Para Dias, o caminho para consolidar um Brasil sem fome passa por manter e aprofundar o modelo atual: tirar da fome, depois da miséria, depois da pobreza, com mecanismos para que as pessoas avancem até a classe média e permaneçam nela, amparadas por uma rede que evita o retorno à miséria em crises pessoais ou econômicas.
Ao encerrar a entrevista, o ministro projeta crescimento do PIB acima de 2,5% e volta a atribuir o dinamismo econômico à base da pirâmide social:
“Quando isenta 5.000 de pagar imposto, é mais consumo, é mais emprego. E quando a gente apoia o andar de baixo, aí é que o negócio vai mesmo. Então é o PIB dos mais pobres. É o PIB dos mais pobres.” Assista:
ABN C/ Brasil 247

















