Anadia/AL

3 de julho de 2026

Anadia/AL, 3 de julho de 2026

Capitão de Cabo Verde na Copa é investigado por estupro de uma brasileira na Nova Zelândia

Denúncia feita à polícia contra Ryan Mendes tem fotos de hematomas e relatório médico registrando lesões na brasileira, que foi intérprete de Cabo Verde durante amistosos em março na Nova Zelândia

ABN - Alagoas Brasil Noticias

Em 3 de julho de 2026

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Crédito: Reprodução/Fifa e ge

O atacante Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo, é investigado pela polícia da Nova Zelândia em denúncia de estupro feita por uma brasileira (que terá o nome preservado nesta reportagem). O caso ocorreu em março, no hotel onde a equipe cabo-verdiana estava hospedada para a disputa de amistosos na Oceania, e está sob investigação desde 10 de abril.

ge teve acesso a fotos de hematomas que foram entregues à polícia, ao registro da denúncia e ao relatório médico da clínica que deu assistência à brasileira, com exames e atendimento psicológico após o ocorrido. A brasileira estava no local contratada pela Federação Neozelandesa de Futebol como intérprete para a delegação de Cabo Verde, cujo idioma oficial é o português, e apoio operacional da seleção durante o Fifa Series.

A reportagem procurou a família da brasileira, representantes de Ryan Mendes, a polícia, a Federação de Futebol da Nova Zelândia, a Federação de Cabo Verde, a Fifa e advogados que conhecem o trâmite jurídico no país.

Segundo a denúncia, o caso ocorreu em 27 de março deste ano, no hotel onde a delegação de Cabo Verde estava hospedada em Auckland, na Nova Zelândia. A equipe participava do Fifa Series, que são amistosos disputados por seleções de diferentes confederações.

Em março, houve jogos do Fifa Series em oito países diferentes. A seleção de Cabo Verde atuou na Nova Zelândia e disputou duas partidas: derrota para o Chile por 4 a 2, no dia 27, e empate com a Nova Zelândia por 1 a 1 (com vitória nos pênaltis por 4 a 2), no dia 30.

A brasileira, que vive na Nova Zelândia com visto de residência e trabalho, fez parte do evento contratada pela Federação Neozelandesa como intérprete e apoio operacional da seleção de Cabo Verde. Ficou, por isso, hospedada no hotel da delegação, de plantão 24 horas à disposição da equipe.

Ela relatou à polícia que após o primeiro jogo, contra o Chile, foi convidada para uma reunião em uma das salas reservadas à seleção no hotel e compareceu imaginando que seria necessário atuar como intérprete.

Observou, porém, que se tratava de uma confraternização e voltou para o seu quarto ao se sentir fisicamente mal. Relata que pouco depois ouviu batidas na porta do quarto e abriu, pensando se tratar de uma solicitação de apoio do trabalho.

Foi neste momento, segundo a denúncia, que Ryan Mendes entrou no quarto, agrediu-a fisicamente, com esganaduras, socos e mordidas, à medida que ela tentou se defender, e a estuprou.

A brasileira, ainda no hotel, fotografou lesões visíveis, como cortes na boca, hematomas no pescoço, na perna e na lateral do corpo, que foram vistas pelo ge. As imagens que a identificavam foram preservadas pela reportagem.

Mancha roxa no pescoço da brasileira que apresentou denúncia contra Ryan Mendes — Foto: Arquivo Pessoal

           Foto: Arquivo Pessoal

Atendida em uma clínica que auxilia sobreviventes de violência sexual, a brasileira foi submetida a exame forense. O relatório médico identificou múltiplas esquemoses (ou manchas roxas) nas mamas, no pescoço e nos lábios, além de áreas de sensibilidade no couro cabeludo e nas nádegas.

No exame genital, há o registro de “duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios”. Após a assistência da clínica, que ainda presta atendimento psicológico a ela, a brasileira fez o registro de ocorrência policial e passou por uma perícia na delegacia. Ela relata que procurou a Federação Cabo-Verdiana de Futebol, mas não obteve apoio.

Trecho do relatório médico cita lesão genital e múltiplos hematomas em braços, nádegas, mamas, pescoço e lábios — Foto: Arquivo Pessoal

Procurada pelo ge, a polícia da Nova Zelândia confirma o inquérito em andamento. Por leis rigorosas de privacidade do país, não se posiciona sobre nomes de acusados.

– A Polícia da Nova Zelândia confirma que uma denúncia está sendo investigada, registrada em 10 de abril de 2026 na região central de Auckland. Não podemos fornecer mais informações neste momento.

ge apurou que a polícia colheu imagens das câmeras de segurança do hotel e aguarda o laudo pericial dos exames de corpo de delito, realizados há três meses, para fechar o inquérito. Ao fim dessa investigação, a polícia vai decidir se oferecerá a denúncia à justiça.

