Por: Amarílis Costa
Enquanto o Supremo Tribunal Federal transformou Jair Bolsonaro e sete aliados em réus por tentativa de golpe de Estado, o Brasil assistiu a mais um espetáculo de conivência institucional. Os crimes são numerosos, documentados e gravíssimos. A trama envolve reuniões golpistas, manipulação das Forças Armadas, destruição de patrimônio público e tentativa deliberada de abolir o Estado Democrático de Direito. Mesmo assim, Bolsonaro foi recebido com microfone em punho e aura de ex-presidente legítimo. Como se não tivesse promovido o caos.
Basta lembrar que ele estimulou a desobediência civil, espalhou desinformação, incentivou a ocupação de quartéis e minimizou uma pandemia que matou mais de 700 mil brasileiros. Ao todo, esse número ocupa sete maracanãs lotados. E ainda assim, caminha solto, posando para as câmeras como se fosse mártir de uma perseguição política. O mesmo homem que desacreditou das vacinas, debochou da dor das famílias, imitou falta de ar por Covid-19 e riu da morte. Disse que não era coveiro, que era só uma gripezinha, que quem tomasse vacina viraria jacaré.
A seletividade no tratamento é evidente. Enquanto Dilma Rousseff foi criminalizada por “pedaladas fiscais” nunca comprovadas, Bolsonaro é acolhido como chefe de Estado até hoje. Ela, uma mulher de esquerda, foi destituída com humilhação pública. Ele, agora um civil sem cargo, é tratado como figura presidencial mesmo quando virou réu. Dilma mal podia abrir a boca sem ser interrompida. Bolsonaro fala barbaridades em rede nacional e é reverenciado. A diferença não está apenas no gênero. Está na estrutura de poder que legitima homens violentos e rechaça mulheres firmes.
De um lado, temos um entusiasta da tortura; do outro, uma mulher que foi torturada. De um lado, um homem que exaltou o regime militar, elogiou notórios torturadores e zombou publicamente da dor alheia; do outro, Dilma Rousseff, que resistiu ao terror do porão, enfrentando a violência do Estado com silêncio e dignidade. Enquanto o Supremo Tribunal Federal transforma Jair Bolsonaro e sete de seus aliados em réus por tentativa de golpe de Estado, a sociedade brasileira continua a assistir à cena inacreditável de um criminoso protegido pela redoma da imprensa livre — a mesma liberdade garantida, em parte, pelo sacrifício de pessoas como Dilma.
Dilma Rousseff certa vez afirmou que a tortura é sobre o quanto de dor se pode aguentar sem dizer uma palavra. Essa frase não é um ato retórico, mas uma verdade vivida. A tortura não foi uma abstração para ela, mas uma experiência concreta e brutal, marcada em seu corpo e em sua memória. No entanto, é o entusiasta da tortura quem continua recebendo espaço privilegiado, com microfones estendidos e manchetes complacentes. Ele, que duvidou das vacinas, riu da morte e promoveu o caos, ainda é tratado como um legítimo ex-presidente. Ela, que nunca atentou contra a democracia, foi humilhada e exposta.
A diferença entre Dilma e Bolsonaro não está apenas em seus projetos políticos, mas na forma como a institucionalidade brasileira escolhe seus alvos e protege seus algozes. Dilma foi deposta por supostas pedaladas fiscais nunca comprovadas. Bolsonaro, mesmo réu, é tratado como estadista. A estrutura de poder que silenciou uma mulher torturada é a mesma que amplifica a voz de um homem que flertou com a destruição do país. O Brasil precisa romper com esse ciclo de conivência e impunidade. A democracia não pode mais suportar que golpistas sejam legitimados enquanto suas vítimas seguem sendo vilipendiadas.
A institucionalidade brasileira normaliza o absurdo. Desde o homem-bomba em Brasília até as crianças fazendo sinal de arminhas em palanques, passando pelo 7 de setembro transformado em comício golpista, há uma linha contínua de atrocidades que Bolsonaro ajudou a construir. E ele não fez isso sozinho. O julgamento é histórico, mas não pode ser simbólico. Precisa ser consequência.
O bolsonarismo produziu cenas dignas de distopia. Armas nas escolas, ataques ao Supremo, memes fascistas, sabotagem institucional. Tudo isso impulsionado por um projeto de poder que jamais se importou com a democracia. Jair Bolsonaro não subiu a rampa da posse porque nunca aceitou as regras do jogo. Não é exagero afirmar: ele tentou destruir o país por dentro. E quase conseguiu.
Está na hora de deixar de lado a hesitação. Está na hora do Jair sair. Pra sempre. Não apenas da cena política, mas da narrativa de impunidade que marca a história brasileira. O país precisa romper com o ciclo que transforma golpistas em líderes e vítimas em culpados. A democracia não sobrevive com esse tipo de concessão.
No mês da mulher, é preciso dizer: de um lado estão os que, como Bolsonaro, dizem “não sou coveiro” enquanto cavam, com a pá do ódio, a cova da democracia; do outro, estão corpos vivos — como o de Dilma Rousseff — que já conheceram os porões da morte e ainda assim insistem em semear dignidade.
Redação com Carta Capital