
Por Henrique Rodrigues
O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), entregou-se à polícia na tarde desta sexta-feira (18) na delegacia de Mogi das Cruzes, na Região Metropolitana da capital. Homem forte da política paulistana por décadas e aliado de primeira hora do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), ele era considerado foragido desde o dia anterior, quando a Justiça expediu um mandado de prisão temporária no âmbito da Operação Vectura Corrupta. A apuração põe no centro do furacão a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas concessões do transporte público da maior metrópole da América Latina.
● Do transporte clandestino ao controle das concessões
As apurações policiais e do Ministério Público desenham um quadro sombrio sobre o papel exercido por Milton Leite na infraestrutura de mobilidade de São Paulo. Relatórios do inquérito apontam o político como figura central e “dono de fato” de grandes operadoras do sistema de ônibus, com destaque para a Transwolff, empresa que já havia sido alvo da Operação Fim da Linha.
Em uma das conversas mapeadas pela inteligência, o operador financeiro do PCC, José Daniel Satilite, debate a substituição da empresa UPBus pela Translider. No diálogo, o interlocutor deixa claro que qualquer movimentação estrutural na rede exigia uma comunicação prévia e o aval direto de Milton Leite. A investigação desnudou ainda o envolvimento de uma empreiteira vinculada ao político em contratos nebulosos com operadoras gerenciadas pelo crime organizado.
● Teia das operações: do tráfico aos R$ 8 bilhões da fintech
A prisão de Milton Leite representa o desfecho temporário de um enredo de investigação minucioso que começou em agosto de 2024, com a deflagração da Operação Decurio. Na ocasião, a apreensão de 30 quilos de entorpecentes em Itaquaquecetuba permitiu a extração de dados do telefone celular da companheira de um influente chefe da facção. O rastro digital expôs os membros da chamada “Sintonia Final” e revelou a simbiose entre criminosos e o ambiente político local, incluindo financiamento ilegítimo de campanhas e a cooptação de assessores comissionados.
O escândalo subiu de patamar em abril de 2026 com a Operação Contaminatio. As forças de segurança desmontaram a estrutura de uma instituição financeira de fachada, uma fintech criada para lavar fundos e invadir processos licitatórios em prefeituras paulistas. O esquema, que movimentou a cifra astronômica de R$ 8 bilhões através de operações com doleiros e ativos virtuais, levou à prisão de diversos operadores e parlamentares regionais.
Diante do avanço avassalador das provas anexadas à Operação Vectura Corrupta, a defesa das empresas citadas alega falta de vínculo formal do ex-vereador com os quadros societários. No entanto, o material colhido pelos investigadores sugere que a influência do ex-presidente da Câmara operava à margem dos papéis oficiais. Milton Leite permanece sob custódia, enquanto as autoridades aprofundam as diligências para mensurar a extensão dos danos provocados pela aliança entre a política e o crime organizado no coração de São Paulo.

Foto: Reprodução
Redação C/ Revista Fórum

















