
Por Guilherme Levorato
Uma emenda parlamentar de R$ 280 mil atribuída pela Polícia Federal ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, bancou integralmente um show sertanejo da dupla Thaeme & Thiago em Guaimbê, no interior de São Paulo. A apresentação ocorreu durante a Festa do Peão do município, enquanto a PF apura um suposto esquema de indicações orçamentárias feitas por Valdemar, que não exerce mandato eletivo, relata o jornal O Globo.
Formalmente, a verba aparece vinculada a uma emenda da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados e tem como apoiador ou solicitante o líder do PL na Casa, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ). A investigação da Polícia Federal sustenta, no entanto, que a escolha do município e a destinação dos recursos teriam partido de Valdemar.
Segundo os investigadores, parlamentares ligados ao PL seriam utilizados para registrar e formalizar indicações previamente definidas pelo presidente da legenda. A apuração busca esclarecer como uma pessoa sem mandato parlamentar teria adquirido influência direta sobre a distribuição de recursos do Orçamento da União.
Prefeitura pagou R$ 280 mil por apresentação de 90 minutos
A nota fiscal referente ao evento registra o pagamento de R$ 280 mil à empresa THM & THG Produções Artísticas pela apresentação da dupla Thaeme & Thiago. O documento informa que o show teve duração de uma hora e meia e foi contratado por inexigibilidade de licitação, modalidade adotada para artistas consagrados e representados por empresas exclusivas.
O convênio entre o Ministério do Turismo e a Prefeitura de Guaimbê foi assinado em 30 de outubro de 2025, pouco mais de uma semana antes da festa. O governo federal repassou os R$ 280 mil em parcela única, enquanto o município apresentou uma contrapartida de apenas R$ 500.
No plano de trabalho enviado ao ministério, a administração municipal argumentou que a Festa do Peão contribuiria para estimular o turismo, fortalecer o comércio e preservar tradições culturais da cidade. A vigência do acordo se estendeu até 8 de janeiro de 2026.
O caminho dos recursos mostra que o Ministério do Turismo liberou o valor para a prefeitura, que contratou a dupla sertaneja e, após a realização do evento, efetuou o pagamento à empresa responsável pelos artistas. A nota fiscal vinculou diretamente a apresentação ao convênio federal e registrou os dados bancários utilizados na transferência.
A prefeita de Guaimbê, Márcia Helena Pereira Cabral Achilles, afirmou que não sabia que o dinheiro estava associado a uma indicação atribuída a Valdemar Costa Neto. Segundo ela, a administração municipal acreditava que os recursos faziam parte de uma ação regular do Ministério do Turismo.
“Me espantei quando saiu que era dinheiro de emenda do Valdemar. Achava que era um programa do Ministério, até por que eu não sou do PL. Acredito que isso aí, do presidente do partido incluir alguns municípios, foi algo feito não só por ele, mas por outros. É uma prerrogativa deles”, declarou.
Márcia também defendeu o financiamento da festa com dinheiro federal, sob o argumento de que municípios pequenos enfrentam dificuldades para manter uma programação cultural sem apoio externo.
Emendas também custearam shows em outras cidades
A investigação identificou destinações semelhantes para eventos realizados em outros municípios. Em Macedônia, também no interior paulista, uma emenda de R$ 220 mil atribuída pela PF a Valdemar foi usada integralmente para financiar as atrações musicais do aniversário de 79 anos da cidade.
Desse total, R$ 190 mil foram pagos à cantora Mariana Fagundes por uma apresentação de uma hora e meia. Outros R$ 30 mil custearam um show, com a mesma duração, da dupla Neto & Jr.
Assim como ocorreu em Guaimbê, o empenho foi vinculado à Comissão de Turismo da Câmara e apresentou Sóstenes Cavalcante como apoiador ou solicitante. Para a Polícia Federal, esse modelo teria sido empregado para dar forma institucional a decisões tomadas por Valdemar Costa Neto.
A principal atração do evento foi novamente Thaeme & Thiago. Nesse caso, o cachê registrado foi de R$ 291 mil, valor R$ 11 mil superior ao pago em Guaimbê. A apresentação ocorreu em 21 de novembro de 2025 e também durou cerca de 90 minutos.
A nota fiscal, porém, foi emitida e atestada pela prefeitura apenas em 26 de março de 2026, aproximadamente quatro meses depois da realização do show. O empenho também aparece associado à Comissão de Turismo da Câmara e registra o líder do PL como solicitante.
Cachês da dupla aumentaram nos últimos anos
Contratações realizadas por diferentes prefeituras mostram que os valores cobrados pelas apresentações de Thaeme & Thiago aumentaram ao longo dos últimos anos.
Em 2019, a Prefeitura de Rio Bananal, no Espírito Santo, pagou R$ 116 mil por um show. Em 2022, Parapuã, em São Paulo, desembolsou R$ 140 mil por uma apresentação de aproximadamente uma hora e meia.
No ano seguinte, a dupla foi contratada por R$ 130 mil para as comemorações do aniversário de Araranguá, em Santa Catarina. Em 2025, São Sebastião do Rio Verde, em Minas Gerais, firmou um contrato no valor de R$ 200 mil.
Nos eventos financiados por recursos federais investigados pela PF, os valores chegaram a R$ 280 mil em Guaimbê e a R$ 291 mil em Cafelândia, ambos por apresentações de cerca de uma hora e meia.
Sóstenes diz que decisões passam por comissão da Câmara
Procurado sobre as emendas registradas em seu nome, Sóstenes Cavalcante afirmou que as destinações para estados fora do Rio de Janeiro são decididas de maneira compartilhada e submetidas à Comissão de Turismo da Câmara.
“Todas as emendas em outros Estados fora do Rio de Janeiro, que são indicadas em meu nome, são emendas de comissão, que são indicados pela liderança ao presidente da comissão, que submete a voto dos membros da comissão para o devido pagamento, conforme manda a lei”, disse o deputado.
A versão apresentada pelo parlamentar é confrontada pelos indícios reunidos pela Polícia Federal, segundo os quais Valdemar teria definido diretamente parte das destinações e recorrido a integrantes da bancada do PL para oficializar as solicitações.
Ao autorizar o bloqueio de bens, Flávio Dino considerou relevantes os elementos apresentados pelos investigadores. Além de atingir o patrimônio do presidente do PL, a decisão interrompeu a liberação dos recursos relacionados às emendas sob suspeita.
Ministros do Supremo avaliam que pessoas sem mandato ou função pública não podem exercer, na prática, o poder de decidir sobre a aplicação de verbas federais. A recorrência de suspeitas envolvendo emendas também provocou novas discussões na Corte sobre transparência, rastreabilidade e fiscalização do dinheiro público.
Valdemar Costa Neto e o Ministério do Turismo foram procurados, mas não responderam aos questionamentos. A assessoria da dupla Thaeme & Thiago também não se manifestou sobre os pagamentos e os contratos.
Fonte: Brasil 247

















