
Por Aquiles Lins
O nome do ministro Kassio Nunes Marques aparece em diferentes frentes do material extraído do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. As mensagens incluem referências ao filho do ministro, Kevin Marques, a pagamentos de R$ 500 mil por mês, a uma mansão no Carnaval, a uma viagem internacional, a um jatinho e a uma cobrança de R$ 10 mil relacionada a uma mulher. Nunes Marques nega ter mantido relação com Vorcaro, afirma que nunca trocou mensagens com o banqueiro e sustenta que seu filho jamais recebeu dinheiro do ex-controlador do Master. Kevin também nega ter prestado serviços ao banco.
● O “Dominado aqui” surgiu após um julgamento de interesse do Master
O episódio mais relevante envolve um julgamento realizado pelo Supremo Tribunal Federal em outubro de 2024. A Corte analisou uma disputa da Destilaria Alcídia relacionada a indenizações da União ao setor sucroalcooleiro, segmento no qual o Banco Master possuía uma carteira de precatórios estimada pela Polícia Federal em mais de R$ 10 bilhões. Nunes Marques participou do julgamento e integrou a maioria de 3 a 2.
Depois da decisão, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, comunicou o resultado a Vorcaro. Na sequência, enviou o contato de Kevin Marques e escreveu: “Dominado aqui”. A mensagem não comprova que o ministro tenha atuado em benefício do banco nem que tenha existido qualquer acordo envolvendo seu voto, mas liga, nas conversas internas do Master, o resultado do julgamento ao filho de Nunes Marques.
● A referência a R$ 500 mil reapareceu meses depois
Em julho de 2025, Rennó voltou a encaminhar o contato de Kevin a Vorcaro e perguntou: “Esse aqui _ 500 mil mês – mantém?”. O diálogo não prova que Kevin tenha recebido esse valor mensalmente, mas há movimentações financeiras efetivamente identificadas pelo Coaf envolvendo uma empresa que mantinha relação tanto com o Master quanto com o filho do ministro.
A Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master em 14 operações e transferiu cerca de R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin Marques, distribuídos em 11 pagamentos. Kevin afirma que os valores foram recebidos por serviços jurídicos tributários prestados à Consult e que nunca trabalhou para o Banco Master.
● A mansão de R$ 1,45 milhão ampliou as dúvidas sobre a relação
Outro conjunto de mensagens trata do Carnaval de 2025. Vorcaro participou da organização da hospedagem de um ministro identificado como “KN” em uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro. Segundo reportagens, investigadores da Polícia Federal associaram as iniciais a Kassio Nunes Marques.
O imóvel, pertencente ao ator Márcio Garcia, era avaliado em aproximadamente R$ 250 milhões, e o aluguel citado nas mensagens era de R$ 1,45 milhão por uma semana. As conversas também tratavam da estrutura da estadia, incluindo motoristas, bebidas, acessos a camarotes e outros serviços. Nunes Marques afirma que nunca pediu nada a Vorcaro.
● A viagem internacional também chegou ao entorno de Vorcaro
Em dezembro de 2024, um agente de viagens recebeu um pedido atribuído a Kassio para organizar cerca de dez dias de viagem para cinco pessoas pela Europa. O agente procurou Vorcaro e perguntou se deveria cobrar a viagem do ministro ou repassar o valor ao banqueiro. Vorcaro respondeu inicialmente: “Sim. Atende. Tudo.”
Não há comprovação, no material divulgado, de que o banqueiro tenha efetivamente pago a viagem. Ainda assim, o episódio mostra que um pedido atribuído ao ministro foi encaminhado ao círculo de Vorcaro em termos que incluíam a possibilidade de o banqueiro assumir a despesa.
● O jatinho acrescentou outro elo ao mesmo conjunto de episódios
Nunes Marques também viajou em um Legacy 650 operado pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro havia sido sócio. As informações divulgadas até agora não demonstram que o banqueiro tenha custeado o voo.
O ponto relevante é a repetição das referências ao ministro no mesmo ambiente de relações de Vorcaro. O uso da aeronave, isoladamente, não comprova favorecimento, mas se soma a outros episódios que colocam Nunes Marques no entorno do banqueiro.
● A conversa sobre garaota de programa e R$ 10 mil
Outro diálogo envolve uma mulher e uma cobrança de R$ 10 mil. Em fevereiro de 2025, uma interlocutora de Vorcaro informou ao banqueiro que “as meninas estão prontas”. Dias depois, afirmou que uma amiga havia “ficado com o Kassio”.
Ao ser informado de que a mulher estava cobrando, Vorcaro pediu os dados e o valor. A resposta foi: “10 né!”, interpretada nas reportagens como referência a R$ 10 mil. As mensagens não comprovam que o “Kassio” citado seja Nunes Marques, nem que o pagamento tenha sido realizado.
● A questão central está no acúmulo de referências
Os diferentes episódios têm pesos probatórios distintos. As transferências da Consult para Kevin Marques estão documentadas. A referência a R$ 500 mil mensais aparece em mensagens entre executivos do Master. A mansão e a organização da estadia aparecem nos diálogos atribuídos ao grupo de Vorcaro. Já os episódios da viagem, do jatinho e da mulher exigem mais cautela porque não há, até agora, comprovação de pagamento pelo banqueiro ou, em todos os casos, de identificação inequívoca do ministro.
O problema para Nunes Marques está justamente na acumulação desses registros. Seu nome e o de seu filho aparecem repetidamente em conversas de Vorcaro e de executivos do Master, inclusive em contextos que envolvem dinheiro, viagens, hospedagem e decisões judiciais de interesse econômico do banco. Isso não equivale a prova de corrupção ou de venda de decisões, mas torna necessária uma explicação detalhada sobre cada episódio, especialmente sobre o “Dominado aqui”, a referência a R$ 500 mil mensais e os pagamentos recebidos pelo escritório de Kevin.
Redação C/ Brasil 247


















