Anadia/AL

7 de maio de 2026

Anadia/AL, 7 de maio de 2026

A dádiva e a dívida dos livros

Livros

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 7 de maio de 2026

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Imagem: Renato Parada / Divulgação

Meu primeiro livro foi meu avô quem me deu. Já lá se vai uma vida, mais de cinco décadas, mas me lembro até hoje do lugar, da hora e da circunstância. A casa onde morávamos, no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre, pouco antes do jantar, numa noite de meio de semana.

E me lembro muito bem do livro: Jim e a Bicicleta. Formato quadrado, capa dura, branca, com o desenho de um menino ciclista.

Meu avô Mauricio, pai de minha mãe, era gerente de uma livraria. Minha avó Luiza e ele viviam cercados de livros. Já tinham me dado muitos outros; mas este era diferente. Até então, meus livros eram “para criança”, cheios de ilustrações. Este também era para criança, mas quase não tinha desenhos, as páginas vinham cobertas de texto. E isso fazia toda a diferença.

Não tenho ideia da história. Nem do autor. Pesquisas na internet, agora, não dão resultado. Pouco importa. Importante mesmo, inesquecível, foi o presente em si. Pela primeira vez, um livro de texto, que eu ganhava para ler sozinho.

Difícil entender que alguém possa se lembrar de detalhes de uma ocasião aparentemente tão banal. Mas acontece com todo mundo. Muito do que se guarda de mais precioso são lembranças de algo que, na hora, nem parecia especial. Anos depois, aquilo volta à memória. Depois de novo; e de novo. Enigmas, cifras, pequenos mistérios que nos marcam para sempre, pedindo entendimento.

Talvez o menino que eu era jamais tivesse sentido, antes, o real significado de um livro. De um modo ou outro, apoiado nos cotovelos, começando a ler no sofá da sala, intuía ali a responsabilidade que vem com cada leitura.

Vem de muito longe, aliás, como se sabe. Remonta a Gutenberg, inventor da prensa, que permitiu a impressão de livros, no século 15. Menos conhecido, mas tão importante quanto, foi o italiano Aldo Manuzio (c. 1452-1515), que teve a ideia de produzir “livros portáteis”. Quer dizer, livros em formato pequeno, que todo mundo pode carregar. De lá para cá, a circulação dos livros se popularizou de um modo que ninguém poderia ter imaginado.

Cada livro é um livro. Simplesmente o fato de ser livro não garante qualidade ou interesse. Mas não é verdade que, a cada vez, quando se abre um volume, existe a esperança de uma revelação? Não só o encanto das palavras e o prazer das formas, não só o encontro com uma nova voz, ecoando por dentro, mas algo a mais, algo maior, revelação de sentidos para o que desafia a inteligência.

“Esperança” é bem o termo. A gente não pensa nisso, mas “esperança” vem de “esperar”. A esperança é um esperar com força. E o que se espera de cada livro, no limite, não é nada menos que tudo. Uma esperança frustrada de antemão. “Neste tudo/ tudo falta […]/ e nesta/ falta: eis/ tudo“, diz uma “Ode” de Orides Fontela.

Pensando bem, para o menino de seis ou sete anos, ganhando seu primeiro livro naquela noite (ou o que, para ele, parecia o primeiro livro), o verdadeiro presente era a esperança. Dádiva das dádivas. Que é também uma dívida: quem recebe, precisa retribuir.

Talvez isso explique por que a memória daquela noite jamais me deixou. Já fiz muita coisa na vida: como professor, escritor, tradutor, crítico, editor – sem falar na carreira musical.

Em retrospecto, fico achando que tudo foram sempre modos de retribuir as inumeráveis dádivas da leitura, que se renovam, dia após dia. E é bem nesse espírito que assumo, agora, o compromisso de falar de livros, uma vez por mês, muito honrado de compartilhar o espaço com três dos mais renomados criadores da literatura brasileira do nosso tempo.

Livros mudam vidas. Mudaram a minha, seguem mudando. O mínimo que posso fazer é retribuir, como puder, minimamente que seja, o infinito presente.

Indicações

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Imagem: Divulgação

“Poesia completa”, de Orides Fontela
Este ano, a autora homenageada da FLIP será a poeta paulista Orides Fontela (1940-98). Uma escolha inesperada e corajosa. Inesperada porque a poesia dela está muito distante das preocupações mais urgentes do momento. Corajosa pelo mesmo motivo, mas não só: também por ser uma poesia, entre aspas, “difícil”, que não se entrega de imediato. Mas que recompensa amplamente o engajamento. Poesia de poucas palavras, dizendo muito. Poesia do silêncio, mas também dos pássaros; poesia das pedras e das rosas. “Contra a aparência a atenção pura/ constrói um campo sem mais jardim/ que a essência” (“Desafio”). Resumiu tudo o grande mestre Antonio Candido: “Beleza pura de quem não passa intacta pelo mundo”.

“O Hipopótamo”, de Chico Mattoso

O livro é sobre a infância e quem narra a história é um menino. Ou melhor: quem narra é o adulto, relembrando a infância da perspectiva do menino. As relações do filho único com a mãe e o pai vão ganhando camadas de sentido, ao longo da trama que se vai revelando, com traços de romance policial. Até num sentido mais literal do que parece: o livro é sobre a ditadura, ou melhor, sobre os efeitos da prisão e da tortura (adivinhados pelo menino). A contenção da prosa só reforça o domínio incrível da forma. Um pequeno grande romance, que confirma o nome de Chico Mattoso na comissão de frente da ficção brasileira dos nossos dias.

“O Bom Mal”, de Samanta Schweblin

Uma tensão se instaura desde as primeiras palavras. Nada explícita, uma espécie de eletricidade psíquica de baixa voltagem, ela vai crescendo gradual mas inapelavelmente, até provocar as devastações que definem o curso de uma vida. Mal resumindo, é isto o que se passa nesses seis contos da escritora argentina. Do ordinário ao extraordinário, um percurso narrado com habilidades únicas de tocar no nervo da vida. Quando li pela primeira vez o conto mais longo, “O Olho na Garganta” – uma história de pai e filho -, quase não consegui chegar ao fim, tamanha a comoção. Alguns meses depois, uma segunda leitura só me fez admirar ainda mais o artesanato da escrita. Agora guardo o livro, para não gastar. Leituras como essa têm de ser preservadas, são experiências raras, que não se deve desperdiçar. Mas deixo ele aqui para vocês.

Um clássico

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Imagem: Divulgação

Dickens foi o pioneiro dos romances serializados, ainda na primeira metade do século 19, inaugurando um formato substituído agora pelas séries em streaming. Cada folhetim semanal de Grandes Esperanças (Great Expectations) vendia em média 100 mil exemplares, isso em 1861. Uma de suas obras-primas, é um “romance de formação”: a história de um menino pobre, que ascende, descende e volta a ascender socialmente, em contraponto com transformações de caráter.

Em contraponto também com tramas do novo mundo capitalista colonial inglês, que Dickens entendia como ninguém. A prosa vai do romance à comédia e à sátira, com variedades e profundidades shakespearianas. Serve aqui de modelo da grande forma do romance – ainda hoje, para tanta gente, a própria face da literatura.

Arthur Nestrovski é músico e escritor. Autor de “Tudo Tem a Ver – Literatura e Música” (Todavia) e “Palavra e Sombra” (Ateliê), entre outros. Escreveu 12 livros para crianças; entre eles, “Bichos que Existem & Bichos que não Existem” (Companhia das Letrinhas, prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2003).

*Redação com Uol/ TAB 

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