
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições brasileiras, ampliou as dificuldades políticas e diplomáticas enfrentadas pelo presidente argentino Javier Milei. Segundo análise publicada pelo canal argentino C5N, a derrota da extrema-direita brasileira agravou o isolamento do líder libertário em um momento marcado pela contração da economia argentina, pela deterioração dos indicadores financeiros e pelo crescimento das disputas dentro de seu próprio governo.
Milei havia apoiado publicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro e transformado a eleição brasileira em uma disputa ideológica contra Lula. Quase uma semana depois da vitória do petista, o presidente argentino ainda não havia felicitado o brasileiro, enquanto a chancelaria de seu país indicava que não faria um reconhecimento formal do resultado.
A postura contrasta com a adotada por outros governos latino-americanos, inclusive liderados por políticos de direita, que reconheceram a vitória de Lula. Entre eles estão José Antonio Kast, do Chile; Santiago Peña, do Paraguai; Rodrigo Paz, da Bolívia; e Daniel Noboa, do Equador.
O resultado brasileiro representa um revés para a estratégia internacional de Milei, que apostava no fortalecimento de governos ideologicamente alinhados à sua agenda. A continuidade de Lula no comando da maior economia sul-americana impõe ao presidente argentino o desafio de administrar uma relação bilateral fundamental para os interesses comerciais e industriais de seu país.
Economia argentina volta a registrar contração
O desgaste político de Milei ocorre em meio a sinais de enfraquecimento da economia argentina. Segundo os dados citados pelo C5N, o Banco Central argentino reconheceu uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2026, depois de uma queda de 0,6% no trimestre anterior.
Dois trimestres consecutivos de retração configuram um quadro de recessão técnica e colocam em questão a narrativa governista de recuperação econômica sustentada.
No segundo trimestre, o consumo privado caiu 2,4%, enquanto os investimentos recuaram 0,8%, interrompendo uma sequência de sete trimestres de crescimento.
A desaceleração atingiu principalmente a indústria, a construção civil e o comércio, setores diretamente ligados ao mercado interno e ao poder de compra da população.
O desempenho industrial também revela uma economia dividida. Enquanto os segmentos exportadores cresceram 3,2% em um ano, atividades mais expostas à concorrência externa registraram queda de 9% em agosto.
Entre os setores mais prejudicados estão as indústrias têxtil, de calçados, eletrodomésticos e equipamentos de informática, afetadas pela abertura comercial e pela retração da demanda doméstica.
Segundo levantamento do Banco Provincia citado pela reportagem, a contração acumulada entre dezembro de 2025 e agosto de 2026 está entre as mais intensas registradas na Argentina desde 1993. Desconsiderando a pandemia, seria a terceira maior, atrás apenas das crises de 2001 e 1995.
Mercados financeiros elevam pressão sobre Milei
A perda de confiança também aparece nos mercados financeiros. O índice Merval, principal referência da Bolsa argentina, acumulou queda de 10,1% em uma semana, enquanto ações de empresas do país negociadas em Wall Street sofreram perdas expressivas.
A distribuidora de energia Edenor recuou 17,2%, o Banco Supervielle perdeu 17,1%, o Grupo Galicia caiu 15% e a petrolífera YPF registrou desvalorização de 7,9%.
Os títulos soberanos argentinos em dólares também apresentaram perdas, com recuo médio de 3%.
O risco-país alcançou 790 pontos básicos, o maior patamar desde outubro de 2025, após subir mais de 80 pontos em uma semana.
A comparação regional evidencia a vulnerabilidade argentina. Enquanto o indicador do país superava 700 pontos, o Brasil permanecia abaixo de 200, o Chile rondava 100 e o Uruguai registrava menos de 80 pontos.
Outro fator de preocupação é a situação das reservas internacionais, equivalentes a apenas 7,4% do PIB argentino, diante de uma média regional de 15,3%.
O país também enfrenta dificuldades para refinanciar sua dívida externa e terá vencimentos estimados em aproximadamente US$ 29 bilhões em 2027.
A procura por dólares continua elevada. Em setembro, os argentinos adquiriram US$ 3,41 bilhões líquidos, acima dos US$ 3,366 bilhões registrados em agosto. Entre janeiro e setembro, as compras líquidas chegaram a US$ 23,9 bilhões, montante equivalente a 90% das divisas obtidas com o superávit comercial de bens no período.
Popularidade abaixo de 30% e disputas internas
O desgaste econômico se reflete no ambiente político. Pesquisa da CB Global Data, realizada entre 21 e 25 de outubro com 1.151 entrevistados em todo o país, apontou Javier Milei com 27,1% das intenções de voto.
O levantamento representa um sinal de alerta para o governo, que também enfrenta divergências sobre a candidatura presidencial de 2027.
Martín Menem, presidente da Câmara dos Deputados e aliado de Karina Milei, irmã do presidente, afirmou que não existe espaço para outra candidatura presidencial dentro de La Libertad Avanza.
“No hay dos candidatos a presidente en LLA. Es unánime que el único candidato es Javier Milei”, declarou.
A manifestação foi interpretada como um recado à ex-ministra Patricia Bullrich, que passou a comandar o bloco libertário no Senado e demonstra ambições políticas próprias.
As disputas também envolvem Karina Milei e Santiago Caputo, figuras centrais do círculo de poder presidencial, em meio às tentativas de reorganização da base governista.
O cenário expõe a dificuldade de Milei para preservar a unidade de seu movimento político enquanto enfrenta o desgaste provocado pela situação econômica.
Reeleição de Lula amplia desafios diplomáticos
A vitória de Lula acrescentou um componente internacional às dificuldades do presidente argentino.
Ao apostar politicamente na candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei vinculou parte de sua estratégia regional a um resultado eleitoral que não se concretizou.
A permanência de Lula na Presidência brasileira reforça a necessidade de diálogo entre dois governos com orientações políticas distintas, mas responsáveis por economias profundamente interdependentes.
O Brasil é um dos principais parceiros comerciais da Argentina, especialmente para a indústria automobilística e outros segmentos manufatureiros.
Nesse contexto, o distanciamento diplomático pode dificultar negociações bilaterais e iniciativas de integração regional.
Para o C5N, a combinação entre dificuldades econômicas, instabilidade financeira, tensões dentro do oficialismo e reveses internacionais coloca Milei diante de um período de crescente isolamento político.
Embora a oposição argentina ainda não tenha consolidado uma liderança capaz de reunir seus diferentes setores, o presidente enfrenta questionamentos sobre a sustentabilidade de seu programa econômico e sua capacidade de manter a coesão governamental.
A reeleição de Lula, nesse cenário, representa mais do que uma derrota para um aliado ideológico de Milei. Ela altera o ambiente político regional justamente quando o governo argentino enfrenta pressões internas e precisa reconstruir a confiança de investidores, empresários e setores da sociedade.
Redação C/ Brasil 247



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