Anadia/AL

1 de novembro de 2026

Anadia/AL, 1 de novembro de 2026

Vitória de Lula amplia descrédito total de Milei na Argentina

Reeleição do presidente brasileiro aprofunda isolamento político de Javier Milei, que enfrenta recessão econômica, fuga de capitais, queda de popularidade e disputas internas no governo.

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 1 de novembro de 2026

Mundo

Lula e Javier Milei l Crédito: Brasil 247 / Dall-E

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições brasileiras, ampliou as dificuldades políticas e diplomáticas enfrentadas pelo presidente argentino Javier Milei. Segundo análise publicada pelo canal argentino C5N, a derrota da extrema-direita brasileira agravou o isolamento do líder libertário em um momento marcado pela contração da economia argentina, pela deterioração dos indicadores financeiros e pelo crescimento das disputas dentro de seu próprio governo.

Milei havia apoiado publicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro e transformado a eleição brasileira em uma disputa ideológica contra Lula. Quase uma semana depois da vitória do petista, o presidente argentino ainda não havia felicitado o brasileiro, enquanto a chancelaria de seu país indicava que não faria um reconhecimento formal do resultado.

A postura contrasta com a adotada por outros governos latino-americanos, inclusive liderados por políticos de direita, que reconheceram a vitória de Lula. Entre eles estão José Antonio Kast, do Chile; Santiago Peña, do Paraguai; Rodrigo Paz, da Bolívia; e Daniel Noboa, do Equador.

O resultado brasileiro representa um revés para a estratégia internacional de Milei, que apostava no fortalecimento de governos ideologicamente alinhados à sua agenda. A continuidade de Lula no comando da maior economia sul-americana impõe ao presidente argentino o desafio de administrar uma relação bilateral fundamental para os interesses comerciais e industriais de seu país.

Economia argentina volta a registrar contração

O desgaste político de Milei ocorre em meio a sinais de enfraquecimento da economia argentina. Segundo os dados citados pelo C5N, o Banco Central argentino reconheceu uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2026, depois de uma queda de 0,6% no trimestre anterior.

Dois trimestres consecutivos de retração configuram um quadro de recessão técnica e colocam em questão a narrativa governista de recuperação econômica sustentada.

No segundo trimestre, o consumo privado caiu 2,4%, enquanto os investimentos recuaram 0,8%, interrompendo uma sequência de sete trimestres de crescimento.

A desaceleração atingiu principalmente a indústria, a construção civil e o comércio, setores diretamente ligados ao mercado interno e ao poder de compra da população.

O desempenho industrial também revela uma economia dividida. Enquanto os segmentos exportadores cresceram 3,2% em um ano, atividades mais expostas à concorrência externa registraram queda de 9% em agosto.

Entre os setores mais prejudicados estão as indústrias têxtil, de calçados, eletrodomésticos e equipamentos de informática, afetadas pela abertura comercial e pela retração da demanda doméstica.

Segundo levantamento do Banco Provincia citado pela reportagem, a contração acumulada entre dezembro de 2025 e agosto de 2026 está entre as mais intensas registradas na Argentina desde 1993. Desconsiderando a pandemia, seria a terceira maior, atrás apenas das crises de 2001 e 1995.

Mercados financeiros elevam pressão sobre Milei

A perda de confiança também aparece nos mercados financeiros. O índice Merval, principal referência da Bolsa argentina, acumulou queda de 10,1% em uma semana, enquanto ações de empresas do país negociadas em Wall Street sofreram perdas expressivas.

A distribuidora de energia Edenor recuou 17,2%, o Banco Supervielle perdeu 17,1%, o Grupo Galicia caiu 15% e a petrolífera YPF registrou desvalorização de 7,9%.

Os títulos soberanos argentinos em dólares também apresentaram perdas, com recuo médio de 3%.

O risco-país alcançou 790 pontos básicos, o maior patamar desde outubro de 2025, após subir mais de 80 pontos em uma semana.

A comparação regional evidencia a vulnerabilidade argentina. Enquanto o indicador do país superava 700 pontos, o Brasil permanecia abaixo de 200, o Chile rondava 100 e o Uruguai registrava menos de 80 pontos.

Outro fator de preocupação é a situação das reservas internacionais, equivalentes a apenas 7,4% do PIB argentino, diante de uma média regional de 15,3%.

O país também enfrenta dificuldades para refinanciar sua dívida externa e terá vencimentos estimados em aproximadamente US$ 29 bilhões em 2027.

A procura por dólares continua elevada. Em setembro, os argentinos adquiriram US$ 3,41 bilhões líquidos, acima dos US$ 3,366 bilhões registrados em agosto. Entre janeiro e setembro, as compras líquidas chegaram a US$ 23,9 bilhões, montante equivalente a 90% das divisas obtidas com o superávit comercial de bens no período.

Popularidade abaixo de 30% e disputas internas

O desgaste econômico se reflete no ambiente político. Pesquisa da CB Global Data, realizada entre 21 e 25 de outubro com 1.151 entrevistados em todo o país, apontou Javier Milei com 27,1% das intenções de voto.

O levantamento representa um sinal de alerta para o governo, que também enfrenta divergências sobre a candidatura presidencial de 2027.

Martín Menem, presidente da Câmara dos Deputados e aliado de Karina Milei, irmã do presidente, afirmou que não existe espaço para outra candidatura presidencial dentro de La Libertad Avanza.

“No hay dos candidatos a presidente en LLA. Es unánime que el único candidato es Javier Milei”, declarou.

A manifestação foi interpretada como um recado à ex-ministra Patricia Bullrich, que passou a comandar o bloco libertário no Senado e demonstra ambições políticas próprias.

As disputas também envolvem Karina Milei e Santiago Caputo, figuras centrais do círculo de poder presidencial, em meio às tentativas de reorganização da base governista.

O cenário expõe a dificuldade de Milei para preservar a unidade de seu movimento político enquanto enfrenta o desgaste provocado pela situação econômica.

Reeleição de Lula amplia desafios diplomáticos

A vitória de Lula acrescentou um componente internacional às dificuldades do presidente argentino.

Ao apostar politicamente na candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei vinculou parte de sua estratégia regional a um resultado eleitoral que não se concretizou.

A permanência de Lula na Presidência brasileira reforça a necessidade de diálogo entre dois governos com orientações políticas distintas, mas responsáveis por economias profundamente interdependentes.

O Brasil é um dos principais parceiros comerciais da Argentina, especialmente para a indústria automobilística e outros segmentos manufatureiros.

Nesse contexto, o distanciamento diplomático pode dificultar negociações bilaterais e iniciativas de integração regional.

Para o C5N, a combinação entre dificuldades econômicas, instabilidade financeira, tensões dentro do oficialismo e reveses internacionais coloca Milei diante de um período de crescente isolamento político.

Embora a oposição argentina ainda não tenha consolidado uma liderança capaz de reunir seus diferentes setores, o presidente enfrenta questionamentos sobre a sustentabilidade de seu programa econômico e sua capacidade de manter a coesão governamental.

A reeleição de Lula, nesse cenário, representa mais do que uma derrota para um aliado ideológico de Milei. Ela altera o ambiente político regional justamente quando o governo argentino enfrenta pressões internas e precisa reconstruir a confiança de investidores, empresários e setores da sociedade.

Redação C/ Brasil 247

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