A União Europeia iniciou nesta quinta-feira (3) uma articulação diplomática e comercial em resposta às novas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tomou posse em seu segundo mandato em 2025. De acordo com o Financial Times, o bloco europeu ainda discute o pacote de retaliações à sobretaxa linear de 20% sobre produtos europeus, mas já aponta caminhos alternativos, como a aceleração de acordos comerciais em andamento — entre eles, o tratado com o Mercosul, assinado no fim do ano passado no Uruguai, como foi reportado pela Folha de S. Paulo.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, criticou duramente a decisão de Trump e alertou para os impactos globais da medida. “As consequências serão terríveis para milhões de pessoas em todo o mundo. Também para os países mais vulneráveis, que agora estão sujeitos a algumas das tarifas mais altas dos EUA. É o oposto do que queremos alcançar”, afirmou em pronunciamento. Ela acrescentou que “as tarifas também prejudicam consumidores em todo o mundo. Isso será sentido imediatamente. Milhões de cidadãos enfrentarão contas de supermercado mais altas. Os medicamentos custarão mais caro, assim como o transporte. A inflação aumentará.”
Segundo Von der Leyen, a Comissão já finalizou um primeiro pacote de contramedidas específicas para o aço, mas outras medidas estão sendo preparadas. “Estamos nos preparando para outras contramedidas, para proteger nossos interesses e nossas empresas caso as negociações fracassem”, afirmou. A sobretaxa sobre o aço e o alumínio já vigora há semanas e será respondida com tarifas sobre produtos americanos que podem atingir € 26 bilhões (cerca de R$ 157 bilhões). Além disso, nesta quinta-feira, entrou em vigor uma tarifa de 25% sobre a exportação de automóveis europeus aos EUA, atingindo diretamente a indústria do continente.
Von der Leyen também expressou preocupação com os efeitos indiretos da política de tarifas. “Estaremos observando atentamente os efeitos indiretos que essas tarifas podem ter, pois não podemos absorver o excesso de capacidade global nem aceitaremos o dumping em nosso mercado”, destacou.
As reações nos países-membros da UE também foram contundentes. Um porta-voz do governo francês acusou Trump de adotar uma “atitude imperial” e agir como “senhor do universo”. O ministro da Economia da Alemanha, Robert Habeck, alertou para a necessidade de unidade europeia, lembrando que seu país é o maior exportador do bloco.
Entre as cartas que Bruxelas pode usar em sua resposta estão sanções amparadas pela Lei de Mercados Digitais (DMA), em vigor desde 2022. A legislação busca limitar práticas anticompetitivas de grandes empresas de tecnologia e pode ser utilizada para multar gigantes como Apple e Meta (controladora do Facebook) por supostas violações. Outras opções em estudo incluem restrições à atuação de bancos americanos na Europa, a exclusão de empresas dos EUA de licitações públicas no bloco e até limitações a direitos de propriedade intelectual.
O setor de serviços, um dos poucos em que os Estados Unidos têm superávit na balança comercial com a Europa — estimado em € 110 bilhões (R$ 664 bilhões) —, também pode ser alvo de medidas de contenção.
O cenário europeu, portanto, aponta para uma reação firme e articulada frente à política agressiva de Trump, com forte apelo à diversificação de parcerias. Nesse contexto, o Mercosul surge como peça-chave para o redesenho das relações comerciais da União Europeia no novo cenário geopolítico.
Redação com Brasil 247