Dados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados há poucas semanas pelo IBGE, demonstram que há mais mulheres do que homens no Brasil. A cada 100 pessoas do sexo feminino, existem 95 do masculino, uma diferença que se traduz em cerca de 6 milhões de brasileiras a mais em relação a eles. Em Minas Gerais, o cenário é mais equilibrado, com 97,9 homens para cada 100 mulheres. Na capital do estado, porém, a concentração masculina é menor, com 86,8 homens para 100 mulheres, segundo o Censo 2022. De fato, numericamente, a população feminina é maior do que a masculina.
Por que, então, a ideia de “falta de homens” segue circulando com tanta força, mesmo diante de um contexto marcado por violências e assimetrias nas relações de gênero? A resposta parece menos ligada à quantidade e mais à qualidade das relações disponíveis, defende a explica a psicóloga e psicanalista Bel Ornelas. “Quando as mulheres dizem que ‘faltam homens’, não estão falando exatamente de quantidade, mas de um desencontro de expectativas, de disponibilidade emocional e de postura diante do vínculo”, indica.
A narrativa de que “falta homem no mercado” também é perigosa, porque pode ajudar a manter mulheres em relações que não as satisfazem, mesmo que de forma indireta ou inconsciente. “O que aparece com frequência é um tipo de racionalização: a mulher sabe que a relação não a satisfaz, mas compara com um cenário percebido como pior. Como ‘lá fora não tem homem’, ‘os poucos que estão disponíveis não prestam’. Isso reduz a angústia da decisão e faz com que elas se adéquem para tornar a permanência mais suportável”, diagnostica.
A especialista afirma que existe, nesse tipo de conceito, um componente cultural importante. “Ainda é muito presente a ideia de que um relacionamento ‘ok’ – no sentido mínimo, de não haver violências – já seria suficiente. Como se não sofrer fosse o critério. Isso rebaixa o que se espera de um vínculo e dificulta reconhecer a própria insatisfação como algo legítimo”, ressalta.
Complexidade
Além disso, esse tipo de discussão é limitado e reducionista. Primeiro, porque enquadra as relações dentro de uma lógica heteronormativa, que desconsidera outras formas de afeto. Depois, porque pressupõe que o desejo feminino se organiza prioritariamente em torno de um relacionamento amoroso, em detrimento de conexões igualmente significativas, como as amizades ou vínculos familiares.
“Reduzir a dificuldade de se relacionar a uma suposta ‘escassez’ de homens apaga a complexidade das experiências afetivas e também desresponsabiliza padrões problemáticos nas relações, como desigualdade emocional, falta de compromisso ou violência”, disse a psicóloga Dalcira Ferrão, em entrevista recente a O TEMPO.
Dalcira identifica também que analisar os relacionamentos amorosos sob a perspectiva de um “mercado” é uma abordagem problemática. “Essa ideia sugere que pessoas são como produtos, avaliadas em termos de ‘valor’, ‘competição’ e ‘oferta e demanda’. Do ponto de vista psicológico, isso pode gerar vários efeitos, como a objetificação das pessoas, que passam a ser vistas como substituíveis; ansiedade e insegurança, por comparação constante; baixa autoestima, especialmente entre mulheres, historicamente pressionadas a se adequarem a padrões devido às imposições sociais; dificuldade de construir vínculos genuínos, já que a lógica passa a ser de desempenho, e não de encontro”, entende.
Eles são menos cobrados, elas têm medo da solidão
A narrativa da escassez masculina pode alimentar uma dinâmica pouco equilibrada nas relações e contribuir para que homens sejam menos cobrados emocional e afetivamente. “Quando há uma percepção de escassez, a tendência é flexibilizar critérios para não perder o vínculo. Isso pode fazer com que certas ausências emocionais e afetivas sejam mais toleradas do que seriam em outro contexto”, pondera a psicóloga Bel Ornelas.
A psicóloga Dalcira Ferrão concorda. Por carregarem, historicamente, uma cobrança maior sobre o sucesso ou o fracasso das relações, as mulheres acabam sendo mais impactadas por esse tipo de visão sobre os vínculos afetivos. “É como se elas precisassem ‘se ajustar ao mercado’, em vez de questionar as estruturas que produzem relações desiguais”, afirma Dalcira.
É comum ouvirmos que é melhor estar sozinho do que mal acompanhado, mas, na prática, muitas pessoas tomam decisões que contradizem esse dito popular. Isso acontece porque, em muitos casos, o medo da solidão supera o receio de permanecer em relacionamentos insatisfatórios.
(Com Alex Bessas)
Vídeo: Mulher Tradicional/ Youtube
Redação com O Tempo

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