Uma advogada criminal consultada pela família diz que esse procedimento, de análise dos exames, pode durar até seis meses.

Ao mesmo tempo, a brasileira e o marido enviaram, no dia 10 de maio, notificações extrajudiciais à Federação de Cabo Verde e à Fifa, com o relato, provas e um pedido de punição: a não participação do jogador na Copa. No dia 20, preencheram o formulário de Safeguarding da Fifa, usado para denúncias. Relatam, porém, que não receberam resposta.

Ryan Mendes, de 36 anos, atua no Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia, e foi titular de Cabo Verde nas três partidas da fase de grupos na Copa de 2026. A seleção africana ficou em segundo lugar no Grupo H e se classificou à segunda fase. A adversária será a Argentina, na sexta-feira, em Miami.

– Entendemos que este assunto está com a Polícia da Nova Zelândia, então eles seriam mais apropriados para comentar a situação.

A Fifa, para a qual a família da brasileira enviou uma das notificações extrajudiciais, inicialmente disse que não comenta o caso. Na noite de sábado, horas depois da publicação desta reportagem, a entidade enviou o seguinte posicionamento.

– A Fifa leva qualquer alegação de má conduta extremamente a sério e possui um processo claro para qualquer pessoa no futebol que queira denunciar um incidente. Como regra geral, é importante compreender que os órgãos judiciais independentes não comentam alegações que possam ou não ter recebido, nem se há ou não investigações em andamento sobre os casos alegados. Qualquer informação que desejem compartilhar será comunicada a seu critério. A Fifa está em contato com as autoridades da Nova Zelândia. Por favor, compreenda que não podemos fazer mais comentários neste momento.

A Federação Cabo-Verdiana de Futebol, por sua vez, não se posicionou até o momento desta publicação.

O ge enviou cinco e-mails para os três endereços disponíveis no sistema da Fifa e no site da Federação Cabo-Verdiana, sem nenhuma resposta. O assessor de imprensa disse não ter informações e afirmou que a resposta precisaria vir dos e-mails institucionais.

O ge procurou mais três funcionários que estavam cientes do caso, segundo prints de conversas com a brasileira após o ocorrido. Só um deles respondeu: Gerson Melo, então Diretor de Desenvolvimento, para dizer que não faz mais parte da federação e que não esteve na Nova Zelândia na comitiva.

A reportagem também procurou pessoalmente o assessor da federação em Houston, depois do jogo contra a Arábia Saudita. Ele informou que a entidade não comentaria a denúncia.

O ge procurou ainda o empresário do atacante e ainda não teve resposta. Em caso de retorno, esta reportagem será atualizada.

O trâmite jurídico

ge consultou o guia do Ministério da Justiça da Nova Zelândia e o advogado especialista em direito internacional Mauricio Ejcher para explicar o trâmite jurídico no país da Oceania. Segundo a lei neozelandesa, uma condenação por violência sexual pode resultar em prisão de até 20 anos, de acordo com a gravidade do caso.

Trecho da legislação da Nova Zelândia cita que condenação por violência sexual pode chegar a 20 anos — Foto: Reprodução

Trecho da legislação da Nova Zelândia cita que condenação por violência sexual pode chegar a 20 anos — Foto: Reprodução

Na ordem cronológica, a polícia investiga, decide se tem provas suficientes para apresentar acusação e, se sim, o caso vai a julgamento na Corte Distrital. Os casos criminais, na Nova Zelândia, são julgados por um juiz singular ou por um grupo de júri.

O advogado de acusação, por sua vez, representa a Coroa do país, o público, e as informações que apresenta são baseadas no caso preparado pela polícia. Quem denuncia participa como testemunha.

– O processo judicial tem quatro partes: a administração, para juntar e organizar documentos, a revisão prévia com participação do juiz, o julgamento e a sentença. Cabe uma apelação só, na corte superior, que é regional – explica Mauricio Ejcher.

Em um caso que precise envolver extradição do acusado, caso a polícia ofereça denúncia e decrete prisão, há duas possibilidades: colocar o nome na Interpol, e a pessoa pode ser parada em qualquer fronteira ou país, ou solicitar a extradição através de pedido de cooperação. A Nova Zelândia não tem acordo de extradição com Cabo Verde.

Quem é Ryan Mendes

Ryan Mendes é atacante, tem 36 anos e atua pelo Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia Antes, passou por Batuque, de Cabo Verde, Le Havre e Lille, da França, Nottingham Forest, da Inglaterra, Al-Nasr e Al Saharjah, dos Emirados Árabes, e outros três clubes da Turquia. Ele está na Copa do Mundo pela estreante seleção de Cabo Verde e antes do Mundial disputou quatro edições da Copa Africana de Nações (2013, 2015, 2022 e 2024).

Redação com GE 

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